Ser brasileiro agora é estar de luto

Na semana em que tivemos mais mortes pelo Covid deixo essa reflexão, sem neutralidades, sobre o sentimento de ser Brasileiro nesse momento.

No dia 28 de Outubro de 2018, desde a varanda de uma residência estudantil em Mendoza na Argentina, sentada em uma mesa com outros brasileiros, recebemos a notícia de que Jair Bolsonaro tinha sido eleito presidente do Brasil. Primeiro o baque: choro, revolta, raiva. Alguém ligou o som e cantamos com intensidade o refrão: “Amanhã vai ser outro dia” , música ícone de Chico Buarque na época da ditadura. Pulávamos com intensidade e o que nos deu fé nesse momento foi acreditar que em algum momento esse político e seus seguidores cairiam, pois já sabíamos que sua índole e seu discurso eram falsos e incongruentes. Eu mesma acreditava que ele não duraria um ano na presidência. Grande decepção. Mais de dois longos anos passaram, e nos continuamos a perguntar: Quando esse novo amanhã chegará?

Nesses dois anos já vimos de tudo nesse novo governo. Golden Shower, descaso e legitimação de crimes ambientais na Amazônia, venda de recursos importantes, como o pré-sal por uma mixaria, que era um projeto para ser desenvolvido por nós.  Além disso, a realização de reformas nos nossos serviços públicos que só regridem: na educação, nos direitos trabalhistas, na saúde, e etc. Entretanto, a partir do ano passado, essa série de ataques à nação brasileira tomou outras proporções. Uma pandemia mundial está assolando todos os países do nosso globo, e claramente, todas as populações. E nesse sentido, ter Bolsonaro como presidente é uma catástrofe sem precedentes. Desde o começo quando ele sabotou a situação perigosa e chamou o Covid de gripezinha, depois quando ele destituiu dois ministros da saúde que eram médicos em menos de um mês e colocou um militar no lugar, até a difusão de informações falsas e prejudiciais para a população: como incentivar o uso da cloroquina e agora atualmente, afirmando que o uso de máscara é prejudicial.

Entretanto, desde o começo desse ano a situação chegou a uma nova dimensão de preocupação. Enquanto os contágios por Corona Vírus estão diminuindo nos países, no Brasil eles vêm aumentando. E Bolsonaro? Não teme aglomerações, não usa máscara e é aplaudido por muitas pessoas que continuam seguindo o seu discurso de negação. E enquanto isso, os Estados estão tendo seus hospitais colapsados, já não há mais UTI, não há máquina de oxigênio sobrando, e não há vacina suficiente. E o que é que Bolsonaro fez para mudar isso? Aumentou o porte de armas permitido de quatro a seis unidades.

Muita gente pensa que essa sua maneira de atuar é só porque ele um ignorante, porém existem outros que pensam que ele despreza a população brasileira, e essa falta de responsabilidade em relação à pandemia seria um projeto. Se muitos tinham dúvida, na adesão do governo federal ao Covax Facility (Uma aliança internacional com a OMS que tem como objetivo fabricar vacinas mais rapidamente para conter a pandemia 1 , Bolsonaro vetou o artigo que permite aos Estados e municípios comprarem suas próprias vacinas em caso de omissão do governo federal. Por liberação do Supremo Tribunal Federal, esse veto não terá efeito. Porém fica registrada a intenção do governante. Se o seu governo está gerindo tão mal a pandemia, porque não deixar que os próprios Estados tenham mais autonomia? Seria por ego? Crueldade? Desprezo?

Bolsonaro e seu ministério da saúde são dois dos principais responsáveis pela tragédia que estamos vivendo. Mas não são os únicos. Durante o carnaval, milhares de pessoas participaram de festas clandestinas, encontros nas praias e nas ruas. Sem máscara, sem distanciamento, sem respeito. O resultado dessas “escapadinhas” foi o colapso do nosso sistema de saúde, e a situação que já era crítica, começa a tomar proporções mais assustadoras. Nesse momento, temos a maioria dos Estados brasileiros quase sem vagas na UTI, e já temos mais de 2.000 mortos por dia. A angustia aumenta ao saber que ainda há pessoas protestando contra a quarentena, contra o uso de máscara, enfim, contra aceitar a realidade: que estamos em uma pandemia. Nesse domingo passei por um carro que estava indo a esse protesto: carrão de luxo, bandeira do Brasil no capô, janelas abertas, pessoas vestidas com a camisa da seleção, e sem máscara. Cruzei olhares com eles, tinha vontade de xingá-los, gritar com eles, mas fiquei quieta e recebi um sorriso maléfico em troca. Alguma dúvida que isso é lidar com fascistas?

É por isso que me pergunto: Já não estamos todos de luto? Quem aqui ainda não perdeu nenhum familiar, ser querido, amigo ou conhecido para o Corona Vírus? E se não perdeu, a dor do teu compatriota, ou de outro ser humano, não deveria te doer também? Perdi minha avó para o Covid, mas também sei que um negacionista que conheci ano passado também morreu. As duas mortes me doem profundamente. Porque mesmo divido em polos ideológicos, mesmo com tanta violência e preconceito, esse é o nosso país e essas são as nossas pessoas. E elas estão padecendo.

Às vezes quando olho para trás, dando menos força para tudo o que vivemos nos últimos cinco anos, consigo me lembrar dos protestos com os meus amigos no centro, das cervejas compartilhadas junto a uma conversa de boteco, de dançar um samba ou uma marchinha de carnaval. Lembro-me do sorriso do meu povo, das letras de músicas alegres e sofridas, do caldo de cana, do pastel e da feijoada. É por não ter mais essa convivência bonita, que tanto nos definia, e é por não ver perspectiva de futuro, além de ver tanta gente querida morrendo, que estamos todos de luto. E não é qualquer luto, é um sentimento muito profundo, trauma coletivo que está nos invadindo. Não sabemos quanto tempo ainda teremos que viver essa situação, e ainda mais reféns de um presidente irresponsável, incompetente e cruel. Preocupo-me por meus conterrâneos, mas uma vez mais, abraço minha raiz e abraço o meu país.

Porque se estamos de luto, também estamos na luta. A dor é forte, a energia é pesada e estamos, muitas vezes, sozinhos, com pouca ajuda do governo. Mas dizer que esse é um povo trabalhador não é pouco. Temos uma vacina brasileira, a do Instituto Butantã, temos o SUS, um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, e temos muitos profissionais, na linha de frente, lutando. Sabemos que muitos são os que nos matam, por não seguir a quarentena e não ter uma visão coletiva, mas eles não podem nos representar! O Brasil que eu abraço é o que tem muitos profissionais competentes e comprometidos com as realidades sociais diversas. É o Brasil espiritual, que se junta para orar para todos os enfermos de Covid. São as pessoas que fazem marmitas solidárias e distribuem aos que não tem o que comer. São os brasileiros que fazem vaquinha para ajudar pessoas que perderam suas casas e que estão desempregadas. São os que recebem os imigrantes, porque sabem da aflição de não poder ter uma vida digna. São os que trabalham em coletividade, já que somos tantos!

Eu sei que esse Brasil lindo, forte e profundo precisa estar constantemente lutando com a escuridão do seu próprio povo. Porque o Brasil tem também como  herança: a servidão e a violência. Para poder ser um país do tamanho de um continente e muito “rico”, muito sangue foi derramado, e essa violência termina por ser intrínseca a nossa sociedade. Entretanto, acho que nessa luta podemos nos dar um novo significado, para perceber que o melhor do Brasil é o Brasileiro. Espero de coração, que esse luto possa nos ajudar a perceber o que é realmente essencial no nosso país: a nossa gente. E que quando isso passe, possamos priorizar a vida e o meio ambiente dignos para todas as pessoas.

 

 

Notas

Notas
1 https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/03/01/vacinas-bolsonaro-veta-prazo-de-5-dias-para-anvisa-aprovar-uso-emergencial.htm

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Estudiante de la Maestría en Estudios Latinoamericanos en la Universidad Nacional de Cuyo, Argentina.
Licenciada en Relaciones Internacionales por la UNICURITIBA, Brasil.
Creadora del proyecto itinerante Latinoamérica Desde Adentro.
Cantautora.

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