Orçamento Legislativo Participativo: as gentes decidindo Com a presença de entidades sociais e populares na abertura dessa generosa proposta, o lançamento do Orçamento Legislativo Participativo foi um respiro de alegria nesses tempos tão sombrios.

Uma das experiências mais bonitas tocadas pelo Partido dos Trabalhadores no início de sua trajetória como institucionalidade foi a do Orçamento Participativo. As cidades sendo pensadas pelas gentes mesmas, as que as constroem e que as vivem. Florianópolis viveu esse momento durante o governo de Sérgio Grando, no qual Afrânio Boppré (então PT)  era vice-prefeito. E foi uma belezura. Todos os bairros faziam suas reuniões e discutiam suas prioridades para obras e serviços. Depois, decidiam o que fazer e quanto gastar em cada coisa. Pela primeira vez na história da cidade os moradores eram chamados para uma participação real e direta, na qual definiam eles mesmos o que fazer com os recursos do município. Foi um tempo em que as …

Um estudo sobre a espera O estado sabe que enquanto está esperando, o pobre não está construindo a rebeldia. É, pois, uma técnica de dominação.

Nas cidades do capitalismo contemporâneo grande parte dos habitantes não pode ser considerada cidadã. Afinal, não têm garantidos nem os direitos, nem a possibilidade de participar ativamente das decisões que envolvem sua própria existência. Por conta disso o professor e etnógrafo argentino Javier Auyero chama essa camada de pessoas, os empobrecidos, de “pacientes do estado”. Na raiz latina dessa palavra – pati – o significado é sofrimento. Assim, o que Javier desvela é que é da natureza do estado capitalista fazer da grande massa pessoas que sofrem. Ele chegou a essa conclusão analisando um fenômeno bastante comum para o empobrecido: as esperas nas filas. Em Florianópolis, os moradores que utilizam o transporte público sabem muito bem o que é essa …

Esboço de uma teoria da fama (parte I) O artista autorizaria-se pelo fracasso e por suas falhas diante do suposto êxito.

Boris Pasternak (1890-1960), poeta russo, num de seus poemas escreveu que “Ser famoso não é bonito./ Não nos torna mais criativos”. A fama em questão estaria mais próxima da bajulação e bem distante da ideia de engajamento, engajamento esse que torna “dispensável os arquivos” e faz com que um manuscrito seja apenas “só um escrito”. Pasternak, suponho, por um lado, brinca com a ideia de que o artista é um tipo de herói moderno, alguém disposto a experimentar uma certa experiência limite que o coloca acima da sociedade e do tempo que ele habita, mas, pelo outro lado, assume as consequências de não aceitar essa glória quando escreve: O fim da arte é doar somente. Não são os louros nem as loas. Constrange a …

A morte do outro não importa Tragédia na Somália: uma a mais no doloroso processo de libertação

O mundo ocidental se move por uma premissa que vem da cultura grega: o ser é, o não-ser não é. E o que significa essa frase tão enigmática? Que só é reconhecido como ser aquele que é igual. O outro, esse não existe. Não-é. Não tem importância. Sendo assim o que é para o mundo ocidental europeu/estadunidense? Aquele que é igual a eles: branco, rico, capitalista, guardião da ordem e da moral. Tudo o que sai desse script não-é. E, não sendo pode ser destruído sem dó. Sobre a morte desse outro que não-é, não se fala, porque não importa. É por isso que o massacre perpetrado pelos Estados Unidos nos países do Oriente Médio não tem a menor importância …

“Jaci Paraná é um microcosmo que representa a dinâmica das grandes obras no Brasil” – sobre energia e pessoas Hoje em dia, prevalece o discurso de que só o desenvolvimento tecnológico, combinado a uma gestão eficiente de recursos, é capaz de promover a sustentabilidade. Mas essa é, afinal de contas, uma briga ideológica.

Os números da hidrelétrica de Jirau só podem ser contestados com depoimentos e  denúncias que vemos em Jaci: Sete Pecados de Uma Obra Amazônica. Durante o documentário números e palavras traçam um embate sobre quem diz, quem credita e porque diz sobre cada noção da realidade. – “Cidade do pecado”, “aberração jurídica”, “produzir energia a qualquer custo”, “o ônus do progresso”, “o ser humano acostuma com tudo”.

Os Estados Unidos e a doutrina da guerra permanente As peças do tabuleiro mundial seguem se movendo, a história não é estanque.

Tem sido comum os Estados Unidos inventarem doutrinas para justificar suas ações no mundo. E cada uma delas aparece num determinado tempo histórico, no qual o país do norte vai expandido seu processo de acumulação de capital. Até agora cinco grandes doutrinas se concretizaram, todas aprofundando e justificando o processo de dominação que culmina hoje no que Tierry Meysson chama de neoimperialismo. O capitalismo avançando e se expandindo. E o que é uma doutrina? Um corpo fechado de regras que não pode ser debatido, apenas cumprido. No que diz respeito à América Latina, por exemplo, a primeira grande doutrina é a Doutrina Monroe,de 1823. Nascida de uma declaração do presidente Monroe, ela estabelecia que a partir de então, a América Latina estaria …