Transumanismo, outro “… grande salto para a humanidade”?

Há cinquenta anos do famoso «pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”, o transumanismo com seus ideais de que é «proibido proibir» e há que «matar a morte», parece construir outro grande salto.

Fonte: profesionalesporelbiencomun.com

Há cinquenta anos se conseguiu o objetivo do Projeto Apollo da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos (NASA) de colocar o homem na Lua. No dia 20 de julho de 1969 às 20h17min os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin alunissaram o módulo lunar Eagle. Passadas seis horas, já no dia 21 de julho, Armstrong desce do Eagle e, por primeira vez na historia da humanidade, pisa solo extraterrestre. Nesse momento se vocaliza, por parte desse primeiro Homo Sapiens em pisar solo lunar, uma das frases “cronicamente” viral (em tempos que não existia como conceito o viral) “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”.

Nesse momento todos os indivíduos que formam parte da famosa frase eram conformados pela espécie Homo Sapiens. O astronauta, o homem e humanidade indicam especificamente animais do gênero Homo e da espécie sapiens. Porém, o fato de ser uma única espécie que conforme o gênero Homo, como acontece na atualidade, nem sempre foi assim.

O historiador israelense Yuval Harari (2017) indica que há 2,5 milhões de anos surgiu o gênero Homo na África Oriental. Desde lá se começaram a movimentar para se assentar nos diferentes cantos do planeta, o que significou um requerimento de características diferentes a depender da localização geográfica, pelo que as populações humanas (nesta época espécies diferentes do gênero Homo) evoluíram em direções diferentes, desenvolvendo-se, respectivamente, varias espécies diferentes. Sendo conhecidas, incluindo a última descoberta do ano 2019 (Détroit et al., 2019), nove espécies de humanos: Homo neanderthalensis, Homo erectus, Homo soloensis, Homo floresiensis, Homo rudolfensis, Homo ergaster, Homo denisova, Homo luzonensis e nós, o Homo sapiens.

Dessas nove, no mínimo seis espécies diferentes de homens habitaram o mundo simultaneamente há 100 mil anos, o que mudou “só” há 13 mil anos com a extinção do Homo floresiensis (Harari, 2017).De aí em diante é que nós Homo sapiens somos o único representante do gênero Homo. Mas, essa “solidão”, em certo grau, começa a ser questionada na contemporaneidade por alguns representantes da espécie humana sapiens, com seus projetos, teorias e pensamentos que se agrupam no conceito de Transumanismo.

O movimento Transumanista tem influencia direta, no sentido da crença de concretização de seus ideais, com o desenvolvimento das novas tecnologias denominadas com a sigla NBIC: nanotecnologia, biotecnologia, informática (big data, internet das coisas) e cognitivismo (inteligência artificial e robótica). A revolução digital, que estamos vivenciando, permite olhar no horizonte a materialização do que já Luc Ferry (2018) considera como Revolução Transumanista, no livro que tem o mesmo nome.

O prefixo trans pode significar “ao outro lado” ou “através de”. Então, o transumanismo como palavra quer indicar um resultado que seja “ao outro lado” do homem ou que passa “através de” o humano. E é nesses sentidos que se desenvolvem os projetos transumanistas, agrupados em duas linhas principais de pensamento; um transumanismo biológico e um pós-humanismo cibernético. (Ferry, 2018)

No transumanismo biológico se pode indicar que predomina o ideal de “matar a morte”. As empresas e cientistas aderentes ou defensoras desse slogan, começam do posicionamento de não considerar a morte como um fato irremediável ou rigidamente determinado. A morte é uma circunstancia que ainda não foi superada só, e que temos o direito de conseguir terminar com esse problema ou no mínimo afastar o mais possível sua ação (pensamento desses transumanistas). O transumanista da linha biológica quer o Homo sapiens imortal (pode parecer ciência ficção para um não transumanista, o que é compreensível) ou humanos de 200 ou mais anos.  Mas, além de “matar a morte”, pretendem, e já atuam nessa direção, virar o enfoque de uma medicina terapêutica, quer dizer uma medicina enfocada em tratar doenças como é a predominante na atualidade, para uma medicina melhorativa, que procura aumentar ou adicionar capacidades aos ainda Homo sapiens. Para isso, com o conhecimento da genética, se defende a ideia de poder fazer manipulação genética, tirando ou insertando genes que melhorem certas características ou previnam doenças. Um exemplo disto é o caso do cientista chino He Jiankui da Universidade de Shenzhen no sul da China, que no ano 2018 informou que havia realizado com “sucesso” uma modificação genética em gêmeas, para que nasceram resistentes ao vírus da imunodeficiência humana (HIV), sendo o primeiro caso de humanos pertencentes aos já conhecidos organismos geneticamente modificados (CNNChile, 2018)

Na outra linha de pensamento transumanista estão os que se identificam com o ideal de “proibido proibir”. Ideal reciclado ou ainda presente das revoltas libertarias dos anos 1960. Se pode considerar o Vale de Silício, nos Estados Unidos, o “habitat” dos cientistas e empresas que aderem a essa corrente, que procura conseguir um mundo pós-humanista pela cibernética. Um exemplo que pode clarear o que significa esse pós-humanismo é a Universidade da Singularidade, localizada no habitat desse movimento. O nome da universidade trás o conceito chave do assunto, singularidade:

“Oriunda da física matemática, remete à ideia de que, a partir de certo ponto de evolução da robótica e da inteligência artificial, os humanos serão totalmente ultrapassados e substituídos por máquinas autônomas ou, para melhor dizer, pelo surgimento de uma consciência e de uma inteligência globais, milhares de vezes superiores às do humano atual.“ (Ferry, 2018, p. 11-12)

Assim, Ray Kurzweil, diretor da Universidade da Singularidade, financiada pelo Google, exponente e defensor da idéia de transumanismo pós-humanista, tem como objetivo conseguir mediante uma «interface» homem com computador, com todas as redes da internet, graças a implantes cerebrais, a criação do «pós-humano». Ainda em dúvida se é uma Era e/ou um ser vivo.

O Transumanismo (ambas linhas de pensamento) é um movimento sem sombra de dúvidas revolucionário, como categoriza Luc Ferry (2018), mas que gera preocupação, evidenciada na reação negativa da comunidade cientifica pelo experimento de manipulação genética dos bebes da China ou, na carta de alerta em relação com os avances da inteligência artificial assinada por 2400 signatários no 2015, entre eles Stephen Hawking e Elon Musk (Hawking, 2018). O resultado dessa revolução é incerto, o tempo dirá se “matar a morte” e “proibido proibir” serão “um pequeno passo para o homem”, com resultado de ainda individuos Homo sapiens?, e “um grande salto para a humanidade”, uma humanidade multi-especie novamente como foi há 13 mil anos?.

REFERÊNCIAS

CNNCHILE. 2018. Científico chino asegura que modificó el gen de bebés gemelas para hacerlas resistentes al VIH. Disponível em: https://www.cnnchile.com/mundo/cientifico-chino-asegura-que-modifico-el-gen-de-bebes-gemelas-para-hacerlas-resistentes-al-vih_20181126/

DÉTROIT, Florent et al. A new species of Homo from the Late Pleistocene of the Philippines. Nature, Londres, v. 568, n.7751, p. 181-186, abr. 2019. DOI: https://doi.org/10.1038/s41586-019-1067-9. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-019-1067-9. Acesso em: 11 abril 2019.

FERRY, Luc. A revolução transumanista. São Paulo: Manole, 2018.

HARARI, Yuval. Sapiens – Uma breve historia da humanidade. 19. ed. Porto Alegre: L&PM, 2017.

HAWKING, Stephen. Breves respostas para grandes questões. 1 ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

 

 

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Doctorando en Difusión del Conocimiento, Universidad Federal de Bahia, Brasil.

Maestro en Ciencia Animal, Universidad Federal de Bahia, Brasil.

Médico Veterinario, Universidad Católica de Temuco, Chile.

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