Uma mestra Kaingang

Hoje, 24 de março, eu estive presente durante a defesa pública de uma dissertação de mestrado em antropologia social, onde a parte autora, sendo avaliada acabou tendo ingresso no programa de pós-graduação via as famigeradas cotas étnico-raciais. Ela é indígena. Kaingang. Do sul [da mata atlântica] do Brasil. No sul da América do Sul. Do sul do mundo. Geográfico, econômico, político, científico, acadêmico. E antropológico.

É curioso o reconhecimento de certa parte avaliadora da banca sobre a pertinência da presença de indígenas na universidade (e na antropologia, por consequência), que se inicia exaltando a questionável (e filha pródiga, de todas as integrantes, todas mulheres, da banca) licenciatura indígena, mas concluindo com agradecimentos ao convite por poder participar da banca de avaliação (deste tipo de discente), ainda que não poupe críticas a “falta de formatação adequada aos padrões da academia” enquanto cumprimenta o resumo em Kaingang e tantas lembram da honra pela presença de certa senhora na plateia.

Perguntaria eu, porque ela, a senhora, não está na banca? E era esta a minha crítica em uma primeira versão deste texto, escrito on air. Durante a defesa. E eis que sou surpreendido pelo informe da única antropóloga na sala de que teremos uma intervenção desta senhora. Ao final. É claro que aquelas e aqueles que nunca serão antropólogas ou antropólogos prontamente sacaram as máquinas de fotografar os smartphones, ou até choravam durante a fala – que não se prestaram a ouvir. A pertinência de tal abertura e ruptura ao protocolo é que fora ignorada. Está mais do que na hora de subalternxs e sujeitxs de estudo serem não apenas parte ativa da pesquisa, como críticxs e avaliadorxs da respectiva. E eu dispensaria a necessidade de canudos de papel.

Mas ainda assim, aquelas outras, o restante da banca, será que sabem que este programa de pós-graduação pode conceder honoris causa? Como a universidade já emitiu outras vezes. Se calhar não, pois este departamento nunca emitira nenhum. Curiosamente costumam expulsar de lá os bons candidatos -e boas candidatas- ao título, seja aposentando-os prematuramente [1], seja por não os aceitar em programas de pós-graduação [2].

A presença indígena na universidade é ironicamente questionada, quando durante a última ocorrência do maior encontro de estudantes indígenas do Brasil, que ocorreu na mesma universidade. Por quase uma semana, esta gente, e o resto do departamento inteiro, lá não colocaram os pés, pois “Lugar de índio é na floresta“, frase esta que eu ouvi de uma das partes faltantes deste corpo docente -eram quase 30 faltantes-, ainda na semana do tal encontro indígena. Também lá não apareceram quaisquer de 160 estudantes de etnologia indígena. EXCETO aquelas que como boas candidatas à antropólogas, se meteram na coordenação -de um encontro estudantil indígena-. Monitor, por convite e voluntário? Estava eu. Mas não percebo muito disto de protagonismo. Dizem. São 8000 estudantes indígenas no Brasil e o raio de parvas pseudo pré-antropólogas a coordenar partes do encontro? Por favor meninas. Seje menas.

Se em outros momentos da avaliação da defesa há exaltações e alertas pela pertinência de informações que estão limitadas a notas de rodapé na dissertação, e que deveriam estar no corpo do texto, em outros há lembranças sobre a sua identidade: indígena e como pode permitir singulares diálogos com o campo: etnologia indígena, a disciplina: antropologia. Ora, enfim a proposta antropológica que tanto defendo: Parar de aprender SOBRE o outro para aprender COM o outro. É capaz de haver alguma esperança em nascer um antropólogo ou antropóloga em um programa de pós-graduação em antropologia no Brasil.

Se por um lado são reconhecidas aberturas e desbravações teóricas e epistemológicas provocadas (e eu acrescentaria, ainda que não contemplados pelos comentários, mas pelo menos também seriam nas esferas metodológicas e históricas) pelos movimentos pós-coloniais característicos quando são portadores de certas decolonialidades como esta (que eu admito que também já tentei fazer, ainda que apenas deslocados trechos estejam disponíveis [3]), de outro lado, há inesperado (até por elas) reconhecimento – que teve de ser admitida a existência – da capacidade de propor diálogos com autorias antropológicas. Se calhar, é esperado que essa gente não seja capaz de atingir tal elevadíssima acuidade de análise antropológica. Ainda bem que houve um curso de leitura prévio.

As comuns divagações sobre pesquisas pessoais ao invés de falar da pesquisa que está sendo avaliada são bastante reduzidas, assim como as específicas análises temáticas alcunhadas de antropológicas, que neste caso poderiam ser sobre as mulheres, sobre Kaingang, sobre família e parentesco, ou mesmo sobre a revisão da valia do idioma Kaingang [4]. São estas todas substituídas pelo verdadeiro choque cultural que é suposto de ocorrer na prática e aprendizado antropológico. Antes tarde do que nunca. Pena não haver nenhum etnólogo presente na sala. Talvez algum dia algum possa ler a dissertação.

Enquanto isso, vamos concentrar esforços em garantir cotas, com bolsas, para mais estudantes indígenas. E também incentivar a permanência delas enquanto funcionárias públicas. No melhor estilo “find the chief” [5]. Quase como o ministério das mulheres negras que é campeão em importar e exportar subalternidades entre contextos para garantir o uso político de fabricadas projeções de identidades. Garantindo privilégios para hegêmonicxs entre subalternxs.

É de se ressaltar que a maior parte de estudantes indígenas nas universidades ainda são mulheres. E aqui cabe muito espaço para o dilema público-privado, que como bem lembrado pela banca começou lá em 1970 e ainda hoje se mantém. Também é de se lembrar que praticamente todas e todos estudantes indígenas cotistas são filhas e filhos de lideranças ou funcionárias e funcionários da FUNAI (em não raras vezes ambos). Pergunte quem emite as cartas e documentos que permitem concorrer em seleções enquanto indígenas.

É quase uma questão de classe. É uma questão étnica. E é uma questão de gênero. Que não vão ser discutidas aqui, porque eu não sou indígena, eu não sou mulher, e eu não sou filho de chefe. Eu não devo falar sobre isso. Como outra pessoa, em lugar privilegiado também fez, basta aqui apontar o dedo. Ainda que eu esteja completamente equivocado [6].

Notas

[1] Refiro-me a nomes como o do professor Dennis Werner, completamente caído no esquecimento e injusta invisibilidade por este departamento após a descoberta de particular enfermidade, na altura automaticamente estereotipada por conta de pré-julgado e negativado comportamento sexual.

[2] Remeto aos processos seletivos deste programa de pós-graduação e também ao seu método de distribuição e alocação de bolsas e empregos, ambos que ignoram o básico de avaliação de candidaturas por métodos objetivos e claros, enquanto desconhecem as dificuldades de permanência de discentes com origens em camadas baixas, além de violar princípios mínimos de transparência para utilização de dinheiro público. http://iberoamericasocial.com/e-hora-de-ir-embora/

[3] Em outro tipo de movimento decolonial: Brasil x Portugal. E sumariamente obliterada qualquer pertinência pela banca da de avaliação. Eu pretendo desenvolver isto em outro momento, mais pertinente.

[4] Não ocorreu. O que considero um desperdício e medo. Os e as Kaingang apresentaram durante muito tempo resistência (e há ainda muita resistência) sobre o uso e reconhecimento de idioma homônimo. Apenas recentemente, e diria que pela urgência de reconhecimento e resgate de uma certa identidade e cultura indígena, para deputado ver, é que se ousou pedir redação no vestibular em idioma Kaingang, entre outros direitos.

[5] Parte do processo colonizador britânico realizado na África onde era imposto aos exploradores, antropólogos, militares e missionários “encontrarem o chefe”, assim facilitava todo o controle sobre o grupo “tribal”. Esta situação permitiu a manutenção dos reinos em praticamente toda a áfrica, mesmo após a instalação da estrutura e construção de novos e fabricados estados-nações.

[6] Como exponho em outro local, é completamente descabido para uma professora apontar o dedo e acusar discentes de serem opressores, quando a responsabilidade é PLENA de docentes, pelos absurdos que ocorrem na academia. Neste sentido, espero que esta nota, sirva para evidenciar o altíssimo nível de ironia desta série de descabidas acusações que um antropólogo pode fazer, de seu privilegiado local, contra indígenas. Situação similar ocorre para praticamente TODAS e TODOS  pesquisadoras e pesquisadores sociais, e é neste sentido que escrevo estas linhas finais: Para provocar reflexões.

 

Fonte: Diários de campo pessoais.

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