Um estudo sobre a espera O estado sabe que enquanto está esperando, o pobre não está construindo a rebeldia. É, pois, uma técnica de dominação.

Espera medica

Nas cidades do capitalismo contemporâneo grande parte dos habitantes não pode ser considerada cidadã. Afinal, não têm garantidos nem os direitos, nem a possibilidade de participar ativamente das decisões que envolvem sua própria existência. Por conta disso o professor e etnógrafo argentino Javier Auyero chama essa camada de pessoas, os empobrecidos, de “pacientes do estado”. Na raiz latina dessa palavra – pati – o significado é sofrimento. Assim, o que Javier desvela é que é da natureza do estado capitalista fazer da grande massa pessoas que sofrem.

Ele chegou a essa conclusão analisando um fenômeno bastante comum para o empobrecido: as esperas nas filas. Em Florianópolis, os moradores que utilizam o transporte público sabem muito bem o que é essa dor. Uma viagem de ida e volta para o trabalho, ainda que as distâncias sejam extremamente curtas, são como um calvário. Quem mora no sul da ilha pode levar até duas horas e meia para chegar a um destino de 25 quilômetros, por exemplo, tendo de pegar até três ônibus diferentes, vivenciando esperas intermináveis nos pontos de baldeação. Outro exemplo é o do massacre vivido pelos pais na fila de uma vaga para os filhos numa escola pública. Ou ainda o absurdo de se ter de ir para uma fila às cinco horas da manhã para garantir uma consulta médica no posto de saúde, que só abre às oito horas. E o que dizer das filas nos bancos, aonde se vai para pagar as contas?

Para o professor, o fenômeno das filas impostas aos pobres é nada mais do que uma ferramenta de controle do poder para vigiar e castigar. E esse massacre cotidiano gera uma subjetividade que faz com que acreditem que devem mesmo esperar e, assim, começam a agir como bons esperantes, passando a vivenciar o que Javier chama de “desesperança aprendida”. E é esse aprendizado que faz com que poucos se rebelem. A espera passa a ser vista como natural. Na verdade, a maioria dos “esperantes” acredita também que deve “esperar” uma solução vinda de alguém fora do seu círculo, e fica rendido à vontade de um outro que não está ao seu alcance. É uma paciência aprendida a partir dessa ferramenta da espera, usada pelo estado para manter os potenciais rebeldes na ordem.

Auyero afirma que o estado sabe muito bem como manter a massa em estado de paciência. Por isso, vez em quando, concede uma pequena recompensa para que as pessoas acreditem que essa espera não é em vão. Com isso vão garantindo o controle sobre as gentes, conformando um comportamento de submissão. “Quando um funcionário do estado diz: senta aí e espera, ele está cumprindo uma metodologia que foi planejada pelo estado”. É claro que essa espera não é a mesma de um jovem da classe média que fica três dias em uma fila esperando um ingresso para o show da Lady Gaga. A espera da qual fala é essa, sistemática e cotidiana, por coisas que são fundamentais para a vida como a saúde, educação e mobilidade.

No massacre cotidiano, o pobre aprende que esperar é algo natural, tanto que as pessoas vão criando suas estratégias para enfrentar a espera, como aqueles que levam um banquinho para a fila do posto de saúde, ou levam um livro para enfrentar o calvário da viagem de volta para casa. Eles aprendem que não adianta reclamar e que se o fazem só perdem. O que cria caso numa fila, geralmente acaba sendo hostilizado pelos próprios esperantes, quando não humilhado pelo burocrata de plantão que o obriga a voltar outro dia. “Essa é uma lógica de dominação”. Javier estudou a fundo as esperas e concluiu que as esperas dos mais pobres são muito mais incertas, dolorosas e carregadas de um não saber o que vai acontecer. No geral, os pobres perdem tempo demais com essas esperas, gastando nelas a vida: O estado sabe que enquanto está esperando, o pobre não está construindo a rebeldia. É, pois, uma técnica de dominação.

O estudo do professor argentino, que dá aulas na Universidade do Texas, deixa claro o conteúdo da lógica da espera. Resta aos movimentos sociais entender esse mecanismo e buscar formas de acabar com isso.

Óbvio que as medidas mitigadores funcionam unicamente como “pequenas recompensas”, sem, contudo, mudar a lógica da espera. Há que mudar o modo de organização da vida como um todo. Por isso que uma luta como a pela mobilidade, por exemplo, tem que levar no seu âmago, a proposta de uma nova sociedade.

É chegada a hora de as gentes deixarem de ser pacientes.