“Santa tierra”: preciosa para toda a vida

Quando invocamos Pachamama, invocamos essa consciência, onde eu volto a ser parte de tudo, sem fronteiras, distinção ou níveis. Simplesmente sou consciente de que tudo está vivo e que eu faço parte dessa vida.

Entrevista com Gustavo de Sousa Andrade (Moncho Aguilar) com contribuição de Ana Caroline Brustolin Kummer (Tânia Mendizabal), ele membro da Casamama Arcoiris, uma Comunidade Campesina Espiritual da rede Nación Pachamama, que fica em San Marcos Sierras, um pequeno povoado de Córdoba, Argentina, ela membro do Movimento Nación Pachamama, ambos profundamente conectados. Lá, recebem praticantes espirituais que queiram experienciar o que é uma comunidade campesina espiritual nutrida pelos ensinamentos da Mística Andina. Conectados com a cosmovisão andina, especialmente do povo de Q´eros, do Peru, bebem da fonte espiritual que conecta o homem à Terra de forma integral, vivenciando os ciclos da terra, as estações, os trabalhos domésticos, a bioconstrução, a agroecologia e permacultura, dentre outros interessantes conceitos e práticas. Num cotidiano distinto do comum nas grandes cidades, os membros da comunidade experienciam o ambiente em que vivem e experienciam-se a si mesmos numa rotina comunitária há muito perdida por nós, ocidentais urbanos, e ainda preservada nas lógicas tribais de todos os povos nativos e tradicionais do planeta. Eu convido você, leitor, a conhecer essa realidade e receber as infinitas possiblidades de contato e vivência com a nossa existência, ampla e infinita, em harmonia e respeitando nossa grande casa, a Terra.

Somos UM!

 

Quem é você e quais caminhos te trouxeram até o Movimento Nación Pachamama?

– Eu sou Moncho Aguilar tenho 35 anos e há 8 anos moro em comunidade, tenho dois filhos de 3 e 6 anos, hoje estou no ofício da apicultura e a ampla arte de viver no campo.

Aos 15 anos de idade fiz uma promessa a um rio poluído que cruza a minha cidade natal, Barretos/SP, e venho desde esse momento de comunhão “escolhendo” o caminho que me coloca em contato direto com a vida, desde a carreira de biólogo e a arte de educar na rede pública e particular, a escolher viver uma forma distinta ao que vemos hoje na sociedade atual, e o que me motiva acima de tudo, é transmitir o amor pela Mãe Terra, “La nuestra Pachamama”.

– Sou Tania Mendizabal, tenho 33 anos, há quase 10 anos, em setembro de 2011, conheci a Prática dos 21 dias, meu mestre e esse caminho andino. A partir desse momento um universo que se manifestava dentro de mim e que não encontrava saída nesse mundo recobrou sentido e encontrou espaço para manifestar-se, devolvendo a mim mesma a possibilidade de permitir-se sonhar e voltar a comungar com a existência. Percebi que havia muito mais para ser, para ver, sentir e fazer nesse mundo, que não estava sozinha e que essa experiência que chamamos viver, pode ser muito diferente daquilo que nos formataram para ver, que podemos ir muito além de levar uma vida em administrar nossas próprias necessidades e buscas materiais e trazer um sentido profundo à nossa passagem nessa terra.

Figura 1. Moncho e Tânia, membros do Movimento Nación Pachamama

Vocês fazem parte do Movimento Nación Pachamama, podem nos contar um pouco sobre?

Nación Pachamama é um oásis no deserto, é um farol na tormenta, um dispositivo estético que nos envolve no perfume do jardim da Deusa, na exuberância da fertilidade de la Madre e de todos os seres que ela cria em uma infinita diversidade. Somos um Ayllu, uma grande família, tradução da língua Quéchua, uma inspiração vinda dos antigos Andes, das amorosas famílias que caminham juntas em harmonia com a mãe-terra.

Pachamama traz um sussurro do espírito, tudo está vivo e se comunica, tudo dança conosco e nós dançamos com o infinito. Somos uma fraternidade de uaikis, amigos ou companheiros, para viver em Nación Pachamama,  que é um convite a experienciar um estado de consciência desperta, é escutar a melodia do agora e ser contagiado do óbvio, do incrível milagre que é estar vivo. Nosso movimento surge do sonho dos abuelos e abuelas do Tawantinsuyu em reviver em Abya Yala a Fraterna Comuna, junto a peixes, pássaros, junto ao vento que nos roça a face, das gotas de chuva que umedecem a terra e o alimento fértil abençoado de luz de Tayta Inti, o Pai Sol.

Nación Pachamama traz esse olhar socialista de sentir a vida, mas além das convenções sociais tratadas pelos seres humanos, há uma expressão real que se manifesta de forma coletiva, para todos, porque o sol nasce para todos, a água foi deixada para todos, a terra é de todos, e por isso sabemos que as fronteiras são ilusórias, todas as fronteiras que nos impedem sentir e comungar com o outro.

Figura 2. Peregrinos da missão Q´eros 2019, em Cusco, Peru.

Muita gente entende Pachamama como Mãe Terra, Gaia. É isso mesmo ou tem outro significado, mais profundo e conectivo?

Quando falamos “Pachamama” é uma palavra de invocação. Os povos andinos invocam essa presença, que é muito mais do que “Madre Tierra”, Mãe Terra ou Gaia. Existe uma percepção que nós ainda não alcançamos que é justamente a percepção que nos falta para perceber a irmandade, não só entre os humanos, mas entre todos os seres vivos e as coisas na superfície e na profundeza da Terra, de Pachamama. Nesse sentido, eu gostaria de compartilhar com vocês um relato. Há dois anos estivemos em Q’eros e participamos do ritual de bendição das alpacas, onde eles colocam as linhas coloridas nas orelhas das alpacas, uma pintura, uma bendição honrosa, com os cânticos das mulheres de Q’eros. Um ritual somente de mulheres, mascando as folhas de coca, com suas mesitas abertas, vão invocando através dos cânticos ancestrais a bendição aos animais, as alpacas. No momento desse ritual, que durou toda a manhã, já que o tempo corre diferente, nós começamos a brincar com as crianças, jogando pedras numa lagoa ao lado. Aos meus olhos era uma lagoa a mais, que estava ali na montanha, mas quando estávamos brincando de atirar pedras na água com as crianças, uma das mamachas (lideranças femininas) se levantou e chamou atenção das crianças em quéchua, que ficaram congeladas e simplesmente soltaram as pedras e foram brincar de outra coisa. Nós saímos de perto da lagoa e nos reservamos. Após o ritual, que finaliza com a soltura das alpacas coloridas e perfumadas, com água florida, fui perguntar a um companheiro mais próximo o que a mamacha havia dito para as crianças na beira do lago e ele me disse que ela simplesmente pediu para que parassem porque ela, a lagoa, não estava gostando da brincadeira. E mais nada me explicou. Nesse momento foi um choque, pois sem nenhuma explicação ritualística, esotérica ou algo do tipo, me demonstrou que aos olhos e sentimentos desses povos campesinos essa lagoa está viva, está consciente. Nesse momento eu percebi um abismo onde nós, ocidentais, somos cidadãos acostumados com o mundo sem o espirito de qualquer coisa. Ali eu percebi uma natureza original, onde toda a vida faz parte e nós, assim como a lagoa, as crianças, as aves, os animais, as nuvens, o sol, o vento, a terra, fazemos parte de uma consciência muito mais ampla e profunda do que podemos imaginar. Então quando invocamos Pachamama, invocamos essa consciência, onde eu volto a ser parte de tudo, sem fronteiras, distinção ou níveis. Simplesmente sou consciente de que tudo está vivo e que eu faço parte dessa vida.

Como é a rotina de vocês dentro do movimento Nación Pachamama e em comunidade?

O dia a dia da comunidade traz um ritmo e uma música, que percebemos dentro e fora de nós. Digo isso, pois quando a gente olha pra fora, os ritmos são campesinos, somos uma comunidade campesina espiritual, onde estamos voltando a cada dia a perceber esse ritmo ditado pelo sol, pelas estações, pela chuva, pelos ventos, pelos ciclos naturais. Quando vivenciamos uma comunidade, estamos nos reinserindo nesse ritmo, nessa cadência que já fez parte do nosso ritmo, no tempo dos nossos avós e bisavós.

Hoje uma comunidade campesina espiritual do Movimento Nación Pachamama tem como principio levar os membros ao convívio com os ciclos e as pessoas, recuperando um vínculo de amor mútuo com toda a vida. A rotina da comunidade é simples, e o viés campesino dita os ritmos: acordamos cedo e meditamos juntos, preparamos um café da manhã a muitas mãos e cuidamos dos trabalhos pessoais de cada um, no campo ou virtuais. Mais do que nada, viver em comunidade não faz distinção de gênero ou idade, se é criança ou adulto. A curiosidade é um principio que norteia as ações, assim se eu não sei fazer algo, eu tento e peço ajuda se necessário. Vou aprendendo ou recordando os princípios básicos para ter um coração aberto, uma mente tranquila, um corpo saudável, uma emoção fluida. De alguma forma, uma comunidade traz uma inspiração de um novo homem, uma nova mulher, para parir esse novo tempo que chega.

Quando vamos à horta, as crianças estão juntas para mover a terra, plantar, aprender o ciclo de cada planta, fazer o controle de pragas, adubar o solo com materiais orgânicos, conduzir a agua que chega do rio até a horta. Tudo isso é feito por todos e as crianças tem essa habilidade incrível que é a de brincar seriamente e de uma maneira muito simples e clara, conseguem se divertir e ajudar nos trabalhos: que seja ajudar na cozinha, que seja dar comida para as galinhas, que seja sentar pra meditar por 30 segundos. Quando a gente percebe o que é a comunidade, que é uma escola viva, ela traz essa percepção onde eu e todos os demais estamos aprendendo juntos a voltar a sentir esse amor que nos dá Pachamama e que as minhas dificuldades (mentais, emocionais ou físicas) são apenas um tempero, apenas um ritmo para a gente dançar juntos. Então não existe uma pessoa inadequada, existe uma inabilidade nossa de incluir, e é justo esse trabalho que a gente faz. A perna que eu manco, na verdade marca o passo da nossa dança coletiva.

Figura 3. Cebolas brotadas para serem plantadas na horta

 

Figura 4. Colheita de alho feita pelas crianças

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os povos andinos são reconhecidos pela relação harmônica ampla, com todos os seres, com o planeta, com Pachamama, o famoso bem-viver. Podem nos falar um pouco disso fazendo um paralelo com a vida nas cidades?

Mais do que fazer uma defesa ou mostrar quem está certo ou errado, percebo que de uma maneira mais evidente os povos que possuem uma relação íntima com Pachamama trazem consigo uma clareza de propósito em sua existência e ajudam toda a humanidade, guiando-nos. Há um sentido coletivo nisso, uma compreensão grupal, como por exemplo na Bolívia com a presidência de líderes indígenas escolhidos democraticamente, a luta dos povos Mapuche no sul da Argentina contra empresas multinacionais, e os povos originários andinos, que apesar dos frequentes ataques da modernidade seguem cultivando a sua cultura ancestral, há algo sendo preservado por eles, muito além de suas próprias vidas, e por saberem disso, não negociam o bem comum de todos, e protegem a divindade natural da própria humanidade. É diferente do que vemos no dia-a-dia dos que vivem nas cidades, em que cada pessoa está baseada no sucesso econômico e no status social, seu sucesso

pessoal, lutando por sua individualidade sem se importar verdadeiramente com o impacto que suas ações podem causar em relação a ampla harmonia coletiva. Isso nos leva a construção do que percebemos como realidade, uma pessoa que tem como base uma cosmovisão que tem a vida como centro e que todos os demais se movem nesse sentido, de sentir a existência, de sentir o todo, começa a se abrir a uma percepção onde existem outros atores não humanos, como elementais e devas que se manifestam na geografia sagrada e os espíritos da montanha denominados Apus que são influência no cotidiano, o que os andinos chamam de Anima Mundi. 

Vocês mantêm contato com o povo ancestral de Q’eros, no Peru. Podem nos contar um pouco sobre essa relação e como eles veem as pessoas de fora que compartem conhecimento?

Os Q’eros são povos originários desse continente, vivem há quase 5000 metros de altitude, nas montanhas do Peru e são os últimos descendentes diretos dos Incas. Até pouco tempo não tinham contato com a civilização e mesmo hoje, vivem praticamente isolados, preservam as tradições e rituais de devoção à Pachamama, e o contato que mantém são com pessoas e organizações que eles próprios permitem a entrada, até porque não é um lugar de fácil acesso ou mesmo que permita um fluxo intenso de pessoas. Assim, embora recebam alguns turistas, organizações e mesmo equipes dos órgãos públicos, eles mantêm preservados e ocultos, os mistérios mais profundos que lhes foram conferidos, não porque não queiram ou não possam transmiti-los, mas porque ainda não é compreendido pelos que chegam. Há algo que perdemos enquanto humanidade e precisa ser recuperado para voltar a compreender a linguagem de Pachamama, dos Q’eros, da vida, é algo que escutam os poetas, os artistas, aqueles que sentem profundamente a vida, que vão além da superficialidade, da objetividade e da linearidade… é um jeito de se viver e de se relacionar com a existência que os mantém em comunhão com Pachamama.

Um exemplo prático que vivemos nessa interação e o compartir de conhecimentos, foi a da melhoria dos fogões que ficam dentro das casas dos Q’eritos (como são carinhosamente chamados) nas altas montanhas, sendo que a fumaça inalada na cocção dos alimentos é a principal causa de doenças respiratórias, como obstrução dos pulmões e doenças cardiovasculares devido a inalação de dióxido de carbono e outros gases. Claro que temos que perceber uma realidade geográfica devido a altitude, onde não se tem plantas lenhosas crescendo, e a solução ancestral que tiveram foi utilizar as fezes dos ruminantes, em especial as alpacas e lhamas como o principal combustível, então naturalmente a fumaça é espessa e de cheiro forte. E se nota que com o tempo nos objetos pendurados e na parte interior do teto se cria uma película escura e pegajosa devido à exposição da fumaça por um longo período. Há 6 anos começamos a melhorar essas cozinhas, tendo como base o sistema rocket stove* que possibilita um melhor uso do combustível e a queima quase total dos gases nocivos à saúde e melhora do desempenho e tempo de cocção.

Foi um desafio porque não queríamos simplesmente introduzir o desenho, mas criar uma nova cozinha que manteria as características tradicionais e com as vantagens de um sistema que melhoraria a qualidade de vida e a saúde de todos. Ao longo desses anos construímos em conjunto inúmeras cozinhas para famílias e áreas coletivas, e percebemos que com o passar do tempo algumas famílias aceitaram essa nova cozinha que batizamos de «5 minutos» e que já fizeram suas próprias adaptações melhorando visivelmente a qualidade de vida e seguramente a saúde da família e da comunidade de Hatum Q’eros.

Disso também se trata a aliança profunda que mantemos com esse povo, disso se trata a nossa linhagem espiritual, essa linhagem na que eles são os que nos inspiram, os que nos conduzem. Há que vivenciar, praticar, sentir, digerir profundamente seus ensinamentos, e as comunidades campesinas do movimento Nación Pachamama e o Ayllu trazem esse propósito comover, tocar, sensibilizar, despertar, indagar, friccionar, desgastar, polir, estar constantemente em um estado de assombro, para que redescubramos o milagre e sair do adormecimento social, do conforto e conformismo rotineiro que nos afasta da maravilha, só então podemos começar a transmitir aquilo que floresce em nós.

(*o sistema rocket stove é uma maneira eficiente de queimar os gases da combustão gerando o máximo de calor e o mínimo possível de gases nocivos à saúde e ao meio ambiente. Na prática é um fogão doméstico de elevada temperatura que possibilita cocção rápida e impossibilita a inalação dos gases graças ao sistema de chaminé.)

Figura 5. Ciranda recreativa no pátio da escola no anexo de Chua Chua, Q’eros, Peru.Figura 5. Ciranda recreativa no pátio da escola no anexo de Chua Chua, Q’eros, Peru.

Porque as novas cozinhas foram batizadas de «5 minutos»?

Quando chegamos na comunidade pela primeira vez para instalar essa cozinha econômica de alto rendimento (rocket stove adaptada) pensamos em um primeiro momento que tardaria 1 dia para fazer a adaptação das cozinhas tradicionais das comunidades e criar um sistema adequado para o uso. Acabamos levando 3 dias para terminar o projeto de uma maneira minimamente eficiente e como as mulheres e homens da comunidade sempre estavam conosco ali, na cozinha comunitária, riam da situação e quando nos perguntavam quando ficariam prontos, sempre dizíamos que terminaríamos em 5 minutos. Eles se divertiam muito com isso e assim o nome da nova cozinha acabou ficando “5 minutos”.

 

 

Expliquem um pouco da relação com a terra e os caminhos que os levam às práticas ecologicamente espirituais.

Tudo que está, está perfeito, exatamente assim. Reconhecer a perfeição e agradecer pelo que já existe, agradecer daquilo que já comungamos nos devolve aos braços da vida, da terra, de pachamama, nos leva ao evidente que nos rodeia e que é maravilhoso, assim, tal qual é… e com a maravilha cotidiana voltar a ser criança e brincar de elevar paredes de barros com palhas, pedra e barro.. Há um mistério que ocorre exatamente nesse instante e que a satisfação da vida simples e frugal é o mais divino que nos poderia passar, o cotidiano é mágico.

Por vezes quando estivemos imersos no cotidiano das comunidades que formam a Nación Q’eros percebemos que nós vivemos hoje em um ritmo que não é natural, que está dessintonizado com as claras e profundas ondas do agora, das estações e ciclos da lua e do sol.

Quando falamos de sistemas auto suficientes, equilibrados e dinâmicos, com um olhar

prático e de produção e buscamos aplicá-los a estas comunidades andinas, estamos

cometendo um erro, porque ali vive-se desde sempre em íntima relação com a terra, com os animais, os corpos de água e as plantas, e isso nos leva a perceber a sua própria flor da permacultura, as suas próprias práticas de manejo florestal, já que estão em parte na floresta amazônica. O que gostaria de propor é que a inclusão de práticas, métodos ou visões devem ser traduzidas à realidade ancestral e ampla dos Q’eros, já que não se trata de um hectare de terra e sim do seio da própria mãe de “la santa tierra” de Pachamama.

 

Fale sobre a experiência de manifestar a paternidade dentro do movimento e dessa cosmovisão integrada.

Só depois de ser pai percebi a beleza da vida. De uma maneira clara percebi que os valores que levava, os conceitos, só fizeram sentido quando tive dois filhos, e que é a manifestação da nossa comunidade, a presença de crianças e a confiança que a vida têm por esse sonho que vivemos, um modelo de viver em comunidade, com intimidade com a terra, voltando aos ciclos de Pachamama e vivendo essa escola campesina, humana, com seus desafios e paixões.

Quando estamos vivendo ou visitando as comunidades da Nación Pachamama, estamos vivendo uma experiência humana comunitária aonde se borra os limites do núcleo familiar padrão e voltamos a expandir os laços de carinho e educação com todos. Então quando se trata da presença de crianças se tem a possibilidade de que tenha outras pessoas influenciando na formação deles, não somente o pai e a mãe, dando assim uma base onde a percepção de tribo ou de um núcleo mais amplo e nutritivo é possível.

 

As crianças participam de todas as atividades? Como é a dinâmica comunitária envolvendo os pequenos?

As crianças participam praticamente de todas as atividades, claro que preservamos a saúde e a segurança. Quando construímos as casas com materiais nobres como o barro vermelho, elas participam do preparo e construção das paredes, com a orientação de um adulto que está guiando a dinâmica que estão participando. Na horta tem ferramentas adequadas para que trabalhem seu pedacinho de terra e que entenda os ciclos e que colha os frutos. Aqui estamos totalmente inseridos no monte, bem selvagem, e a presença de animais silvestres é uma realidade, como principio não matamos as serpentes, porco do mato ou qualquer animal que possa representar algum risco ou ameaça, salvo por uma situação extrema. Aqui temos instrumentos para capturar e transportar as serpentes em geral das áreas que frequentamos como a horta e pomar, e levamos a uma parte da montanha onde poderão viver sem riscos.

 

 

Como vocês, vivendo em comunidade, percebem a luta dos povos originários na América Latina?

A luta dos povos originários da América Latina é a luta de todos os povos, é a luta pela

liberdade, pelo bem-viver, é a luta por devolver ao povo o que é de todos. O homem, através de uma metáfora, buscou consagrar-se como o centro do universo, e fez

o possível e o impossível para tornar a metáfora em realidade. Baseados em convenções sociais dividiu o planeta em propriedades, concedendo pedaços a seu bel prazer. Ocupando territórios, destruindo culturas e matando a diversidade de seres que compartilham desse espaço comum.

Pachamama, a mãe terra, como compreendem os povos originários Andinos da Abya Yala não entende de convenções sociais, não fala as línguas humanas e não se identifica com nossas razões, e ela, a natureza, é soberana.

Os humanos, através de sua imaginação, criaram essas compreensões do mundo, valendo-se de sua distinta capacidade de pensar, raciocinar e criar, e desenvolveram

ferramentas, conceitos, ideologias, tecnologia para garantir e justificar o seu domínio sobre a vida, que é livre, selvagem e de uma harmonia incrivelmente bela e poética. Os colonizadores que chegaram à costa da América impuseram, nas terras livres de Abya-Yala, o pensamento dominador, que triunfa sobre a vida, que prevalece sobre os outros, que compete, luta e vence, custe o que custar, doa a quem doer. O homem com seu pensamento predador levou à extinção de milhares de espécies, etnias, dizimando a diversidade e a multiculturalidade. Em sua avidez insaciável segue destruindo a vida.

Aos poucos resgata-se em múltiplos esforços, as compreensões de mundo das cosmovisões dos povos originários desse continente. Aqui existiam civilizações, comunidades humanas que se vinculavam através de uma outra percepção, uma outra perspectiva como o Buen vivir, Sumak Kawsay, Sumak Qamana, Teko Porã em um entendimento de que há um entrelaçado de relações, e que a Mãe Terra, Pachamama, o planeta, não é um recurso que pode ser explorado de maneira indiscriminada, predatória, sem qualquer cuidado com o equilíbrio sutil e energético que está contido em toda sua existência e que mantém os ecossistemas interagindo de forma espontânea e bela.

Essas cosmovisões dos povos campesinos e originários guardam uma matriz em comum, seu vínculo de amor e devoção a terra, uma percepção de que o planeta é como uma grande mãe – provedora, nutridora, abundante, fértil, generosa e que em sua pequenez diante da magnitude da Mãe-Terra, se faziam humildes filhos e filhas. Para nós essa é a Consciência Pachamama, que se busca semear em muitos corações para que floresça no coração humano esse amor a la madre, de filhos e filhas de Pachamama.

Figura 6. Atividade com professores e alunos na escola Inca Pachakutec, Q´eros, Peru.

Como veem a relação da sociedade brasileira não indígena com os povos indígenas do Brasil? Qual o futuro dessa relação?

Eduardo Galeano disse uma frase que gostaria de citar para iniciar essa reflexão. “Não há história muda. Por mais que a queimem, por mais que a destruam, por mais que mintam, a história humana se nega a calar a boca. O tempo que foi segue pulsando, vivo, dentro do tempo que é, ainda que o tempo que é não queira ou não saiba.” Assim é a história dos povos originários desse continente e do Brasil, uma constante resistência para manter a existência de si mesmos.

Ainda que tenham tentado de tudo para borrar da terra essas culturas e perpetuar o etnocídio, as vozes seguem ecoando e se multiplicam, as sementes deixadas por nossos ancestrais seguem brotando e a história nos mostra que há esperança. Mais de 500 anos de uma gigantesca violação de todos os tipos de direitos, esses povos não venderam suas almas, mesmo que permaneçam exilados em suas próprias terras, ainda tenham seus direitos de culto e espiritualidade, de uso de seus nomes e suas línguas marginalizadas, mantiveram vibrando em suas essências as forças ancestrais de suas raízes e isso é a redenção para toda a humanidade que nesse momento de transição encontra ali o resgate do essencial, daquilo que perdemos e que nos levou a esquecer nossas mais nobres características que nos tornam humanos.

Aprendemos com eles a grande lição de fraternidade, que perdoa e acolhe, estamos retornando aos braços de Pachamama, nos compreendendo como filhos e filhas da mãe e refazendo laços de irmandade entre todos. Para isso caminhamos, para o despertar à uma outra dimensão, um outro nível de compreensão, a consciência de que somos todos um único organismo vivo, um corpo interdependente, entre humanos e todas as formas de vida, minerais, vegetais, animais e inorgânicas, imateriais e os povos originários guardaram até agora esses mistérios maiores.

 

Como a pandemia foi percebida e vivida na realidade da comunidade?

Há 10 anos as comunidades da Nación Pachamama vem no intento diário de aprender com os ciclos campesinos do trabalho com a terra e a “lida” do campo e a devoção como principal nutrição do movimento que vivemos. Somos herdeiras e herdeiros do ritmo lento e paciente que a Deusa e Deus tece seu manto de bendições e milagres e do reencontro com a natureza primordial humana. Sentimos a pandemia com um sentido do despertar do novo homem da nova mulher que irá parir esse Pachacuti, que com a luta, a experiência e o amor veremos madurar um sonho tão sublime.

O movimento Nación Pachamama tem como caminho inquietar e levar agua fresca à consciência das pessoas, de tal maneira que leva tanto nas redes sociais como nas comunidades uma clara postura de apoiar e defender os oprimidos de toda natureza, seja ela qual for. E um desgoverno como o atual no Brasil deve ser enfrentado com o grito de toda humanidade: «Não passarão».

Como os Q´eros passaram pela pandemia e como ficou essa relação?

O isolamento geográfico natural através de matas, pela altitude ou distância dos centros urbanos caracteriza uma das barreiras mais eficientes para a preservação da cultura. Nesse caso, na Nación Q’eros não existem casos registrados de Covid até o presente momento.

Nós acompanhamos e mantemos o contato próximo mesmo com a distância e o isolamento social. A cada ano desenvolvemos uma campanha de curto alcance para que chegue em datas específicas, o que eles necessitam para que não lhes falte o básico, e mais que nada que recebam o carinho de pessoas que se importam com eles. Não se trata de caridade e sim de uma devoção e uma gratidão profunda por esses povos andinos que seguem dia trás dia com o coração amável e uma persistência sobrenatural, porque para mim eles são meus heróis, mulheres, idosos, crianças, homens que levam o sorriso nos olhos e uma beleza sem palavras que me dão esperança diante de tanta brutalidade ocidental que vivemos hoje em dia.

De que forma os leitores podem entrar em contato com o movimento, com a comunidade, enfim buscar uma imersão nessa distinta e especial maneira de se conectar com o outro e o mundo que nos rodeia?

Nós temos uma escola espiritual, onde transmitimos não só o conhecimento, mas também a inspiração através de cursos, lives e vivencias nas comunidades. Tudo isso para que nós, sobretudo nesse momento de pandemia, de estarmos fechamos em casa, numa possibilidade não favorável e distinta, que não foi escolhida por nós, podermos seguir um caminho que não é linear, um caminho mais íntimo e profundo, saindo da superficialidade de um caminho espiritual e adentrando profundamente nos enigmas e na beleza, na poesia, na militância, que é um caminho espiritual integral. Onde não se exclui uma linhagem e sim, somam-se as possibilidades. Desde Índia aos Andes, desde os pólos à África profunda e ancestral. O que tentamos transmitir e convidar é que a gente retorne à essa casa comum, à esse lar que está de portas abertas. Que Pachamama, dia após dia, traz esse amor nos convidando a amar. No Instagram temos a @escolamisticaandina, com lives e divulgações dos cursos, que convidamos que conheçam! Mais do que nunca, começou agora uma prática ancestral, muito linda, repleta de poesia e propostas de algo novo, os 21 dias, que nos convidam ao retorno, à criança que existe dentro de nós, voltando a perceber a alegria e a magia que existem mesmo nos dias de hoje. A prática dos 21 dias vem sendo acolhida, duas vezes ao ano, por muitas pessoas trazendo novas dimensões para os Equinócios de Outono/Inverno e Primavera/Verão. São praticas que fazem toda a diferença nesses tempos em que vivemos, de medo, de aflição, voltando a sentir esperança na vida.

É maravilhoso perceber que estamos nos reencontrando como seres sensíveis, para voltar a sentir o amor. O amor que luta, que escreve poesia, que se reinventa. Se você quiser saber um pouco mais pode entrar em contato conosco, temos um perfil no Instagram (@nacionpachamama), um site (nacionpachamama.com) e ali você vai se deleitar com todo o universo que a Nación Pachamama traz, que não está sendo inventado agora, que é muito antigo, é o sonho de muitos povos originários, de praticamente todos os povos conectados com a Mãe Terra, com Pachamama, com Gaia, trazendo essa percepção de que ou agora vamos juntos ou não vamos. A consciência só vai tocar a vida quando todos nós, de alguma maneira, estivermos juntos em um mesmo coração, um mesmo sonho. Um sonho que está totalmente ligado com a vida.

close

¡SUSCRÍBETE A NUESTRO BOLETÍN!

Te prometemos por la justicia social que nunca te enviaremos spam ni cederemos tus datos.

Lee nuestra política de privacidad para más información.

mm

Etnobiólogo.

Especialista em Antropologia e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará.

¿Qué te ha parecido?