Quilombo é uma proposta civilizatória – Capítulo 7

Pela profundidade dos brasis, os quilombos mostram que lutar pelo direito ao território é a grande pandemia.

Quilombo é uma proposta civilizatória
Quilombo é uma proposta civilizatória
Quilombo é uma proposta civilizatória
Foto: Ana Carolina Fernandes.

O território, ao ser inerente a garantia da saúde, faz com que as e os quilombolas se tornem a última barreira contra a morte do Cerrado e do Pantanal. Isso é um enfrentamento direto ao crescimento da propriedade privada, é estar no olho do furacão da máquina capitalista do agronegócio e do envenenamento do mundo pelos agrotóxicos. Não é a toa que o Brasil é o maior consumidor desses produtos. Uso que impacta não só as monoculturas locais, mas se espalha pelo solo, pelos lençóis freáticos, impedindo que a diversidade de plantações se fertilizem em tal local. Isso sem falar das mineradoras que alteram o solo, o degradam, assoreiam rios e as hidrelétricas que barram a vitalidade, o alimento fluido, e levam, mais uma vez, o capital recebido para fora da região.

Desenvolvimento, que des-envolve, não combina com a sustentabilidade promovida pelos povos tradicionais que envolve e promove a longevidade da terra. São as guardiãs e os guardiões que impedem o desastre e nos possibilita acesso ao mínimo de qualidade de vida em termos de ar, água e alimento. Isso porque são nos territórios quilombolas que nascem e são mantidos os grandes aquíferos e a diversidade de fauna e flora que representa o Brasil. O grande ancestral Cerrado é um desses espaços em que o Quilombo Kalunga, no coração do Brasil, tenta preservar o pulsar da distribuição de água doce para o restante do país.

Rio do Peixe, Goiás. Foto: João Lima.

“Os rios não nascem na avenida paulista, não nascem em Copacabana, não nascem nos centros, não nascem no Leblon. Os rios nascem nos territórios. As cabeceiras dos rios estão nos nossos territórios. E só existem os rios porque a forma do nosso povo trabalhar e de lidar com a terra é que fez com que essa biodiversidade, com que essa riqueza, continuasse de pé”, ressalta Biko.

“O desafio vai ser pós-pandemia também. As mãos gananciosas na recuperação da economia, vem para cima dos recursos naturais, então a gente teme muito o que vem pela frente”, diz Biko preocupado com a possibilidade de maior incidência de violência para com as comunidades e as lideranças.

O saber orgânico que valoriza o ser, como afirma o mestre Nêgo Bispo, acontece junto a terra e seus seres, em que a morte de um impacta o equilíbrio cosmológico. No entanto, é importante refletir sobre outra forma de lidar com a ideia de riqueza para além da noção de acúmulo que valoriza o egoísmo do ter. “O Cerrado é rico, o Cerrado é milionário. Se você for nesses campos aí, nesses cerrados, nessas lagoas, nessas flor agora, é riquíssimo” conta Dona Flor, quilombola do Povoado do Moinho, Goiás, ao início do documentário Sertão Velho Cerrado (2018).

“Acreditamos que o nosso povo tem que enriquecer e o nosso povo enriquecendo, enriquece a comunidade” diz o mestre em contraposição a lógica de economia eurocolonizadora que acredita que o país tem que enriquecer primeiro para depois enriquecer o povo. A riqueza é o bem viver, é poder “ser sem medo de ser”, é viver com dignidade e em reciprocidade com os seres. É poder tomar cachaça com os amigos, bater papo no fim de tarde, plantar sua roça e estar em paz. “Não preciso do muito, mas do suficiente” conta Joaquin Wilson, raizeiro do Quilombo povoado do Moinho, Goiás.

O Mestre também reitera o seu agir no mundo e diz “nos enquanto quilombola, vocês enquanto favela, os indígenas enquanto aldeia, nós não somos povos de periferia coisa nenhuma, nós somos povos contra-colonialistas, somos civilizações contra-colonialistas, nós somos diferentes, e nós não queremos misturar, nós não queremos confluir, porque não dá pra confluir se nós somos outra coisa. Contra-colonialista não dá pra confluir com quem tem ódio”. E ressalta, “somos uma civilização, sem periferia, porque somos uma civilização confluente, que compartilha” diferente da civilização colonialista que impõe sua influência, é mono, única, se movimenta a partir da onipotência, onipresença e onisciência.

Foto: Ana Carolina Fernandes.

Como afirma a quilombola e filosofa Katiúscia Ribeiro, não precisamos criar outra proposta civilizatória para nos emancipar, porque “já existe uma outra proposta civilizatória dentro dos Quilombos, dentro dos terreiros, dentro das comunidades indígenas”. O Quilombo ao ser “a história do Brasil que os livros de história não contam”, como afirma Biko, indica que a retomada desses brasis é uma prática de insurgência, rebeldia contra a ordem imposta. Isso é necessário para tomar o que é nosso, expandirmos o projeto de vida e do ato sonhar e exercitar a justiça histórica.

“Esse lugar chamado Brasil, não pode cosmologicamente, nem cientificamente, nem culturalmente, nem socialmente ser um lugar de um único povo. Aqui é um lugar de vários povos. E assim tem que ser e assim será sempre, porque cosmologicamente não funciona de outro jeito” completa o mestre Nêgo Bispo, quilombola da comunidade de Saco-Curtume, Piauí. “Ser quilombola é ser livre, de pensamento, das cercas que separam os nossos futuros. É estar pronto para recomeçar e construir tudo. Sempre olhando o passado, mas projetando o futuro” finaliza Biko.

«Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer».
Conceição Evaristo

 

Texto completo publicado inicialmente em www.brasis.org, Brasis – Histórias da periferia na pandemia. Projeto realizado pelo Favela em Pauta e pelo Instituto Marielle Franco.

Jornalista e Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Mestra em Comunicação.
Colaboradora no Favela em Pauta.
Pesquisadora no Coletivo Magnífica Mundi – UFG e no OBIAH – Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais e decoloniais da Linguagem – UFG.

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