Para além do discurso acadêmico dominante sobre internacionalização da educação superior: Extratos de entrevista com Chrystal George Mwangi, Professora Associada da University of Massachusetts Amherst, Estados Unidos

As reflexões da Dra. George Mwangi nos possibilitam vislumbrar a importância de ‘habitar a fronteira’ (Mignolo, 2017), isto é, de confrontarmos histórias locais com projetos globais, na busca por outras formas de fazer, pensar, viver e ser nas relações internacionais da educação superior.

Chrystal George Mwangi

A pesquisa em internacionalização da educação superior tem se configurado de forma predominantemente a-teórica e positivista: antes orientada para a consecução de objetivos práticos do que preocupada com as estruturas mais amplas nas quais esse fenômeno opera, seus dilemas e suas contradições. Em contraponto às promessas associadas ao fenômeno pelos discursos dominantes, as crescentes desigualdades abrem margem para que sua definição como uma intervenção neutra, coerente e baseada no conhecimento seja reconhecida e questionada. Para George Mwangi et al. (2018, p. 3, tradução nossa), pesquisadores e journals internacionais frequentemente falham “ao abordar o poder e a hegemonia que estão embutidos nos sistemas e nas parcerias existentes na educação superior”. Buckner e Stein (2019, p. 2, tradução nossa) observam que “os […]

Uma pandemia imersa na longa trajetória do sistema mundial capitalista: Coronavírus e a universidade pública brasileira

O combate aos efeitos discriminatórios do Coronavírus deve se dar por vias de ações que visem a transformar a realidade, incluindo a realidade das próprias instituições designadas a atuar no seu combate.

Coronavírus e a universidade pública brasileira

Em “A cruel pedagogia do vírus”, Sousa Santos (2020) retoma o debate acerca de quais circunstâncias mais bem possibilitam conhecer a verdade e a qualidade das instituições de uma dada sociedade: as de normalidade ou as de crise. Tratando especificamente da crise em evidência, o autor questiona: “Que potenciais conhecimentos decorrem da pandemia do coronavírus?” (Sousa Santos, 2020, p. 5). Inspirada em seu questionamento, reflito sobre o que a pandemia em curso tem a dizer sobre a instituição universitária pública brasileira. Particularmente, situo a crise decorrente do coronavírus na longa trajetória do sistema mundo capitalista (Wallerstein, 2006; Guillén, 2020), dado o entendimento de que seus efeitos devastam, sobretudo, o ‘Sul’. Então, argumento sobre como a universidade sujeitada à lógica produtivista […]

Por uma visão não míope das relações Sul-Sul em tempos de ‘internacionalização da educação superior’

As interações entre o Sul seguem como importante ‘objeto’ de estudo para o rastreamento de práticas desvinculadas da racionalidade moderna/colonial dominante, mas é preciso ser realista: considerar a natureza politica, os interesses e as assimetrias de poder presentes nas relações internacionais.

relações Sul-Sul

A ideia de cooperação Sul-Sul (CSS) ganha relevância a partir um cenário de descontentamento com as assimetrias existentes na arena internacional; de questionamento sobre a efetividade do modelo ocidental de desenvolvimento e de crítica ao viés assistencialista comumente observado nos vínculos entre o ‘Norte’ e o ‘Sul Global’((O conceito de ‘Sul Global’ ou ‘Sul’ desvincula-se de seu caráter geográfico. Na maior parte das interpretações, diz respeito ao “agrupamento que reúne os chamados ‘países em desenvolvimento’ (países de renda média e países de renda baixa)” (Leite, 2012, p. 4): uma grande quantidade de países da África, da Ásia e das américas Central e Latina – cerca de 160 de um total de 195 Estados reconhecidamente independentes – que enfrentam desafios significativos […]

Os limites da crítica à ‘internacionalização da educação superior’

Quaisquer esforços críticos para tratar da universidade e das relações internacionais estabelecidas nesse domínio são enriquecidos quando explicitamente situados dentro da história colonial.

Cambio Verdadero

Um dos desenvolvimentos recentes no contexto da “internacionalização da educação superior” é o maior reconhecimento de que ao lado das oportunidades que esse processo oferece há uma série de questões políticas e éticas que são complexas, contraditórias e contestáveis. Integram o núcleo da crítica ao processo o entendimento de que as motivações e os interesses econômicos/mercadológicos para internacionalizar têm se sobressaído aos demais (acadêmicos, socioculturais etc.); de que a internacionalização está “perdendo o seu rumo” (Knight, 2014, p. 76, tradução nossa); de que nesse campo a competição avança em detrimento da cooperação((De Wit (2019, p. 12, tradução nossa) resume o contexto desta forma: “Em outras palavras: uma evidente mudança de (somente) cooperação para (mais) competição.”)); de que a internacionalização deveria […]

A consolidação da ‘internacionalização da educação superior’ no Brasil segundo os moldes do capitalismo universitário global

Caso o ‘Future-se’ se efetive, as circunstâncias para perspectivas de inserção internacional que busquem por futuros mais inclusivos e sustentáveis estarão ainda mais restringidas.

capitalismo universitário global

Em texto publicado em junho de 2019, contextualizei as medidas governamentais da gestão Bolsonaro no que diz respeito à educação superior brasileira. Argumentei que os diversos esforços empreendidos em defesa da universidade pública eram imprescindíveis, mas necessitavam transcender as categorias coloniais para que não acabassem justificando o próprio fim dessa instituição. Como Mignolo (2017, p. 17) ressalta em sua crítica decolonial, “se nos dirigirmos à modernidade, permaneceremos presos à ilusão de que não há outra maneira de pensar, fazer e viver”. Embora o principal alvo dos ataques – a universidade pública – já estivesse definido, até recentemente nenhuma reforma abrangente havia sido implementada. As medidas alcançaram outra proporção quando, em junho de 2019, o Ministério da Educação anunciou o “Future-se: […]

As medidas contra a educação superior brasileira e a necessidade de ressurgir, reemergir e re-existir

É preciso que os esforços em defesa da universidade pública não se apoiem nos mesmos mecanismos que justificam o seu fim.

educação superior brasileira

A violência das medidas governamentais direcionadas à educação superior brasileira tem sido causa de grande aflição entre reitores, comunidades universitárias e a sociedade em geral. Os diversos esforços e argumentos empreendidos em defesa da universidade pública são fundamentais, mas para que não recaiam nas categorias coloniais da racionalidade dominante, devem transcender a lógica reprodutivista do sistema de capital. Incertezas, controvérsias e retrocessos De janeiro a março de 2019, o Ministério da Educação esteve representado por Ricardo Vélez Rodrigues. Sua gestão foi palco de uma espécie de ‘guerra interna’ entre seguidores do filósofo autodeclarado Olavo de Carvalho e membros do corpo militar, o que resultou na demissão de mais de dez pessoas em cargos de alto nível. A postura do então […]