Reflexões sobre o diálogo entre a internacionalização e a extensão universitárias

Nesse cenário de múltiplas formas de competição, a extensão universitária é ‘renegada’; não oferece os insumos necessários ‘ao avanço econômico’ esperado da universidade.

Fernanda Leal
Stefani de Souza
Mário César Barreto Moraes

 

O entendimento de que a concepção dominante de ‘internacionalização da educação superior’ 1 se insere em uma proposta de racionalidade moderna/colonial, que naturaliza e avoca a expansão perpetuada do capitalismo e a hierarquização radical da humanidade, ressalta a importância da busca por relações acadêmicas internacionais que estejam explicitamente alinhadas a esforços de justiça social (de Wit et al., 2020) ou que sejam ‘epistemologicamente desobedientes’ ao confrontarem histórias locais com projetos globais (Leal, 2020).

Dado o potencial da extensão universitária – em sentido amplo, como idealizada pelo Movimento de Córdoba (1918) – no que concerne à aproximação entre a universidade e a sociedade, refletimos sobre o diálogo entre internacionalização e extensão. Desenvolvemos nossas breves considerações a partir de uma revisão sistemática da literatura científica publicada sobre o tema, conduzida no início de 2021 2. Dos 86 estudos que abordavam ou, ao menos, faziam referência a ambas as dimensões, selecionamos os dez que mais possibilitavam evidenciar as nuances desse diálogo. As cinco considerações seguintes sumarizam nossa intepretação:

1          Existe uma frágil relação entre a concepção dominante de internacionalização da educação superior e a extensão como missão universitária fundamental.

A articulação entre a internacionalização e a extensão como missão universitária fundamental é tênue em comparação ao ensino e, sobretudo, à pesquisa. Muito embora os discursos institucionais ressaltem a necessidade de que a internacionalização contemple a estrutura universitária em sua totalidade, a prática revela a ausência de ações concretas de ‘internacionalização da extensão’ ou de reflexões sobre o impacto que a extensão pode exercer na internacionalização. Ao negligenciar a missão que mais potencialmente possibilita dissipar o status da universidade como ‘torre de marfim’, as estratégias de internacionalização em curso potencialmente induzem ao enfraquecimento da função social da universidade.

 

2          Tal fragilidade se insere no contexto mais amplo de mercantilização da educação superior

A ênfase da internacionalização na pesquisa em detrimento do ensino e, sobretudo, da extensão, relaciona-se ao contexto mais amplo de mercantilização em que a educação superior se insere. Articulado à ‘economia global do conhecimento’, tal contexto privilegia a hegemonia do modelo de universidade elitista de pesquisa: a anglo-saxã (Ordorika & Lloyd, 2014). Destarte, promove o desaparecimento como realidade de outras formas institucionais distanciadas do sistema de valores. Privilegia, ainda, a formação técnica, inserida na lógica reprodutivista demandada pelo sistema de capital, segundo a qual ‘quem viver tem que trabalhar’ (Foucault, 1999). Assim, desestimula o pensamento crítico, que contempla em seu escopo a historicidade, a criticidade e a reflexividade como caminhos para a construção de um saber engajado e comprometido. Nesse cenário de múltiplas formas de competição, a extensão universitária é ‘renegada’; não oferece os insumos necessários ao ‘ao avanço econômico’ esperado da universidade.

3          O excesso de racionalidade econômica faz com que a relação universidade-sociedade seja compreendida como universidade-indústria, sendo a internacionalização um caminho fundamental para o fortalecimento dessa relação.

 

No paradigma econômico/instrumental, a relação universidade-sociedade, também designada de ‘Terceira Missão’ da universidade, é compreendida como sinônimo da colaboração universidade-indústria. Trata-se de um viés perceptível, por exemplo, em Sá et al. (2015), que embora declarem não se amparar em uma perspectiva funcionalista de pesquisa – por reconhecerem que os sistemas nacionais de educação superior se desenvolvem conforme as expectativas das agências governamentais, dos mercados, das aspirações populares e das culturas institucionais – assumem que o sucesso das universidades brasileiras deve estar ancorado na busca de objetivos mais orientados para a economia, por meio do foco na pesquisa e na inovação. A internacionalização, nesse paradigma específico, emerge como caminho fundamental para a inserção da universidade na ‘economia global do conhecimento’.

 

4          O conceito de ‘Internacionalização da Educação Superior para a Sociedade’ não pode ser compreendido como sinônimo da ideia Universidade-Sociedade idealizada na América Latina, pelo Movimento de Córdoba (1918).

 

O conceito de ‘Internacionalização da Educação Superior para a Sociedade’ (‘Internationalisation of Higher Education for Society’ – IHES), trabalhado por Brandenburg (2020) e referenciado por de Wit et al. (2020), dialoga, mas não pode ser compreendido como um sinônimo da ideia de universidade-sociedade por vias da extensão, como idealizada pelo Movimento de Córdoba (1918). A IHES assume que o trabalho em internacionalização deve ser vinculado ao trabalho de engajamento social, com foco em ‘questões globais’ como xenofobia, populismo, mudança climática e preservação da democracia. Por sua vez, a extensão segundo Córdoba diz respeito à relevância social do ensino e da pesquisa; é motor da geração de práticas universitárias integrais; na busca por um diálogo de saberes científicos e populares. Seu escopo, inserido no contexto latino-americano, é antes local do que global. De uma perspectiva crítica/decolonial, muito embora o conceito de IHES possa ser contributivo à formulação de políticas e estratégias de internacionalização menos hegemônicas, seus ideais podem ser considerados universalistas. Em última instância, pressupõem a existência de necessidades comuns à toda a humanidade e de um centro no qual o conhecimento é produzido para resolver os problemas de todos. É nesse sentido que sua transposição ao contexto das universidades públicas latino-americanas é questionável; confronta o ideal de que a região se constitua como seu próprio centro de referências.

 

5          Estudos latino-americanos aprofundam melhor a relação entre internacionalização e extensão universitárias e enfatizam a relação desses processos com a integração regional

Estudos desenvolvidos na América Latina, sobretudo na Argentina, tendem a ser menos reducionistas em seu conceito de extensão universitária e nas referências à relação internacionalização-extensão, com propostas e evidências mais concretas nesse sentido. Segundo a noção de extensão empreendida nesse contexto, a universidade deve vincular-se ao seu entorno local e global, de modo a fazer emergir o necessário vínculo entre saber acadêmico e saber popular. Trata-se, segundo De Paiva et al. (2019), de promover modelos de pensamento e de ação direcionados à transformação crítica da realidade, ancorados na premissa de que conhecimento é de todos e para todos. Estudos latino-americanos tendem, ainda, a problematizar de forma mais aprofundada o fenômeno da internacionalização, além de vincular internacionalização e extensão à integração regional.

É provável que a perspectiva privilegiada possa ser atribuída ao fato de que a América Latina e, especificamente, a Argentina, seja berço dessa missão universitária. O trabalho de Perrotta (2020) é esclarecedor nesse aspecto; permite vislumbrar como a cultura acadêmica ancorada na ideia de direito individual e coletivo à universidade possibilitou às instituições universitárias públicas argentinas responderem de forma rápida e consistente aos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, com diversas iniciativas nos campos de ensino/aprendizagem, pesquisa científica e engajamento comunitário e internacionalização.

Ainda segundo tais estudos, a integração universitária latino-americana pode se dar por meio de redes de extensão internacionalizadas, com intervenções concretas interdisciplinares sobre problemáticas sociais comuns à região. Para Buscemi (2018), a internacionalização da extensão deve ser concebida como uma integração solidária, entendida como o conjunto de ações de cooperação interuniversitária de mútuo benefício, na busca de acordos que promovam novos horizontes do conhecimento e o diálogo deste com o desenvolvimento da região. Para Toscano Ruiz et al. (2017), a gestão da extensão no processo de internacionalização da universidade deve ser mediada e orientada pela concepção sobre sua missão como instituição sociocultural, sem subestimar o lugar importante que ocupa na construção acadêmica de novos saberes e práticas de pesquisa.

Essas cinco percepções nos possibilitam concluir que uma infinidade de ações de ‘internacionalização da extensão’, ou de ‘extensão da internacionalização’, pode ser projetada e construída. É também nessa perspectiva que a extensão pode ser usada como meio para contrabalancear os efeitos nocivos da internacionalização. Intencionalidade, segundo de Wit et al. (2020), é imprescindível; serve como fator decisivo para que a internacionalização cumpra suas promessas e esteja verdadeiramente vinculada a esforços de justiça social. Por essa via, a internacionalização tem o potencial de induzir a questionamentos sobre o papel histórico da universidade na institucionalização e naturalização de relações de apropriação e de exploração e, assim, contribuir para a transformação estrutural da realidade.

 

Referências

 

Brandenburg, U. (2020). Internationalisation in higher education for society – IHES in the times of corona. Social Education, 8(1), 11–24.

Buscemi, A. (2018). La internacionalización de la extensión universitaria en clave de integración regional. La experiencia de la Universidad Nacional del Litoral. +E Revista de Extensión Universitaria.

De Paiva, H. L., Vargas, M., & Neto, E. (2019). Internacionalizando a Extensão Universitária: O Projeto S-Intex na UFPB. Mural Internacional, 10.

De Wit, H., Leal, F., & Unangst, L. (2020). Internationalization aimed at global social justice: Brazilian university initiatives to integrate refugees and displaced populations. ETD – Educação Temática Digital, 22(3), 567–590. https://doi.org/10.20396/etd.v22i3.8659331

Foucault, M. (1999). Vigiar e punir: o nascimento das prisões (20th ed.). Vozes.

Knight, J. (2004). Internationalization remodeled: definition, approaches, and rationales. Journal of Studies in International Education, 8(5), 5–31. https://doi.org/10.1177/1028315303260832

Leal, F. (2020). Bases epistemológicas dos discursos dominantes de “internacionalização da educação superior” no Brasil [Universidade do Estado de Santa Catarina]. https://doi.org/10.1017/CBO9781107415324.004

Perrotta, D. (2020). Universities and Covid-19 in Argentina: from community engagement to regulation. Studies in Higher Education, 46(1), 1–14.

Sá, C., Kretz, A., & Sigurdson, K. (2015). Brazil: Research and the “third mission” in light of global events. In Higher education in the BRICS countries: Investigating the pact between higher education and society. Springer.

Toscano Ruiz, D. F., Navas Chancay, C. L., & Villacres Borja, R. M. (2017). La gestión extensionista del proceso de internacionalización de la universidad. Revista Conrado, 13(58), 105–112.

 

Notas

Notas
1Comumente definida em termos genéricos, como “o processo de integração das dimensões internacional, intercultural e global aos propósitos, às funções primárias e à entrega da educação pós-secundária” (Knight, 2004, p. 11).
2 A ser publicada em capítulo de livro sobre internacionalização e extensão. A  revisão sistemática da literatura foi realizada nas bases de dados ScieLO, Scopus, Web of Science, bem como na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, além da rede ResearchGate, entre janeiro e fevereiro de 2021.

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É doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil, foi pesquisadora visitante do Center for International Higher Education (CIHE), Boston College, Estados Unidos, de 2018 a 2020, e é secretária-executiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil.

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