Quilombo: Território de insurgência – Capítulo 1

Pela profundidade dos brasis, os quilombos mostram que lutar pelo direito ao território é a grande pandemia.

Foto: Ana Carolina Fernandes.

Antes de tudo, como herdeira do povo negro, peço licença ao povo quilombola, especialmente, às mais velhas e aos mais velhos. 

A pandemia começa em 1500 e, atualmente, estamos “colhendo seus frutos” com intensidades diferentes. Se os números apontam a incidência fatal nesses tempos para a população negra periférica no Brasil, quando voltamos nossos olhares para às comunidades quilombolas a situação contém mais camadas de negligência. E isso não só pela morte física, mas, em especial, pelo ato de deixar morrer aos poucos, em que políticas públicas básicas são ignoradas pelo Estado. 

“Nos despedimos do Brasil em 1500 quando ele foi invadido, o país de pessoas livres. E passamos a ser o país da especulação e da escravidão permanente. Os mesmos corpos dos navios negreiro são os mesmos corpos de 2020” afirma Givânia Silva, pesquisadora, quilombola da Comunidade Conceição da Criolla, Pernambuco, e cofundadora da Conaq, durante conversa com o Instituto Socioambiental. 

Segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), o Brasil conta com 6.330 comunidades quilombolas, são mais de 16 milhões de pessoas. Cada Quilombo é um universo de possibilidades, cada um se organiza de acordo com suas tradições e necessidades, são guardiões dos conhecimentos tradicionais que sustentam os brasis. “A palavra Quilombo é originária do idioma africano quimbunco, que significa: sociedade formada por jovens guerreiros que pertenciam a grupos étnicos desenraizados de suas comunidades”, conceitua a Conaq

Quilombo Território de insurgência - Capitulo 1
Casa de Pau a pique. Técnica muito utilizada na construção dos primeiros Quilombos. Foto: Ana Carolina Fernandes.

O Quilombo dos Palmares, já em 1580, representava o grande enfrentamento à opressão escravagista. Destruíram o território, o queimaram, no entanto, o seu legado não morreu, permanece vivo e fundamenta cada palavra de liberdade. “Para mim ser quilombola é eu poder viver, vivenciar e desfrutar de tudo aquilo que os meus ancestrais puderam permitir e potencializar que eu vivesse. Porque um dia eu posso até sair do quilombo, mas o Quilombo jamais sairá de mim” ressalta Laura Ferreira, integrante da Conaq, Bacharel em Direito e quilombola na Comunidade Negra Rural do Quilombo Ribeirão da Mutuca, Mato Grosso, que expressa orgulho em cada afirmação. 

A trajetória dos quilombos denuncia que ainda estamos sendo invadidos e a colonialidade segue em curso. O Brasil rejeita sua história e inventa outra. Aliás quem são os donos das narrativas oficiais? Quem se beneficia quando Quilombo é significado como “lugar de escravos” ou “remanescentes de escravos”? “O Brasil é quilombola”, destaca a Conaq. 

Não existe Brasil sem Quilombo, mas existe Quilombo sem Brasil. 

 

Texto completo publicado inicialmente em www.brasis.org, Brasis – Histórias da periferia na pandemia. Projeto realizado pelo Favela em Pauta e pelo Instituto Marielle Franco.

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Jornalista e Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Mestra em Comunicação.
Colaboradora no Favela em Pauta.
Pesquisadora no Coletivo Magnífica Mundi – UFG e no OBIAH – Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais e decoloniais da Linguagem – UFG.

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