O consumo em cheque

Com a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) o estilo de vida da espécie humana foi profundamente alterado em crenças e atitudes e uma questão salta às vistas como algo que não mais poderemos ignorar: o consumo do planeta.

O consumo em cheque
O consumo em cheque

Após algum tempo distante, retorno para colaborar como blogger no Raízes num momento em que o posicionamento esclarecido, o diálogo pautado pelo conhecimento científico e a capacidade de alteridade se fazem essenciais para a sobrevivência no planeta.

Com a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) o estilo de vida da espécie humana foi profundamente alterado em crenças e atitudes e uma questão salta às vistas como algo que não mais poderemos ignorar: o consumo do planeta. Não apenas do consumo NO planeta, mas também do consumo DO planeta enquanto fonte de recursos para a existência humana e a propagação de hábitos desenfreados destinados a mover uma engrenagem econômica que pretere tudo ao lucro.

Fruto de relações desarmônicas como o desmatamento das florestas tropicais e o consumo de animais selvagens 1Dos primeiros 41 doentes infectados com o novo coronavírus em Wuhan, na China, 27 tinham visitado o mercado de Wuhan, onde animais selvagens são empilhados vivos, abatidos e vendidos para consumo movimentando um mercado bilionário naquele país. Em distintas partes do mundo, outras doenças virais tiveram inicio com o consumo ou contato direto com animais como o HIV (chimpanzés), vírus da gripe (porcos e aves) e ebola (provavelmente morcegos)., a pandemia demonstra uma das faces do desequilíbrio da existência humana na Terra fazendo a ponte entre microrganismos potencialmente causadores de moléstias e as sociedades urbanas causando pânico na raça humana e desestabilizando nações política e economicamente.

Com isso, tivemos de viver um momento delicado de comoção e mobilização mundial para nos recordarmos de que (pasmem) apesar das fronteiras geopolíticas que nos separam em países, estamos todos interconectados e dependemos dos mesmos recursos para sobrevivermos.  E é nesse momento delicado da existência humana que se evidencia o óbvio: os grupos marginalizados e minorias étnicas acabam muito mais impactados do que os ricos e privilegiados.

Muito se discute sobre os novos desafios e distintos panoramas em que as realidades se descortinarão no pós pandemia, incluindo aí medidas emergenciais e desesperadas para salvar uma economia que vem desde a Revolução Industrial consumindo recursos do planeta como se estes fossem infinitos. Martínez Alier, catedrático da Universidade Autônoma de Barcelona e autor do clássico “O Ecologismo dos Pobres” afirma que o sistema econômico global continua a ser material e essencialmente feito de petróleo, carvão, ouro e cobre dentre tantas outras riquezas da Terra, o que evidencia ser um mito o discurso do «desenvolvimento sustentável» e que os pobres encabeçam a efetiva proteção dos recursos naturais do planeta – ainda que paguem com a vida por isso.

Neste sentido, a organização internacional Global Footprint Network (GFN) calcula anualmente o limite do uso sustentável de recursos naturais disponíveis no planeta. Conhecido por Dia da Sobrecarga da Terra, leva em conta todas as demandas concorrentes das pessoas por áreas biologicamente produtivas – alimentos, madeira, fibras, sequestro de carbono e acomodação de infraestrutura. Em 2019, a humanidade atingiu esse limite no final de julho. Para esse ano, com a freada brusca imposta pela pandemia, a data foi estendida para 22/8, o maior prazo em 15 anos.

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Dentre alguns dos fatos (simples, porém impressionantes) para o planeta nesta pandemia pudemos observar os recursos hídricos relativamente limpos como há muito não se via em diversas localidades, a queda drástica de indíces de poluição nos maiores centros urbanos globais – o que permitiu, por exemplo, o avistamento da Cordilheira do Himalaia depois de 30 anos de ocultamento por nuvens de poluição, a invasão de vida selvagem nas ruas das principais cidades e capitais mundo afora, desovas de milhares de tartarugas em praias antes abarrotadas por turistas e até a reprodução de pandas (animais ameaçados de extinção) em cativeiro após 10 anos de tentativas infrutíferas.  Parece que o silêncio da espécie humana impacta positivamente a vida da Terra, veja só!

Ainda que a parada da maioria das atividades humanas tenha repercutido em um “bônus mensal de vitalidade” para a relação homem-planeta, o alto consumo de itens alimentares processados, bem como do varejo virtual já tem produzido quantidades astronômicas de resíduos para os aterros, lixões e, infelizmente, a pior das opções: os oceanos do planeta. Comemoramos o dia mundial dos oceanos no último 8 de junho com a triste constatação da Organização das Nações Unidas (ONU) de que 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos anualmente e de que já existe plástico há 11.000 metros de profundidade!

Segundo a GFN, “este ano, mais do que nunca, o Dia da Sobrecarga da Terra oferece uma oportunidade sem precedentes para refletir sobre o futuro que queremos. Os esforços para responder ao COVID-19 demonstraram que é possível mudar as tendências de consumo de recursos ecológicos em um curto espaço de tempo.”

Assim, resta saber se voltaremos das quarentenas dispostos a repensar o consumo do planeta de forma mais conectada e consciente buscando efetivamente dividir o espaço com as demais formas de vida e encontrar um equilíbrio existencial (que englobe um modelo econômico viável) para as novas gerações ou se, numa insanidade coletiva, perseguiremos um modelo defasado de desenvolvimento em busca do retorno a uma realidade que esgotou-se há muito tempo.

Qual caminho te move? Para onde queremos ir?

Somos UM,

Felipe Jacinto.

Notas   [ + ]

1.Dos primeiros 41 doentes infectados com o novo coronavírus em Wuhan, na China, 27 tinham visitado o mercado de Wuhan, onde animais selvagens são empilhados vivos, abatidos e vendidos para consumo movimentando um mercado bilionário naquele país. Em distintas partes do mundo, outras doenças virais tiveram inicio com o consumo ou contato direto com animais como o HIV (chimpanzés), vírus da gripe (porcos e aves) e ebola (provavelmente morcegos).
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Etnobiólogo.

Especialista em Antropologia e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará.

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