Tecnologias de sobre(vivência) – Capítulo 6

Pela profundidade dos brasis, os quilombos mostram que lutar pelo direito ao território é a grande pandemia.

Tecnologias de sobre(vivência)
Tecnologias de sobre(vivência)
Tecnologias de sobre(vivência)
Foto: Ana Carolina Fernandes.

À procura de uma perspectiva quilombola do mundo, a ideia de cura, como possível apenas pela medicina convencional, não é suficiente. É preciso aqui expandir a ideia de saúde como algo que vai além da cura do corpo físico e ocorre também pela dimensão espiritual, ancestral e do território. Durante a pandemia, o autocuidado e a reciprocidade foram importantes para realizar o que o poder público não se importa em fazer. O Quilombo ao se efetivar na dinâmica coletiva, nas trocas, precisou se rearticular para proteger as mais velhas e os mais velhos, a memória da comunidade, e evitar que o vírus provocasse catástrofes ainda maiores.

A prevenção ao lavar as mãos quando se chega de fora, o cuidado com a roupa ao se chegar em casa, a responsabilidade com os de mais idade, limpar os pés antes de entrar, o respeito às matas que nos fornecem elementos para aliviar uma dor e, principalmente, antecipar que uma doença possa chegar aos nossos corpos, se atentando ao que se come e ao descanso, são práticas comuns aos povos tradicionais.

Joaquim Wilson vive na comunidade quilombola Povoado do Moinho, em Goiás, trabalha a 47 anos com plantas medicinais e solidifica em cada palavra o orgulho de ser filho de Dona Flor, raizeira, benzedeira e parteira de mais de 300 crianças, muito conhecida na Chapada dos Veadeiros em Goiás. Ele e sua irmã, Deija Morais, cuidam da Casa de Plantas da Dona Flor e lá já receberam pessoas de todos os cantos do Brasil.

Foto: Joaquim Wilson.

O corpo é sagrado, por isso, o cuidado com ele é elemento vital na dinâmica da comunidade. “Sempre falo isso com as pessoas de nunca deixar acumular doença para procurar o médico, tem que estar sempre atento” conta Joaquim Wilson, que afirma atuar “na missão de zelador, de cuidador e de conhecedor de plantas medicinais”.

Ele também diz que esse cuidado é feito alinhando as fases da lua e as especificidades de cada pessoa. Mas ressalta que é preciso estudo, conhecer bem as plantas e orientar mediante o diagnóstico médico, e os sinais e sintomas que surgem. O raizeiro ainda conta que paciência é importante e os benefícios são certos, mas o tempo de cura pelas plantas é outro, demora um pouco mais do que os remédios artificiais, que tem fortes chances de causar ainda mais problemas.

“Quando acontece alguma coisa, picada de cobra, se machucar na cachoeira, o local que eles vêm procurar socorro é aqui em casa né. A gente faz o que pode, a gente limpa, coloca um álcool com arnica. Aí a gente faz esse serviço de primeiros socorros” afirma Deija diante da ausência de posto de saúde na região. “O nosso apoio é o nosso cuidado aqui. É nós tá usando máscara, o álcool em gel, lavando a mão o tempo todo com água, sabão”, destaca sobre a prevenção da covid-19.

“Manter vivo os ensinamentos que já fazem parte do nosso cotidiano, é uma forma de impedir que esse vírus atravesse as comunidades e cause ainda mais dor nas pessoas” retoma Laura integrante da Conaq, Bacharel em Direito e quilombola na Comunidade Negra Rural do Quilombo Ribeirão da Mutuca, Mato Grosso.

“Os saberes tradicionais nos ajudam a passar por momentos difíceis” afirma Biko. Por isso, tais saberes sempre estiveram na base da organização da comunidade. “Todo mundo da comunidade usa plantas, então todo mundo, moram lá são 78 famílias, todo mundo sabe se cuidar, saber colher, plantar, como preparar um remédio” afirma Lucely Pio, mestra, geoterapeuta e fisioterapeuta, integrante da Articulação Pacari Raizeiras do Cerrado e vive na Comunidade Quilombola do Cedro, que já tem 190 anos de existência.

Foto: Joaquim Wilson.

Segundo a mestra, na comunidade se tem conhecimento de cerca de 80 formas de remédios e vem pessoas até fora do Brasil em busca deles. “Eu sou a quinta geração da comunidade e a gente continua passando para os mais novos. A gente trabalha com 470 espécie nativas e mais de 350 plantas exóticas dentro do Centro de Plantas”. Lucely também tem uma clínica na cidade e disse que com a pandemia o atendimento praticamente dobrou, casos de ansiedade e depressão foram recorrentes.

Lucely Pio, Mestra Quilombola. Foto: Reprodução.

São mais de 12 terapias naturais que ela oferece em um trabalho realizado juntamente com psicólogas da região. Uma das técnicas utilizadas é o “Reiki”, que ocorre através da imposição de mãos. Isso aumenta a frequência da energia, promove relaxamento do corpo, aumenta a concentração e realinham os Chakras, centros de energia vital da pessoa. São técnicas que visam trabalhar o emocional para se ter o corpo bem e fechar portas para doenças.

Além disso, a geoterapeuta, afirma em relação as raízes curativas, que não basta apenas tomar a planta da terra, é preciso pedir licença, manter uma sintonia com a natureza, escutar a terra e o dono do mato. “Isso requer também cuidado ao retirar a planta para não se perder a “muda” e manter a sustentabilidade, não é só pegar, tem todo uma técnica e um cuidado”, afirma.

“Depois que começou a pandemia, começou um trabalho muito mais forte de reforçar essa importância dos chás, das garrafadas. Eu mesmo recebi uma garrafada e estou tomando” diz Lucilene Santos que mesmo vivendo agora em Goiânia, mantém em exercício os saberes de seu povo. “Essa prática não é por causa da covid-19, é um costume, para eles não é medicamento, porque faz parte do cotidiano”, pontua.

“Foi pedido muito a quina do cerrado, muito gengibre, açafrão, caule da flor do sabugueiro, a raiz do capim de cheiro, agrião da água, hortelã, alho, assa peixe, folha de laranja, amburana, semente da amburana. São plantas relacionadas a autoimunidade” descreve Joaquin Wilson a respeito de quais tipos de plantas foram mais utilizadas no combate a Covid-19.

“É o único recurso que a gente tem, né? Porque nem os cientistas têm uma cura, nem uma vacina. Mesmo não estando escrito por um acadêmico renomado, isso funciona na comunidade”, destaca Hellen, biomédica, estudante de medicina e quilombola Kalunga, ao lembrar de sua infância e de que todos os dias, pela manhã, se tinha chá a mesa. A estudante ainda diz que a distância de acesso a um posto de saúde faz com que em zonas rurais, a saída seja o tratamento fitoterápico. Mas ressalta a importância de que é preciso saber o que cada planta faz e quais efeitos podem causar. “Aqui nunca falta mel, açafrão, gengibre e alho”, retoma Hellen. Que se encontra atualmente na cidade, mas mantém viva as práticas de manutenção de sua saúde através de produtos naturais.

Produtos à venda na Casa de Plantas Dona Flor. Foto: Joaquim Wilson.

Hellen também reforça sobre os encontros de saberes entre os povos indígenas e os povos africanos. Os povos indígenas tinham maior conhecimento sobre o território e as plantas que aqui já estavam, e os povos africanos trouxeram outros conhecimentos sobre outras plantas e práticas de cura. Como eram povos que reverenciavam a natureza, compartilharam entre si tais conhecimentos sobre as plantas e isso os uniu diante das opressões.

O Mestre Nêgo Bispo chama esse encontro entre os povos africanos e povos indígenas de “confluências de civilizações, confluências de cosmologias”. Isso porque mesmo falando línguas diferentes eles logo se entenderam, confluíram pelas plantas, pelas águas, pelas estrelas. São povos que se encontram e se fortalecem

Na comunidade de Furnas do Dionísio, segundo Vera, os mais velhos e as mais velhas são os que chamam atenção para o poder das plantas nessa época. “Agora nessa pandemia, tem o fedegoso na comunidade, que foi usado muito. Os mais velhos dizem: gente toma fedegoso, não é que mata o vírus, ele fortalece, ele cria imunidade, ele deixa o organismo mais forte” conta.

“Tanto o chá para tomar banho, quanto para beber, as raízes, as rezas. Mas isso só funciona pela fé, no acreditar que as pestes se vão” diz Laura, que ressalta, “nosso povo sempre acreditou. É ter fé acima de tudo, primeiramente, em Deus, depois acreditar nas ervas, assim como nos conhecimentos e nas orações em que a gente entrega, principalmente, para São Sebastião, para que ele nos livre dessa peste”.

Foto: Walisson Braga.

“A gente faz o chá de folha de negramina, folha de tamarindo, folha de açoita-cavalo. Então, são esses chás que nos mantém firmes e resistentes. A quina, nós tomamos a casca do alho com cebola, mel, que são de própria confecção da comunidade, temos criação de abelha. Tudo isso que nos ajudou e fora as outras ervas que a gente tem aqui, que nem tudo a gente deve falar a fonte né” completa Laura Ferreira.

“Esses conhecimentos não nascem na academia” afirma Biko ao denunciar a ganância do capitalismo e de como muitos pesquisadores fora da comunidade roubam os conhecimentos tradicionais, e em nenhum momento fazem referência de onde veio tal saber. O coordenador ainda lembra do que aconteceu no Território Kalunga com a Baunilha do Cerrado que foi patenteada por uma associação que lucra às custas de algo que é da comunidade. “Em média dura 30 anos para um remédio natural ser produzido, entre estudo e teste” diz, sobre o quanto o roubo dos saberes, também é um roubo do tempo e das riquezas do lugar.

Falar em tecnologias de vivência e sobrevivência, é também perceber como o povo organiza suas vidas para manter a coletividade ativa, pelo autocuidado coletivo. Nesse caminho, encontramos o ato de festejar não apenas como um momento de diversão, mas também um momento de reconexão com a comunidade, de exercício da felicidade para com as tradições e para a beleza, de cores, luzes, comidas, que enfeitam os espaços. Aqui o corpo dança, canta, toca, dá gargalhada, “arriba a poeira” e degusta dos sabores temperados e ornamentados pelas mãos de cada artista.

Vercilene ainda reitera que esses encontros fortalecem a espiritualidade e a comunidade. Isso porque é comum a busca pela liderança espiritual quando se deparam com algum problema de saúde. O respeito às curandeiras, aos curandeiros, às raizeiras e raizeiros, e às rezadeiras e rezadeiros é algo comum. Mas tais práticas são intensificadas nos festejos, pois é onde se juntam para maiores rezas, com mais pessoas. De acordo com a advogada, a comunidade sentiu a falta desses encontros esse ano, já que a pandemia os obrigou a se isolar, e isso mexe com o psicológico das pessoas, que de repente precisaram mudar seu ritmo tradicional.

Festejar é praticar vida. São onde vários casamentos e batismos são realizados. É quando a comunidade se reúne e recebe muitas pessoas de outros cantos do mundo. No território Kalunga os festejos se desdobram ao longo do ano. Existem festas como as Romarias e o Império, e danças como a Sussa, que requer equilíbrio ao mesmo tempo em que se roda o corpo.

“Isso é algo que se aprende com os mais velhos”, diz Hellen Oliveira ao lembrar da força desses encontros na comunidade e da vivacidade passada de geração em geração. Em Furnas do Dionísio, os Festivais da rapadura, a Catira, o Engenho Novo e a dança da cobrinha integram as tradições. As festas agrícolas, que celebram os produtos rurais da comunidade, como a Festa do Marmelo e do Quiabo N’golo, são destaques do Quilombo Mesquita.

Como legado dos saberes já praticados em África, os Quilombos e terreiros nos dizem que as enfermidades não podem ser explicadas apenas por percepções biológicas, físicas do corpo, mas sim espirituais. A prática de cura, tida como arte, realizada por pessoas preparadas para isso, muitas vezes é, aqui na diáspora, demonizada e criminalizada. Curar simbolizava e simboliza a restauração do equilíbrio do corpo para com a natureza, e é na própria natureza que estão as várias respostas.

Quilombola em movimento durante a sussa. Foto: Ana Carolina Fernandes.

“Nós somos poli. E como nós somos poli, nós podemos ter vários deuses, inclusive Jesus, tá? Essa é a nossa vantagem. Porque como nós temos as nossas divindades e a deles, a gente ganha pelo feitiço e pelo milagre” diz Nêgo Bispo a respeito do crescimento de evangélicos e católicos nas comunidades. O mestre diz que isso, dentro da cosmologia politeista que fundamenta o ser quilombola, se torna um ganho para se encontrar saídas para as questões da vida que também seguem o caminho da pluralidade. Em vez de se ter limites, se tem fronteiras, espaços de diálogo que se mostram, por exemplo, na devoção aos santos católicos e na manutenção dos benzimentos, na fé nas plantas.

Os Quilombos reorganizam sua vivência e sobrevivência de acordo com o que se tem. Tocam a terra e transformam raízes, folhas, sementes em potência de expansão da vida, mas também em temperos, porque o bem viver está em dar gosto à caminhada. Assim como a luta pelo território precisa do comprometimento de todas as pessoas da comunidade, a cura também é coletiva e vem de tecnologias herdadas ao longo dos anos, muito antes do marco colonialista do século XIV e XV.

Mas quando falamos em cura, nos remetemos, inclusive, a dor. E ao pensarmos em covid-19, a busca pelo remédio é algo que gera angústia em toda a sociedade que investe tudo para deter um vírus, mas ignora e cultiva o câncer de 500 anos que representa a estrutura racista-colonialista. No entanto, remédio nem sempre é cura, e nunca seremos realmente curados enquanto rejeitarmos essa dor histórica que impacta os corpos-territórios. Para se ter futuro é preciso encontrarmos a cura e essa cura é ancestral.

O futuro é quilombola!

 

Texto completo publicado inicialmente em www.brasis.org, Brasis – Histórias da periferia na pandemia. Projeto realizado pelo Favela em Pauta e pelo Instituto Marielle Franco.

Jornalista e Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Mestra em Comunicação.
Colaboradora no Favela em Pauta.
Pesquisadora no Coletivo Magnífica Mundi – UFG e no OBIAH – Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais e decoloniais da Linguagem – UFG.

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