Perspectivas e desafios para a educação superior na América Latina e o Caribe

Entrevista com Roberto Leher, Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com comentários de Mário Luiz Neves de Azevedo

Roberto Leher

Nesta entrevista com respeitado intelectual na área de Educação Superior e reitor desde 2015 da maior e uma das mais antigas universidades públicas brasileiras, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Prof. Roberto Leher discorre sobre os preparativos da comissão de reitores da Asociación de Universidades Grupo Montevideo (AUGM) para a III Conferência Regional para a Educação Superior (CRES/2018) e trata das perspectivas e dos desafios que se manifestam na atual conjuntura da educação superior no Brasil, na América Latina e no mundo. Também complementa informações advindas de sua participação na referida Conferência. Sua fala envolve aspectos como a concepção de educação superior como bem público e direito humano fundamental social e individual; a mercantilização do setor; o papel de organismos internacionais nos rumos da educação superior mundial; a ciência e o desenvolvimento; a “internacionalização” ou “transnacionalização” da educação superior;” a importância da CRES para o futuro da universidade e o papel da participação e da mobilização estudantil nesse cenário.

Desafiando o império positivista na prática da internacionalização da educação superior

A ideia de decolonizar a universidade e seu modo de inserção internacional faz parte do projeto mais amplo de busca por justiça social e econômica.

Desafiando o imperio positivista

Educação superior, universidade e internacionalização coloniais As interpretações dominantes do mundo em determinada época facilitam, possibilitam e validam as transformações sociais conduzidas pelos grupos hegemônicos. Notadamente, a expansão mundial do sistema capitalista não teria se concretizado sem a legitimação dos princípios de apropriação e exploração conferidos pela ciência moderna e sua diferenciação hierárquica radical entre humanidade e natureza ou sujeito e objeto. A universidade é simultaneamente produtora e produto desse projeto civilizatório. Suas divisões disciplinares, seus modelos teóricos e suas histórias eurocentradas consagram o padrão de poder capitalista/moderno/colonial. Do mesmo modo, trata-se de uma instituição cujas práticas se alimentam do modo binário pelo qual o conhecimento é majoritariamente produzido e organizado. É nesse sentido que a “internacionalização da educação superior” […]

A armadilha da competição entre instituições universitárias

À medida que os rankings acadêmicos globais excluem de seu escopo funções universitárias, tradições e especificidades contextuais distanciadas da lógica cultural eurocentrada e de seus interesses particulares, eles não somente “privilegiam os já privilegiados”, como também silenciam epistemologias, práticas e modos de existência.

competição entre instituições universitárias

Se a educação superior contemporânea pudesse ser sintetizada a partir de suas tendências mais recentes, tal síntese incluiria aspectos como a redução global do financiamento público para as instituições universitárias; as pressões para o isomorfismo em termos de forma de construção e disseminação do conhecimento, de modelo institucional, de estrutura curricular e de idioma; o predomínio da ideia de formação universitária voltada a suprir as necessidades instrumentais do mercado mundial de trabalho capitalista, além da acentuada ênfase na produção de conhecimento útil à indústria. Em grande medida, tais tendências resultam da proliferação e do aprofundamento de imperativos mercadológicos na totalidade do setor. Inscritas na conjuntura socioecômica mais ampla do neoliberalismo, configuram-se como distintas, porém entrelaçadas manifestações de “capitalismo acadêmico”. Se articulam, […]

“Los dolores que quedan son las libertades que faltan”: A Conferência Regional de Educação Superior e o centenário do Movimento de Córdoba. Princípios para a internacionalização das universidades públicas latino-americanas?

Os cem anos da Reforma Universitária de Córdoba, movimento político, social e cultural que ecoou, de diferentes formas, nas universidades públicas da América Latina, vem nos recordar da função social dessas instituições e nos despertar para princípios a serem considerados em seus processos de internacionalização.

Reforma universitaria

Como narrativa política hegemônica, a internacionalização da educação superior tem sido projetada como bem incondicional; via para a “excelência universitária” e caminho inequívoco a ser percorrido por aqueles que almejarem incluir-se à “economia do conhecimento”. Em contraponto a essa narrativa – que em grande medida se desenvolve distanciada das discussões sobre os riscos que o excesso de racionalidade econômica tem provocado no setor e na sociedade em geral – diversos estudos explicitam problemas políticos e éticos atrelados à ressignificação dada às relações internacionais acadêmicas e universitárias contemporâneas. O argumento central é de que a recente ênfase na internacionalização((Cabe, aqui, uma breve distinção entre a ideia reducionista de internacionalização projetada pelos organismos internacionais e acriticamente aceita por governos, instituições e estudiosos […]

“Global citizens wanted” (II): confrontando o discurso dominante sobre a internacionalização do currículo na educação superior

Para os situados “deste lado” da linha abissal, mais relevante do que a “internacionalização do currículo” é a “decolonização do currículo”.

Decoloniza tu mente - Cidadania global

No último texto, tratamos de como a noção de “cidadania global” enfatizada pelo discurso hegemônico sobre internacionalização do currículo na educação superior se refere a um construto naturalizado da modernidade/colonialidade, que só pode existir por vias da degradação ontológica e epistêmica do “outro”; de seu desaparecimento como realidade. Dado o histórico desmantelamento do sistema de referências da sociedade colonizada, que passa a ser descrita como uma sociedade sem valores, o Sul Global emerge no contexto de internacionalização como um espaço que demanda desenvolvimento e serviços e a serem supridos pelo Norte, com uma população cujas aspirações de “ser alguém”, “tornar-se um cidadão global” são valorizadas por aqueles capazes de “proporcionar” tais feitos. A ênfase nesse discurso tem relação íntima com […]

“Global citizens wanted” (I): cidadania global como construto do imaginário moderno/colonial da internacionalização do currículo

Para que o cidadão global exista, o “outro” – cidadão não-global, sujeito sujeitado, menos racional e humanamente inferior – também precisa existir.

Em tempos de expansão e consolidação de um mercado mundial para a educação superior, a proliferação de rótulos, classificações e indicadores para fazer referência às tendências transnacionais no ensino e na pesquisa significa mais do que um exercício de tautologia ou tentativa imparcial de organização de um campo de estudo. Na ótica do capitalismo acadêmico, expressa a criação de novos “produtos” e “serviços”, construtos destinados a transformar-se em aspirações e atuar no imaginário daqueles que compram. No plano da experiência imediata, o colonizado, que viu o mundo moderno penetrar até os cantos mais remotos da mata, toma uma consciência muito aguda daquilo que ele não possui (Frantz Fanon – Os condenados da terra). Entre as tendências mais recentes no discurso […]