Tecetura Colaborativa

Deseja acordar a semente do ressuscitar da magia do sagrado feminino que habita as profundezas de todas as mulheres do mundo, ou seja, mulheres de color e mulheres brancas.

Tecetura colaborativa - 9
Tecetura colaborativa - 9

A filosofia desse texto de cunho poético-sensível-empírico tem como meio e não como fim, no sentido de não-condução e orientação lineares, a experiência semântica e prática sob uma perspectiva Nietzschiana espiralada e helicoidal na qual tudo está junto e misturado e com a qual as gentes do mundo não são tragadas e cooptadas em direção a um caminho pré-determinado onde o roteiro de vida já está traçado, e portanto, escrito. Traz a possibilidade de inclinar-se à instabilidade dionisíaca de se inventar uma estética de existir, já que não se vive separado do mundo, ao mesmo tempo que também procura equilibrar essa energia com a que deriva de Apolo. Tudo é retroalimentação contínua. Sendo assim, esse texto busca na transgressão semântica de Nietzsche um devir, um acontecimento, uma potência que se expressa, e portanto, que se irmana na “transvaloração,” apontada pelo autor para “estabelecer a supremacia da expressão sobre a argumentação, do estilo sobre a lógica, da fragmentação sobre a sistematização, do imagético sobre o teórico, do artístico sobre o científico.” (NOBRE, 2018, p. 58). Irá tratar da temática do feminino na cidade de Americana.  Dedica-se a desconstruir o fato da mulher (branca e não-branca) moderna ter tornado-se um “(…) borrão de atividades” além de sofrer “(…) pressões no sentido de ser tudo para todos. A velha sabedoria há muito não se manifesta.” (PINKOLA, 2014, p. 15). Tem a intenção de resgate da nutrição de mulher para mulher para muito além de classe, gênero e raça. Atenta-se para a retomada da capacidade de discriminação e da habilidade instintual para prever e evitar o perigo. Busca a recuperação das terras espirituais do arquétipo da mulher selvagem, imbuída de sabedoria, autoconhecimento, maturidade, que vive uma vida natural, de integridade inata e limites saudáveis. Anseia pelo revigoramento da força de fecundidade do feminino e sua simbologia no pluriverso. Deseja acordar a semente do ressuscitar da magia do sagrado feminino que habita as profundezas de todas as mulheres do mundo, ou seja, mulheres de color e mulheres brancas.

ÀS MULHERES DE TODOS OS TEMPOS …

Desmistificar o tempo,
enfrentar o problema filosófico do agora: as garras hipnóticas e afiadas da desistoricização desse mesmo tempo,
o não narrar ou não escrever a história.
Apofagia àquilo que rasga a utopia,
a consciência militante, de coletividade e de saberes ancestrais femininos.
O choro vem,
durante a construção semântica recém nascida,
fruto da própria experiência de vida,
por ter sobrevivido quando não se restavam forças,
quando a escuridão tomava conta.
Tecetura ColaborativaQuando a vontade de morrer estava se sobrepondo a de viver,
mas a Vida sempre predomina sobre a Morte,
ou quase Sempre.
Vale a pena lutar. Sangrar. Estancar.
Sonhar. Querer um outro mundo,
e criar um outro inteirinho,
novinho em folha,
para si e para outrem.
Despertar a não-aceitação imediata,
do que ergue-se diante de si.
O si,
Em si,
Por si.
E diante do nós.
As coisas da Vida são efemeridade,
transitoriedade.
A eternidade é inexistente,
ilusão veemente,
que confunde a mente.
Viver o tempo,
substâncial,
instintual,
que apresenta sua intuição,
como maturação psicológica,
de conhecimento íntimo de si.
De maneira existencial,
não tanto teórica,
não tanto perdurável.
Tudo existe para desaparecer.
O estofo da realidade humana é temporal.
Tempo.
Um processo.
Não o relógio.
Atravessado pelas coisas e pessoas,
sem limites,
nem delimitações.
Momentos.
Duração.
Tecetura colaborativa - 2Sequência ininterrupta.
Linhas de fuga.
Tramas de escape.
A Vida é,
o agora, o que será e o que foi sendo.
É corporal.
artesanal,
visceral.
É arte e as suas resistências.
É flanco decisivo de posicionamento.
Exatamente como o feminino e seus desdobramentos.
É desuniversalização do somos iguais,
da esteriotipação,
da homogeneização,
do sujeito Mulher.
Enxergar a conexão entre a Imagen Racializada,
dos corpos negros,
e
o racismo expressado,
no mundo enredado de sexualização desassociada de “la blancura.”
Enxergar a representação desviada,
depravada,
subalternizada,
inferiorizada.
Tecetura colaborativa - 3Corpo feminino negro como fatia de peitos de chocolate.
Signo de mercantilismo corporal,
e de disponibilidade ilimitada,
a qualquer preço.
Dinâmica psicossexual brutal,
abismal,
umbral.
Como é possível que corpos femininos negros sejam
reduzidos a mera espetacularização?
a mera objetificação?
A sacrificable expendable?
Corpos silenciados, Não!Resistem.
Gritam transgressivamente.
Opõem-se à ideologia representativa de si mesmas,
e ao bombardeio incessante de imagens,
de corpo sacrificável.
Absorção passiva,
da ideia mortal.
Veemência ativa,
de uma persistência vital.
Trânsito sináptico e contraditório.
Incontáveis exemplos,
de apropriação,
exploração,
Tecetura colaborativa - 4estereótipos negativos.
Iconografia racista.
Sexualidade que sucumbe à luxúria masculina,
enquanto a questiona,
a enfrenta,
a atormenta,
a desdenha.
Sente nojo.
Dor.
Pavor.
Ardor.
Queima.
Treinada,
para ser alimentação,
de um suposto alguém.
Tecetura colaborativa - 5Faz-se a única caça,
que também é instruída,
para agradar,
o patriarcal caçador.
Ou é feita?.
Fantasia pornográfica,
mujer de color,
selvagem sexual.
Produto.
Impacto.
À disposição forçada da supremacia patriarcal branca.
Objeto de abusos.
Humilhações.
Feridas latejantes.
Lancinantes.
Violentadas.
Tecetura colaborativa - 6Erotismo usurpado.
Dilacerado.
Extirpado.
A vida espiritual,
parece,
esvair-se.
Daí volta.
Mais forte,
robusta.
Possante.
Vibrante.
Mesmo que rastejante,
paulatina.
Mesmo com ausência,
dos movimentos externos.
Os internos,
prevalecem intocáveis.
Imunes.
Resilientes.
Alcalinos.
Tecetura colaborativa - 7Ferozes.
Mesmo amordaçada,
conserva sua força.
Sem o domínio do corpo,
ela domina a mente.
O imagético.
O metafórico.
É plano da expressividade de si mesma.
Contém a contenção.
Apanha os traumas,
com as próprias mãos.
Transforma-os,
na sua força mais indestrutível,
mais guerreira.
Vai para guerra,
veste a armadura,
cria uma subjetividade peculiar,
desobedecendo aquilo que lhe parece tradicional ressoar.
Concebe oposição,
ao que lhe gera total abstração,
de um mundo simbólico-prisional.
Tecetura colaborativa - 8Liberta-se das amarras,
aprende o mundo do Amo,
domina-o,
mata-o.
Estratégia implacável,
rupturista.
Extermínio,
daquele que é representação,
do Mal.
Daquele que é produção da injustiça,
que é ameaça à possibilidade de Vida.
Ela tece suas Verdades.
Restaura-se no colonial mundo forjado,
enfrenta-o.
Cria outros caminhos,
vive-os.
Tecetura colaborativa - 9Ela não é classe.
Ela não é gênero.
Ela é um a representação da honra simbólica de uma cultura.
Ela é a anciã genética do comunal.
Sendo assim…
Por que a díade sujeição/dominação não une Todas?
Deveria.
Ela não é minoria.
Ela é poesia.
Conectividade política.
Fertilidade embrionária que explode,
deixa partículas,
que desabrocham no tempo e no espaço.
Ela é a personificação,
Tecetura colaborativa - 10da transvaloração dos valores de Nietzsche.
Exala a transcendência dos limites,
a própria linguagem aforismática.
Exercício da crítica.
Intersecionalidade política.
Lógica da argumentação.
Dialógica.
Decomposição analítica.
Ela é a compreensão da História,
que a compôs.
A distinção do pensamento,
como perseguição da verdade.
Simultaneamente,
A distinção
daquilo que se expressa,
sobre o que se argumenta.
Tecetura colaborativa - 11Daquilo que é estilístico,
sobre aquilo que é matemático.
Do visível,
sobre o conceitual.
Do artístico,
sobre o científico.
Ela é liberdade.
Origem.
Ela é palavra e matéria prima.
É face e
é eixo de rotação.
Ambos refrangem conforme,
orientam-se,
e não conforme podem ser orientadas.
Ela é lâmina polarizante,
que corta e se sobrepõe.
É cadência reflexiva.
Sempre quer dizer algo,
E sempre o diz.
Tecetura colaborativa - 12É projeção de lucidez.
Concretismo.
É arquitetura móvel.
A Mulher não-branca e branca,
ainda que diante de experiências de violência tão diferentes,
é signo linguístico.
Rítmico.
Orquestração poético existencial.
Espírito que ousa.
Que suporta.
Que resiste.
Que luta.
Que persiste e incide.
Posição e oposição.
Intempestividade encarnada alegoricamente.
Artimanha retórica resplandescente.
Pura potência permanente.

 

Referências bibliográficas

Hooks, Bell. Vendiendo Bollitos calientes: Representaciones de la sexualidad femenina negra en el mercado cultural, 2003.

Leopoldo, Franklin https://www.youtube.com/watch?v=kWS5Wnv0LEw Vídeo Henri Bergson: Tempo e Memória.

Medina, Javier. “Introito. Una aproximación a los conceptos de occidente e indianidad.” Em: Suma Qaamaña. Por uma convivialidad postindustrial, documento inédito, pp. 04-17, 2006.

Nobre, Renarde F. Nietzsche e a escrita artística do pensamento. Trans/Form/Ação, Marília, v. 41, n. 3, p. 57-78, Jul./Set., 2018.

Pinkola, E. C. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

 

Paola Dias Babeto de Oliveira
Fotografía / Artes plásticas. Paola Dias Babeto de Oliveira
Ilza Maria do Prado
Participante do ensaio. Ilza Maria do Prado
mm

Pedagoga. Coordenadora. Mestranda em Educação. Feminista Decolonial e antirracista. Escritora. Apresentadora no portal de notícias com tv web integrada.

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