Uma pandemia imersa na longa trajetória do sistema mundial capitalista: Coronavírus e a universidade pública brasileira

O combate aos efeitos discriminatórios do Coronavírus deve se dar por vias de ações que visem a transformar a realidade, incluindo a realidade das próprias instituições designadas a atuar no seu combate.

Coronavírus e a universidade pública brasileira
Coronavírus e a universidade pública brasileira

Em “A cruel pedagogia do vírus”, Sousa Santos (2020) retoma o debate acerca de quais circunstâncias mais bem possibilitam conhecer a verdade e a qualidade das instituições de uma dada sociedade: as de normalidade ou as de crise. Tratando especificamente da crise em evidência, o autor questiona: “Que potenciais conhecimentos decorrem da pandemia do coronavírus?” (Sousa Santos, 2020, p. 5).

Inspirada em seu questionamento, reflito sobre o que a pandemia em curso tem a dizer sobre a instituição universitária pública brasileira. Particularmente, situo a crise decorrente do coronavírus na longa trajetória do sistema mundo capitalista (Wallerstein, 2006; Guillén, 2020), dado o entendimento de que seus efeitos devastam, sobretudo, o ‘Sul’. Então, argumento sobre como a universidade sujeitada à lógica produtivista do capital, distanciada de sua autonomia (condicionada à sociedade) e de sua função social (por vias da extensão),  pouco tem a contribuir com os assuntos relevantes da sociedade em que se integra.

Situados ‘ao Sul’: Uma pandemia com efeitos marcados pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado

A despeito da ideia dominante de que a pandemia em curso afeta as vidas de todos os sujeitos, é fato que seus efeitos não avassalam tais vidas em formas e graus de intensidade semelhantes (Alvarado, 2020). Os grupos sociais que compõem o ‘Sul’ são aqueles para os quais o coronavírus tem se manifestado de forma mais impiedosa.

O ‘Sul’, aqui, desvincula-se de seu caráter geográfico. Trata-se de um conceito relacional, que invariavelmente remete a uma relação de desigualdade. Contempla os sujeitos oprimidos pelas injustiças causadas pelos principais modos de dominação desde o século XVII, precisamente: a exploração capitalista, a discriminação racial e a discriminação sexual. O ‘Sul’ é o espaço-tempo que designa uma condição histórica de subalternidade; é a ‘zona de não ser’ (Fanon, 2005) ou a face oculta e o lado mais sombrio da modernidade (Mignolo, 2011), que volatiza e desaparece como realidade.

Sousa Santos (2020) faz referência a alguns dos grupos sociais que compõem o ‘Sul’ diante do contexto em evidência, ou seja, os mais vulnerabilizados pela crise da pandemia: as mulheres; os trabalhadores informais e da rua; os sem-abrigo; os moradores de periferias e favelas; as populações deslocadas e em campos de refúgio; os deficientes; os idosos. Tais grupos situam-se ‘ao Sul da quarentena’ não por força do acaso, mas por serem os principais alvos do permanente estado de crise em que o mundo, imerso em um padrão de poder colonial (Quijano, 2005) e sujeitado à lógica do neoliberalismo e do setor financeiro, se encontra. Portanto, “a pandemia não é cega” (Sousa Santos, 2020, p. 7); tão somente agrava e explicita desigualdades latentes e historicamente constituídas.

A ‘cruel pedagogia do vírus’: Por novos horizontes de possibilidades para a universidade pública brasileira

A universidade publica brasileira tem desempenhado um papel importante ao enfrentamento do coronavírus. Leher (2020) e Knobel (2020) acreditam que o momento corrente tem, inclusive, contribuido para a conversão de sua ‘crise de legitimidade’ perante a sociedade brasileira. São elas as responsáveis pela vasta maioria da pesquisa desenvolvida no país. Além disso, suas vozes são contrapontos imprescindíveis à luta contra o negacionismo da gravidade do vírus e a ideia de ‘ciência como ficção verbal’ propagada pelo governo brasileiro (Leher, 2020).

Mas a universidade pública brasileira é e pode ser mais do que isso. Sua histórica cumplicidade no que diz respeito à expansão perpetuada do capitalismo e à reinscrição da humanidade em uma hierarquia radical dificulta concebê-la para além da racionalidade dominante. A ‘cruel pedagogia do vírus’ – que revela a incapacidade das instituições sujeitadas à lógica do capital para responder às situações de emergência (Sousa Santos, 2020) – transparece que talvez os aspectos mais negligenciados pela lógica do capitalismo universitário sejam justamente aqueles dos quais a sociedade em que essa instituição se integra mais depende no atual momento.

Falo, aqui, especificamente da importância do seu legado extensionista, frequentemente silenciado pelos diversos instrumentos de avaliação de ‘qualidade’. O trabalho de extensão, que possibilita associar qualidade a pertinência, contrapõe tendências contemporâneas como a busca incessável pelo prestígio internacional; a precarização dos contratos de trabalho; a submissão dos temas de pesquisa e currículos às demandas do mercado mundial capitalista; a concepção de estudante como cliente. A pandemia é, portanto, uma oportunidade de reimaginar a universidade; vislumbrar novos horizontes de possibilidades para a sua existência a partir de uma de suas missões; distanciá-la do histórico padrão de poder característico das relações extrativistas e, com isso, fortalecer sua capacidade de combater aos seus efeitos perpetuados.

Em sentido amplo, a extensão pode ser associada às ideias de autonomia condicionada à sociedade ou de contextualização das atividades universitárias; visa a atuar como motor de práticas universitárias integrais e fomenta um diálogo de saberes científicos e populares, que perpassa e transforma o ensino e a pesquisa (Arocena & Tommasino, 2011; Tommasino & Cani, 2016; Tommasino & Stevenazzi, 2016).

À medida que o coronavírus demonstra a fragilidade da economia capitalista (Gandásegui, 2020), dada a sua imersão na longa trajetória desse sistema (Wallerstein, 2006; Guillén, 2020), o combate aos seus efeitos discriminatórios deve se dar por vias de ações que visem a transformar a realidade, incluindo a realidade das próprias instituições designadas a atuar no seu combate.

Referências

Alvarado, A. El Covid-19 y las desigualdades sociales. Pensar la pandemia. Observatorio Social del Coronavirus, 19. CLACSO. https://www.clacso.org.ar/biblioteca_pandemia/detalle.php?id_libro=2018

Arocena, R. & Tommasino, H. (2011). Lineamientos generales para el avance de la curricularización de la extensión y generalización de las prácticas integrales en la Universidad de la República. Montevidéu: Universidad de la República.

Fanon, F. (2005). Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora da UFJF.

Gandásegui, M. (2020). La crisis del capitalismo y el coronavirus. Pensar la pandemia. Observatorio Social del Coronavirus, 24. CLACSO. https://www.clacso.org.ar/biblioteca_pandemia/detalle.php?id_libro=2040

Guillén, A. ¡No es el coronavirus, estúpido! Es una nueva fase de la crisis del capital. Pensar la pandemia. Observatorio Social del Coronavirus, 10. CLACSO. https://www.clacso.org.ar/biblioteca_pandemia/detalle.php?id_libro=2017.

Knobel, M. (2020). Universities have a vital role in fighting coronavirus. University World News. https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20200529085010849

Leher, R. (2020). Ciência, Universidade e Interpelações da Pandemia. https://www.youtube.com/watch?v=O3IW8hXnxL0

Mignolo, W. (2011). The darker side of western modernity: global futures, decolonial options. Durham & London: Duke University Press.

Mignolo, W. (2017). Desafios decoloniais hoje. Epistemologias do Sul, 1(1), 12–32.

Sousa Santos, B. De. (2020).  A cruel pedagogia do virus. Coimbra: Edições Almedina, S. A.

Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. A colonialidade do saber. Eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas, 227–278.

Tommasino, H. & Cani, A. (2016). Modelos de extensión universitaria en las universidades latinoamericanas en el siglo XXI: tendencias y controversias. Universidades – Unión de Universidades de América Latina y el Caribe, 67, 7–23.

Tommasino, H. & Stevenazzi, F. (2016). Reflexiones en torno a las prácticas integrales en la Universidad de la República. Revista +E, 6, 120–129.

Wallerstein, I. (2006). Impensar a ciência social. São Paulo: Ideias & Letras.

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É doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil, foi pesquisadora visitante do Center for International Higher Education (CIHE), Boston College, Estados Unidos, de 2018 a 2020, e é secretária-executiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil.

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

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