Universidade da distância

É muito difícil para um funcionário público cumprir as oito horas-aula semanais semi-obrigatórias enquanto é pago por quarenta.

Universidade da distância
Universidade da distância

Universidade da distância?

Ao iniciar a escrita do rascunho desta coluna, a primeira reflexão circundava o título. As hipóteses eram múltiplas: Alternativas como a filosofia da distância ou o ensino da distância surgem como óbvias, mas acompanhadas de outras como o direito da distância e a medicina da distância. A engenharia da distância e a economia da distância, como outras, não demorariam muito a surgir. Talvez seja hora de pensarmos o curso da distância.

A filosofia e o ensino da distância permitiriam aos docentes-mestres se manterem nos topos de suas torres de marfim, enquanto mantém toda a demagogia necessária, alardeada como pedagógica, para a reprodução de seu pensar-agir-ser, sem qualquer risco de ser interrompido ou questionado por aqueles que formata, à partida. A máquina de (re)produção acadêmica no seu melhor. De longe.

O direito da distância legalizaria a possibilidade de não manter qualquer tipo de contato ou relação entre docentes e discentes. Possivelmente levando a um nível ainda maior de judicialização da educação. “Meu caro aluno, não há qualquer artigo em nosso estatuto em que haja a previsão de responder tal questionamento. Afirmo ainda que em todo o nosso estatuto, todas as menções para questionamentos remetem para aqueles que estão incluídos nos exercícios de fixação de conteúdo.”

A medicina da distância saudaria a possibilidade do doutor-docente (sem doutorado) permanecer em uma de suas clínicas enquanto virtualmente permanece em sala de aula. Enfim os médicos poderão justificar a capacidade compartilhada entre TODOS os seus pares de superar as 168 horas semanais de trabalho pago no contra-cheque. Viva a onipresença.

A engenharia (e a arquitetura) da distância desenharia(m) todo o aparato necessário para garantir que seja impossível romper-lá. Discentes de um lado, docentes do outro. Se possível sem qualquer conexão ou relação entre eles, muito além do ambiente virtual de aprendizagem. Não haverá dificuldade em otimizar a comunicação assíncrona.

A economia da distância revelaria as facetas mais nefastas, digo, produtivistas, do modelo de terceirização da educação. Entrariam em campo todo o zoológico disponível. Tutores, instrutores, monitores, consultores, corretores, etc. Desde aulas em video gravadas e reproduzidas sem edição (ou interação) por anos, até turmas com literalmente centenas – se calhar milhares – de alunos, por turma.

Em todos os contextos acima o curso da distância sugere como as interações de discentes aos docentes se tornariam reduzidas, controladas, e facilmente poderiam ser suspensas ou mesmo completamente suprimidas, para garantir a otimização do escasso e caro tempo disponível do docente. Este seria virtualizado.

Mesmo com a morte física de docentes – ou com a sua aposentadoria -, seus ensinamentos permaneceriam “vivos” – e especialmente em uso no sistema. Porque escrever ou ler, porque discutir e refletir, se podemos simplesmente absorver e reproduzir o prévio? Seria no mínimo uma bonita nostalgia e uma verdadeira homenagem e continuidade aos atuais planos de ensino, currículos de cursos e projetos político pedagógicos, sempre escritos em pedra – e abandonados nos arquivos mais distantes e inacessíveis possíveis. Até precisar ser copiado pela mais nova escola da rede. Nova Escola. Como a balada de Brecht.

Após passar por diferentes áreas do saber, as reflexões vão se revelando convergentes. Não falamos de uma filosofia da distância, tampouco do direito da distância. Falamos da universidade da distância. É muito difícil para um funcionário público cumprir as oito horas-aula semanais semi-obrigatórias enquanto é pago por quarenta. As outras trinta-e-duas são necessárias. De serem comprovadas. Somente.

Afinal não há técnicos suficientes para realizar e gerir todas as atividades administrativas ocupadas por docentes. Aliás, técnicos que nunca puderam ser reitores. Os primeiros reitores eram todos discentes. Sem as trinta-e-duas horas extras não haveria tempo disponível para re-pensar como terceirizar inúmeras atividades de ensino para monitores, bolsistas, estagiários e criaturas assemelhadas. Nem mesmo para colocar orientandos para serem “co-autores” ao solo-escreverem o “seu” mais novo artigo cientifico. Como manter a quantidade anual mínima exigida de publicações para avançar na carreira docente – e no salário – sem explorar mão-de-obra terceirizada e não contratada para tal?

Bons tempos onde os reitores universitários obrigatoriamente eram alunos. Quando os docentes eram mestres e recebiam por hora em sala de aula. E quando eram contratados pela sua capacidade científica conhecida.

Atualmente os reitores são vagas exclusivas para docentes. Que interrompem o tempo em sala de aula durante o mandato. Hoje docentes recebem mais por tempo fora de sala de aula do que dentro. Inclusive recebem para ficar fora da universidade. São contratados pela sua capacidade alardeada de (re)produzir ciência. Não são mais tempos de republicanos. Agora são tempos de republicandos.

A decisão de grandes universidades públicas no Brasil de alimentar e aceitar a educação da distância como alternativa para o ensino público, gratuito e de qualidade pode ser um caminho sem volta. A real possibilidade de não mais ter qualquer contato com discentes enquanto sustenta os gordos salários é no mínimo sedutora para todo o corpo docente que permanece em silêncio. Me questiono o que seduz discentes a permanecerem em silêncio e inertes. Ora, para propostas menos problemáticas de universidade da distância já temos a Universidade Aberta do Brasil.

O posicionamento de docentes e discentes sobre esta transição está no mínimo atrasado – para não dizer majoritariamente ausente. Quando os primeiros docentes estiverem negociando os direitos sobre os materiais produzidos, e sendo contratados (e demitidos) por aula, ou quando os discentes estiverem pagando adicional por aula presencial nas instituições que ainda (ou a partir de então) possuírem tal estrutura, será um pouco tarde. Com universidades públicas sendo esvaziadas e virtualizadas, a implementação definitiva de neo-versões do future-se será muito mais fácil – e provavelmente irreversível.

mm

Graduado e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

Pesquisador e doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal.

¿Qué te ha parecido?

(3 votos - Media: 3.7)