“Povo verdadeiro, Povo autêntico”: vivendo entre os xavante de Parabubure, Mato Grosso, Brasil

Terras Indígenas Xavante
Terras Indígenas Xavante

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Felipe de Oliveira Jacinto.
Etnoconservação e cultura popular.
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS – Campo Grande/MS
fojacinto@gmail.com
Recibido: 18/05/2018 – Aceptado: 10/08/2018

 

Resumo: Este artigo apresenta um relato de experiência de cunho etnográfico sobre a vivência junto ao povo indígena Xavante da Aldeia Daritidzé, Terra Indígena Parabubure, Mato Grosso, Brasil. O objetivo principal foi relatar o cotidiano das relações abrangendo aspectos como sociabilidades, alimentação e cultura, saúde, educação e a relação com a sociedade não-indígena do entorno. Observação participante, entrevistas e análises de documentos foram os principais métodos utilizados, apoiados por registros fotográficos e de cunho pessoal. O texto se propõe a apresentar a realidade cotidiana vivenciada pela comunidade, sob a perspectiva do pesquisador, problematizando aspectos cruciais para a melhor compreensão da realidade local e das dinâmicas entre as sociedades indígena e não-indígena no Brasil.

Palavras-chave: etnografia, sociabilidades, cultura tradicional, povos indígenas.

 

Resumen: Este artículo presenta un relato de experiencia de cuño etnográfico sobre la vivencia junto al pueblo indígena Xavante de la Aldea Daritidzé, Tierra Indígena Parabubure, Mato Grosso, Brasil. El objetivo principal fue relatar el cotidiano de las relaciones abarcando aspectos como sociabilidades, alimentación y cultura, salud, educación y la relación con la sociedad no indígena del entorno. Observación participante, entrevistas y análisis de documentos fueron los principales métodos utilizados, apoyados por registros fotográficos y de cuño personal. El texto se propone presentar la realidad cotidiana vivenciada por la comunidad, bajo la perspectiva del investigador, problematizando aspectos cruciales para la mejor comprensión de la realidad local y de las dinámicas entre las sociedades indígena y no indígena en Brasil.

Palabras clave: etnografía, sociabilidades, cultura tradicional, pueblos indígenas.

 

Abstract: The present article is a report of an ethnographic experience regarding a time spent together with the indigenous people Xavante from the Daritidzé Village at the Parabubure Indigenous Land, located in Mato Grosso, Brazil, during the year 2015. The main goal was to report the nature of their relationships covering aspects such as sociability, food and culture, health, education and the relationship with the non-indigenous society around that area. The major methods used were observation, interviews and document reviews, supported by personal and photographic records. The text intends to present the daily life of the community under the research perspective, problematizing crucial aspects for a better understanding of local reality and the dynamics between indigenous and non-indigenous societies in Brazil. 

Keywords: Ethnography, sociabilities, traditional culture, indigenous peoples.

 

Introdução

Conhecidos pela relação cosmológica com os sonhos e atuando como guardiões da localidade da Serra do Roncador, no estado do Mato Grosso, o povo Xavante apresenta uma história bastante recente de contato definitivo. Foi somente por volta do ano de 1943, após um longo histórico de deslocamentos e fugas do contato com a sociedade não-indígena, que os primeiros grupos Xavante foram definitivamente contatados e ‘pacificados’, ao passo que outros grupos, espalhados pelo leste do Mato Grosso sofreram, gradativamente nas décadas seguintes as consequências do cercamento que as frentes de desenvolvimento agropastoris dos rincões do Brasil impunham (Carvalho, 2010). Convivendo desde então numa indissociável relação com a sociedade não-indígena, passaram a se adaptar às novas conformações necessárias nessa dinâmica, o que Darcy Ribeiro (1970) trata por transfiguração étnica.

Buscou-se através desta pesquisa produzir um material que documentasse a experiência compartilhada entre distintas visões e sabedorias em meio ao cerrado mato-grossense, utilizando de uma linguagem científica acessível, num estilo informal, narrativo, ilustrado por figuras de linguagem, citações, exemplos e descrições (Lüdke & André, 1986) que enriquecem o corpo do texto. Segundo Geertz (1989, p. 24) “compreender a cultura de um povo expõe a sua normalidade sem reduzir sua particularidade”, onde se pretende dialogar com as pessoas, compreendendo e interpretando as distintas formas de apreensão e percepção do ambiente e da vida que se desenvolve nele.

Numa mescla do que foi a minha experiência ao longo de um ano inteiro entre esse magnífico povo do Brasil Central e o que pude apreender acerca dessa realidade conjunta, esta pesquisa compõe-se de um estudo de caso qualitativo com abordagem etnográfica no contexto específico de uma comunidade Xavante localizada na Terra Indígena (TI) Parabubure, Mato Grosso, Brasil. Este trabalho é oriundo de registros pessoais de minha vida cotidiana e busca, através de um relato de cunho etnográfico, caracterizar as experiências vivenciadas demonstrando a riqueza de experiências, evidenciando e discutindo os pontos chave acerca do contexto local, levantados ao longo do tempo de convívio.

Os Xavante e a terra indígena Parabubure

Os Xavante se autodenominam A’uwê Uptabi, que em sua língua materna significa povo verdadeiro ou povo autêntico. De acordo com Lopes da Silva (1986), os A’uwê Uptabi juntamente com os Xerente do Tocantins formam o grupo Acuen, pertencente à família linguística Jê, do tronco Macro-jê, e são conhecidos como Jê Centrais. Sua população é composta de 17.419 indivíduos (SIASI/SESAI/MS, 2013) localizados majoritariamente no estado do Mato Grosso, região Centro-Oeste do Brasil e foi somente em meados do século dezesseis que passaram a ser nomeados como ‘Xavante’ por exploradores do Brasil Central.

Em situações distintas da história da colonização do interior do país, os Xavante foram detectados em áreas que hoje corresponderiam às fronteiras dos atuais estados do Maranhão e Tocantins, chegando às proximidades da fronteira com a Bahia e nas porções norte, central e a oeste do que hoje é Goiás (Ribeiro, 1970; Ravagnani, 1991). Eles somente ocupam o leste da província do Mato Grosso, onde hoje se encontram, em meados do século dezenove, quando ocorre a intensificação do contato com a sociedade nacional (Lopes da Silva, 2002; Carvalho, 2010).

Esses deslocamentos realizados pelo povo Xavante visavam fugir de situações conflitantes e condições impostas de apresamento, aldeamento (Carneiro da Cunha, 2002) ou pacificação (Lopes da Silva, 2002). Notoriamente mantiveram nessas incursões a predileção pelo bioma cerrado, o que evidencia serem os Xavante um povo “altamente especializado em garantir sua sobrevivência por meio da exploração dos recursos naturais próprios desse bioma” (Carvalho, 2010, p. 23).

Tradicionalmente nômades e praticantes de caça, coleta e agricultura, a partir da década de 40 com a intensificação do contato com a sociedade envolvente (Lopes da Silva, 2002), sofreram profundas alterações em seus modos de vida quando passaram, então, a viver confinados no que eram conhecidas como reservas indígenas.  Segundo a Fundação Nacional do Índio (FUNAI, 2011) atualmente é reconhecida a situação fundiária de 11 Terras Indígenas (TI) do povo Xavante: Pimentel Barbosa e Areões, Areões I e II e Chão Preto, na região do Baixo Rio das Mortes; Sangradouro-Volta Grande e São Marcos, região do Alto Rio das Mortes; Parabubure e Ubawawe, na região dos rios Kuluene e Couto Magalhães; Marechal Rondon, na região dos rios Paranatinga e Batovi; Marãiwatsede, na região do rio Araguaia. Há pelo menos outras três TI do povo Xavante, em processo de estudo, inseridas nas áreas dos municípios de Água Boa, Campinápolis e Nova Xavantina.

Figura 1. Mapa de localização geográfica das Terras Indígenas Xavante no estado de Mato Grosso, Brasil, com destaque para a TI Parabubure na linha preta.

Terras Indígenas Xavante
Fonte: GOMIDE, 2008.

Sobre a constituição da sociedade Xavante, De Souza e Da Cunha (2014, p. 4) afirmam que:

A sociedade Xavante é constituída por metades patrilineares exogâmicas, ou seja, a criança ao nascer pertence ao clã do pai. Há três clãs: Poredza’ono, Öwawe e Topdató, e os membros de um mesmo clã não podem casar entre si. O grupo doméstico é composto por famílias extensas matrilocais. Ainda que a maioria das pessoas case com membros de sua própria aldeia, o casamento pode ser entre indivíduos de distintas aldeias e terras indígenas, ficando as famílias ligadas por alianças de matrimônio, o que mantém um constante fluxo de visitas. O grupo doméstico é composto por famílias extensas matrilocais. A residência, após o casamento, é matri ou uxorilocal, isto é, o marido passa a residir com os parentes da esposa. Deste modo, cada grupo doméstico é formado por várias mulheres ligadas por laços de parentesco de duas ou três gerações, seus cônjuges e filhos.

Segundo o autor Xavante Tsi’rui’a (2012, p. 20) a sociedade do povo A’uwê apresenta elevada taxa de crescimento populacional, “ocupando suas terras demarcadas, desde que foram homologadas nos anos 1970” o que faz com que os territórios, hoje, estejam se tornando pequenos.

Na língua materna Xavante Parabubu significa ‘onde tem muita batata (cará grande)’ e Parabubure, um tipo de ‘batata redonda pequena’ (Ferraz, 1992). Homologada em 1991, a TI Parabubure possui a extensão de 224.447 hectares, e constitui a TI Xavante mais populosa de todas, com uma população total de 8.578 indivíduos (IBGE, 2012). Estende-se pelas municipalidades de Campinápolis, Água Boa, Nova Xavantina e Santo Antônio do Leste (Carvalho, 2010), dos quais corta o primeiro praticamente ao meio e abrange pequenas áreas dos restantes. Está ligada a outras duas TI Xavante, Chão Preto e Ubawawe, mas não são consideradas como uma área contínua.

Figura 2. Vista panorâmica da TI Parabubure, uma ilha de vegetação em meio ao agronegócio, cortada pela principal estrada de acesso às aldeias.

Parabubure
Fonte: Felipe Jacinto, arquivo pessoal, 2015.

Procedimentos metodológicos

Esta pesquisa constitui-se de um relato de experiência de cunho etnográfico, que busca trazer com clareza e diversidade de detalhes a experiência vivida em campo. A pesquisa do tipo etnográfico possui como características essenciais o envolvimento em um trabalho de campo prolongado, onde o pesquisador é a principal ferramenta de coleta de dados e, para isso, se utiliza de um conjunto de técnicas tais como a observação participante, as entrevistas e a análise de documentos (Martucci, 2001).

A técnica da observação participante (Malinowsky, 1979; Becker, 1994) foi utilizada para que a obtenção dos dados e a percepção acerca da realidade cotidiana fosse melhor compreendida. Conforme proposto por Oliveira (2000), a experiência em campo seguiu os princípios do olhar, ouvir e escrever. A interação complexa que se estabelece entre o investigador e o sujeito investigado (DaMatta, 1987) exige atenção no como nos comportamos em campo e, quanto à observação atenta, ela não está restrita apenas ao que vemos, ela inclui todos os nossos sentidos (Richardson, 2015). Neste relato, foram utilizados dados primários obtidos através da experiência em campo e dados secundários, oriundos de consulta e revisão bibliográfica (Brumer et. al., 2008). Por questões éticas, priorizou-se o anonimato da grande maioria dos envolvidos nos relatos, bem como da escolha de imagens que não expusessem de modo invasivo o cotidiano da aldeia.

A vivência na aldeia Daritidzé

Antes de iniciar o relato acerca da minha vivência na Aldeia Daritidzé, penso que é de bom senso que contextualize os caminhos que percorri até chegar a viver entre os Xavante de Parabubure. Bacharel e licenciado em Ciências Biológicas e atuando nas áreas de etnobiologia e etnoconservação, me envolvi com os povos indígenas ainda durante a graduação.

No ano de 2013 fui voluntário dos XII Jogos dos Povos Indígenas, em Cuiabá/MT, e pude ter contato direto com mais de três mil indígenas pertencentes a mais de 50 etnias do Brasil e da América Latina. Ali, pude conviver intimamente com muitos povos reunidos no evento, mantendo contato através das redes sociais com os mais jovens, de modo que estreitamos ainda mais os nossos laços.

Assim, no início do ano de 2014, fui convidado a visitar a aldeia Eteipó’re, na TI Parabubure, onde convivi aproximadamente uma semana com o povo Xavante auxiliando em atividades educacionais na aldeia. Retornei alguns meses depois a convite da direção da escola e tive dias de convívio intenso, longas conversas com lideranças e incursões espontâneas pelo cerrado na companhia de adultos e crianças que me apresentavam tudo com orgulho e pertencimento.

Foi nesta segunda visita que conheci um dos netos da matriarca da aldeia que, numa longa conversa acerca da vida de sua família, contou-me que haviam fundado recentemente uma nova aldeia, naquela mesma micro área, chamada aldeia Daritidzé e fazendo-me uma proposta inusitada: a de trabalhar como professor na escola da aldeia. E foi assim que, durante todo o ano de 2015, eu pude vivenciar a incrível existência dos Xavante de Parabubure auxiliando na educação escolar.

A aldeia Daritidzé

Criada entre os anos de 2012 e 2013, a aldeia Daritidzé é resultado do desmembramento de um grupo familiar oriundo da Aldeia Eteipó’re em busca de autonomia e harmonia no convívio e tem sua composição sócio espacial ocorrendo de maneira gradativa na medida em que novas famílias são formadas ou parentes decidem se mudar para o novo território ocupado.

Ali vivem aproximadamente sessenta pessoas, a maioria mulheres e crianças, que compõem a grande família do Cacique Cleto Tsimrimhou Pariõwa. Para minha surpresa e desafio, apenas quatro homens na aldeia eram bilíngües e conseguiam, de fato, estabelecer um diálogo duradouro. Foi com a ajuda deles, que também eram professores na escola, que empreendi a missão de contribuir pela educação escolar do povo Xavante. Eu me sentia muito honrado pelo convite de estar ali, numa missão nobre que é a de educar valorizando os saberes locais e a cultura tradicional.

Figura 3. Vista panorâmica parcial da Daritidzé no caminho de volta do rio, em meio ao campo de cerrado.

Daritidzé
Fonte: Felipe Jacinto, arquivo pessoal, 2015.

A estrada que dá acesso à aldeia é pouco usada por veículos automotivos e, por isso, quase encoberta de vegetação e galhos. Sempre que retornava para lá, a partir do entroncamento, eu me sentia como que adentrando um local mágico e inexplorado, sem nenhum sinal de ocupação humana. Somente ao final de um caminho tortuoso entre matas, roças tradicionais, maciços de palmeiras e campos sujos de cerrado, é que finalmente surgia o pátio da aldeia, rodeado por seis habitações tradicionais recobertas por folhas de babaçu1Designação comum às plantas do gênero Orbignya, da família das palmas., coroando o campo de futebol, localizado bem no centro.

A vida entre os Xavante era simples, muitas vezes árida, repleta de elementos que mesclam a tradição com a tecnologia e diferente do que eu estava acostumado. Mesmo assim, me adaptei muitíssimo bem àquela realidade que se compunha de uma convivência familiar cotidiana. Havia uma admiração e um respeito mútuos que perpassavam as nossas realidades. Ali, viver o hoje era o que garantia, talvez, o amanhã de modo que aproveitar o momento presente foi uma das muitas lições vivendo com os A’uwê.

As estações do ano são muito bem definidas no cerrado com verão quente e chuvoso e inverso seco e repleto de fogo. O calor se faz presente o ano todo, com a diferença de que nos meses de inverno as madrugadas ficam levemente resfriadas por brisas que parecem pairar sobre o pátio da aldeia.

A vida cotidiana e as sociabilidades

Na aldeia fui muito bem acolhido e todos demonstravam muito cuidado para que eu me adaptasse adequadamente às condições muitas vezes rústicas do cerrado selvagem. Fui acolhido na habitação do filho mais velho do cacique e sua família composta da esposa, um garotinho falante de quatro anos e um bebê com menos de um ano de idade que mamava no peito. A casa, tradicionalmente composta de dois grandes cômodos cedeu espaço ao novo habitante waradzu 2Branco, na língua materna xavante. Usam para se referir aos não-indígenas, homens ou mulheres. e foi bem ao lado da cozinha que me instalei com mala e rede, pronto para a minha nova realidade, instigante e desafiadora.

Conforme foram sendo impactados pelo contato com a sociedade não-indígena, o modo de construção da habitação tradicional Xavante foi sofrendo alterações. Ao longo dos tempos, características típicas como os materiais, o formato e, consequentemente, a ocupação sócio espacial no interior da casa sofreram substituições e alterações que hoje são muito evidentes. Dificilmente se encontra uma habitação em formato circular, como eram antigamente, exceto nas aldeias maiores quando da realização de alguma festividade ou ritual onde a mesma seja necessária e atualmente as habitações possuem formato retangular, assemelhando-se a cabanas no estilo sertanejo. As matérias-primas são obtidas diretamente do cerrado, como bambu e madeiras resistentes para as estruturas principais e folhas de palmeiras, principalmente do babaçu, que, ordenadamente trançadas ou pregadas, compõem a cobertura do telhado e o revestimento duplo que forma as paredes. Para assegurar uma boa impermeabilidade ao telhado, o uso da lona plástica foi incorporado à construção sendo um elemento quase imperceptível numa estrutura em boas condições de conservação.

Carinhosamente chamada de ‘ri’re 3‘ri, significa casa na língua materna que acrescida do sufixo para diminutivo ‘re, torna-se carinhosamente ‘casinha’. pelas mulheres e crianças, a atual habitação tradicional possui vida útil de 1 a 2 anos, período em que necessita da substituição dos revestimentos de folhas, que secam e se desfazem com facilidade, e também das madeiras estruturais que acabam sendo alvo de vorazes cupins presentes no cerrado. Elementos industrializados, além da lona plástica e dos pregos, vêm sendo testados na busca por mais conforto, segurança e durabilidade como é o caso das telhas de fibrocimento e portas com fechadura. O uso desses elementos evidencia o crescente contato com a sociedade não-indígena e a obtenção de renda por parte de membros da comunidade que foram inseridos no mercado de trabalho.

Embora eu tivesse sido muito bem recebido e considerado como um dos filhos do Cacique, as crianças pequenas, que nunca haviam visto um não-indígena de perto, e as mulheres eram tímidas e contidas. Esse gelo foi se quebrando aos poucos, e em pouco tempo as crianças se tornaram grandes companheiras de aventuras e brincadeiras pela mata ou no rio. Havia uma barreira linguística, mas isso não impedia que nos aproximássemos e nos conhecêssemos de maneira muito profunda. Com as mulheres eu tinha pouco contato fora do contexto das aulas ou sem que houvesse a intermediação de algum homem, o que é de praxe na sociedade Xavante.

Naquela comunidade, o Cacique possuía duas esposas4Os casamentos acontecem entre membros de clãs diferentes e os homens têm quantas esposas puderem sustentar. Segundo os relatos locais, antigamente um homem tinha até cinco ou seis esposas e atualmente dificilmente tem mais de duas., que eram irmãs, e muitos filhos com cada uma delas. Alguns de seus filhos e filhas mais velhos eram casados e também tinham seus filhos, que compunham um grande núcleo familiar, muito unido e coeso. O clima de união e cooperativismo naquela pequena aldeia Xavante era notório e diferente do que ocorria nas aldeias maiores e mais populosas. Eu já havia notado a fantástica rede de solidariedade existente entre os Xavante, quando estive na aldeia Eteipó’re no ano anterior, e com a minha chegada não foi diferente. Quantas vezes eu recebi enormes peixes recém-pescados, prontos para serem preparados e saboreados ou uma upa 5Mandioca, na língua materna xavante. assada trazida por alguma criança a mando dos pais, receosos de um contato direto. No início os membros da aldeia que não dominavam a língua portuguesa tinham bastante receio de manter contato direto comigo, fazendo isso sempre por intermédio das crianças, que eram mais livres e espontâneas para tal.

O ritmo de vida na aldeia era totalmente distinto do que eu conhecia e vivia na cidade, pois ali não tínhamos energia elétrica ou sinal de celular e o calor do cerrado exauria todas as forças durante o dia de modo que por volta das 19h eu já estava ansiando pela minha rede e o merecido descanso. Passei a dormir e acordar com o sol, muito embora nas noites acontecessem as tradicionais assembleias dos Xavante, conhecidas como warã,  onde eu tentava participar lutando contra o sono e o cansaço para socializar um pouco das minhas experiências previas e atuais, ouvir os relatos ou simplesmente olhar o céu magnificamente estrelado ao som dos grilos, sob a brisa fresca da noite, embalado pela língua materna Xavante a ser aprendida. As noites de lua cheia eram especialmente iluminadas, quase como se fosse dia, permitindo que ficássemos até altas horas reunidos no grande pátio, sentados sob as estrelas, numa harmônica e íntima convivência familiar. As crianças logo adormeciam deitadas em esteiras no chão ou no colo dos pais e a conversa seguia o seu ritmo habitual onde os homens falavam e as mulheres, que especificamente ali tinham mais liberdade no warã, ouviam e se inseriam, divertindo-se com os assuntos tratados.  Ali a vida era simples, rústica e natural. Vivia-se com muito pouco e tudo acabava sendo suficiente com uma cooperação nunca antes vivenciada por mim na sociedade não-indígena.

Numa das inúmeras conversas sentados em círculo sob as estrelas, soube que essa mesma região já havia sido uma antiga aldeia e que resquícios dos antigos encontravam-se espalhados pela área tais como cerâmicas e objetos de rocha polida. Tive a oportunidade de ver muitos desses fragmentos de cerâmica quando visitei a aldeia vizinha no ano anterior e não saberia dizer se pertenceram de fato aos Xavante ou a outros povos indígenas que deslocavam-se pela região séculos atrás haja vista que a arte cerâmica não se encontra presente na cultura tradicional de hoje.

Numa mistura de cultura tradicional com as influências dos waradzu 6Homem branco, na língua materna. ouvia, com bastante frequência, rádios à pilha reproduzindo canções tradicionais dos Xavante intercaladas com trilhas sonoras de filmes. As pilhas gastas acabavam descartadas ao redor das casas e era comum encontrar crianças pequenas, que ainda engatinhavam, chupando pilhas como se fossem brinquedos. A questão dos resíduos sólidos espalhados na aldeia sempre foi um grande desafio e tentava, na medida do possível, abordar essas questões na sala de aula a fim de conscientizá-los dos riscos para a saúde e contaminação do solo e cursos d´água. Feliz ou infelizmente, o fogo anual que toma conta do cerrado, se encarrega de eliminar estes resquícios da sociedade urbano-industrial o que faz com que os Xavante não deem tanta importância ao lixo oriundo da cidade no entorno de suas aldeias.

As crianças crescem fortemente influenciadas pelos pais e pelas atividades que os mesmos desempenham no cotidiano sendo comum encontrar meninos pequenos de três ou quatro anos manejando a enxada na terra ou meninas cuidando dos irmãos de colo. Dessa forma a infância se manifesta livre e fluida, mas com o peso das responsabilidades de uma vida adulta que os espera num futuro próximo.

Nos momentos do banho coletivo ocorriam oportunidades de aproximação e conexão em distintos níveis. Homens e mulheres se banham separadamente, em horário ou locais distintos, enquanto as crianças ficavam livremente nuas divertindo-se entre todos. No início os homens demonstravam muito pudor com a minha presença e alguns, inclusive, banhavam-se vestidos. Ciente de que não gostaria de ser mais uma influência negativa para o modo de vida local sempre fiz questão de ficar nu para o banho assim como sempre fiz em minha casa, no chuveiro. No começo isso pode ter parecido estranho, mas em alguns meses, todos os homens já não se importavam em banharem-se nus na minha presença, como sempre haviam praticado antes da minha chegada.

Certa vez o Cacique me contou que dois de seus pequenos filhos estavam na beira do rio numa complexa conversa acerca do meu tom de pele, indagando-se dos motivos pelos quais eu era branco e não como eles. O Cacique explicava, então, sobre nossas distintas origens e sorria calmo e tranquilo, como sempre foi.

Naquela região onde a grande maioria dos rios é intermitente, os deslocamentos tradicionalmente são realizados por terra. As estradas de terra que cortam a TI Parabubure e interligam suas aldeias e a cidade de Campinápolis são mantidas precariamente pela Prefeitura, a muito custo e insistência dos Caciques que se reúnem periodicamente para reivindicar melhorias.

Com o acesso à renda, o meio de transporte mais comum e desejado, principalmente pelos homens mais jovens, é a motocicleta que proporciona um deslocamento relativamente rápido e barato entre a TI e a cidade. Quando, mensalmente, as mulheres que recebem Bolsa-família e os demais assalariados têm de se deslocar em grupo, é necessário que haja a contratação do que se chama de ‘frete’, um veículo com carroceria aberta, onde muitas pessoas se amontoam para irem à cidade e voltarem carregados de mercadorias. É uma viagem pouco segura, dada a precariedade das estradas e a velocidade com que os motoristas se deslocam a fim de realizar muitos fretes num único dia, mas que proporciona uma incrível beleza cênica. Os fretes acabam por comprometer grande parte do dinheiro recebido pela comunidade, que se juntava para pagar entre R$500,00 e R$800,00 por uma insegura viagem de carga entre a aldeia e a cidade, numa distância de aproximadamente 90 km.

A área habitada da aldeia, cuidadosamente carpida em semicírculo, mantinha o entorno das habitações livres de vegetação e, consequentemente, de animais peçonhentos. Esse cuidado também se justifica pelo alto risco de incêndio nas casas, numa região que parece coabitar e até mesmo aguardar os episódios de fogo: muitas plantas no cerrado necessitam das ardentes chamas para florir ou liberar sementes, reagindo de maneira surpreendentemente rápida aos episódios de incêndios florestais que dizimam a área de tempos em tempos. Na metade do ano o cerrado ainda nem havia secado totalmente, mas já queimava como folha seca. De longe se ouvia as labaredas consumirem a mata e a fumaça dispersava-se nos fortes ventos. Nessa época é comum que as crianças tenham problemas respiratórios devido ao clima seco e a grande quantidade de fumaça que se concentra na atmosfera.

Entre as longas conversas que tinha com o meu companheiro de habitação, que tinha por volta de 25 anos, fiquei sabendo sobre a origem do nome Daritidzé, que significa ‘lugar onde ocorreu o Darini’ que, segundo ele, é uma espécie de festa sagrada que dura ininterruptos dois meses a fim de preparar e despertar futuros curandeiros e agentes que zelem pela saúde de modo tradicional. Ele lamentava que as gerações mais novas soubessem pouco sobre a tradição e as histórias antigas contadas pelos mais velhos.

Em algumas visitas à roça fui convidado a auxiliá-los, mas o sol escaldante do meio dia ou da tarde eram insuportáveis para mim. Achava curioso que escolhessem sempre o período mais quente do dia para estas atividades braçais e, ao mesmo tempo, considerassem errado e contra produtivo tirar cochilos após as refeições. Eu não conseguia abrir mão deles, pois a rede me convidava a uma soneca para prosseguir no dia letivo, quente e seco. Uma importante relação dos Xavante com o ambiente em que vivem diz respeito à palmeira babaçu (norõwede) que fornece matérias-primas para a confecção das habitações e artesanatos (folhas), alimento (castanhas cruas ou cozidas) e medicina e beleza (óleo extraído das castanhas). Essa dinâmica relação, exercida majoritariamente pelas mulheres, envolve distintas faixas etárias desde a coleta dos cocos na mata distante, até o processo de beneficiamento das castanhas em óleo.

Figura 4. As imponentes palmeiras-babaçu em meio à roça de arroz.

palmeiras-babaçu
Fonte: Felipe Jacinto, arquivo pessoal, 2015.

Os finais de semana na aldeia eram tranquilos, geralmente usados para o descanso e a contemplação. Os homens, completamente apaixonados por futebol, gostavam de jogar bola usando muitas roupas num sol do meio dia que era desanimador. Era difícil compreender como eles suportavam usar tantas roupas na temperatura escaldante do cerrado, onde até eu tinha vontade de usar pouca ou quase nenhuma. As mulheres tinham predileção por vestir saias, de comprimento geralmente na metade da canela, e camiseta ou blusas largas e confortáveis e calçavam chinelos de dedo plásticos enquanto os homens usavam shorts, calças, camisas ou camisetas e chinelos de dedo plásticos, tênis ou sapatos sociais, dependendo da ocasião e vontade.

Alimentação e cultura

Na casa onde eu vivia, a família possuía um fogão a gás, de quatro bocas, comprado com o salário do chefe da família, que além de professor era um eficiente agente de saúde. Assim, a tarefa de preparar os alimentos era menos penosa do que nas habitações que necessitavam de lenha diariamente e podíamos até mesmo cozinhar durante a noite sem maiores percalços. Casal jovem e alegre pedia com frequência que eu preparasse os alimentos ‘à moda da cidade’, como o arroz refogado com óleo e alho, bolos e até maionese com legumes. Muitas dessas comidas eram vistas quando passavam pela cidade, mas que, por diversos motivos como a evidente discriminação, nunca poderiam ser degustados.

Habitualmente, o povo Xavante faz poucas refeições ao dia e é frequente que não jantem. Na minha habitação, como dito anteriormente, era diferente. Tomávamos café da manhã, almoço, algum lanche da tarde e quase sempre jantávamos, mesmo que algo simples.  As refeições variavam muito em composição e mesclavam alimentos oriundos da roça e da cidade. No café da manhã, tomávamos café bem ralo com biscoito ou bolo, que o chefe da casa adorava fazer. Aliás, ali essa era uma peculiaridade restrita ao meu lar: o homem cozinhando. No almoço e jantar tínhamos grandes quantidades de arroz, acompanhadas de feijão e algum tipo de proteína animal.

A dieta básica é composta de alguma proteína animal acompanhada de uma quantidade expressiva de carboidratos – somente a família que eu vivia consumia mensalmente mais de 35kg de arroz, que é cultivado nas roças locais e constitui uma herança do que ficou conhecido como Projeto Xavante7Política pública elaborada especificamente para o povo Xavante que consistiu na implantação de roças mecanizadas de rizicultura comercial principalmente durante a década de 70. Com isso ocorreram ajustes no modo de vida Xavante causando, durante a primeira metade da década de 80, “movimentos de cisão internos, culminando em uma grande fragmentação por meio da formação de novas aldeias ao longo dos territórios”, com profundas interferências nos modos de economia tradicional bem como das condições de nutrição e saúde. (Carvalho, 2010). Alguns outros itens oriundos da roça permeavam os preparos, como mandioca, milho, abóbora, feijões, amendoim, cará e castanhas de babaçu. Logo que cheguei à aldeia, as roças tradicionais estavam no auge da colheita e proporcionavam fartura diariamente. Acostumado a uma dieta rica em frutas, verduras e legumes, passei um pouco de privação nesse sentido já que meus amigos Xavante diziam que ‘folha é comida de bicho’ referindo-se às saladas cruas que comíamos na cidade. As frutas são mais comumente consumidas pelas crianças em suas incursões pela mata para saciar a fome e repor as energias.

Os alimentos tradicionais eram bastante consumidos e pude, por várias vezes, presenciar alguns dos interessantes processos de preparo. Um deles foi o do chamado ‘bolo xavante’(tsada’ré) composto de uma massa de milho tradicional pilado, embrulhado em folhas de bananeira e assado sob a terra, entre camadas de cupinzeiro esfarelado que se encarregam de espalhar uniformemente o calor das brasas de uma fogueira que é mantida acesa durante toda a madrugada, atuando como um interessantíssimo forno no seio da terra. Tudo isso é preparado pelas mulheres, envolvendo várias gerações em seus distintos processos de preparo. Assim são assados os bolos tradicionais, além de espigas de milho e abóboras inteiras que são retiradas da terra ao amanhecer e servidas como a primeira refeição do dia. Eu observava tudo com muito interesse e curiosidade e provava absolutamente tudo o que me ofereciam! A única coisa que recusei foi a carne de jabuti (u’hã), pois observá-lo sendo carbonizado ainda vivo numa imensa fogueira foi deveras chocante para mim. Hábeis caçadores, os Xavante tem uma grande predileção por carne de caça no cotidiano o que não era de praxe na aldeia onde eu vivia, já que eles preferiam pescar no riacho próximo a caçar, que exigia longas e cansativas incursões pela mata.

Numa das várias visitas que fiz às roças da aldeia, pude observar de perto a lida com as culturas e ficar admirado com a rica agrobiodiversidade presente ali: plantios associados contendo arroz, amendoim, milho xavante (nodzö), mandioca (upa), abóbora, melancia, cará (mo’õni) e feijão xavante. Tudo ordenadamente preparado e sincronicamente semeado de acordo com a época do ano e os hábitos vegetativos de cada planta: após o milho crescer, produzir e secar, acabava servindo como suporte para que os feijões crescessem vigorosos em busca da luz solar. Por volta do mês de maio, os feijões xavante começam a ser colhidos e eu pude então provar um prato tradicional chamado uhi 8Palavra que significa simplesmente feijão na língua materna., que consiste de uma grande porção de arroz misturada a duas partes de feijão vermelho xavante, cozidos juntos com bastante água e temperados com sal. Uma espécie de risoto de feijão com sabor muito característico e inesquecível que muito me agradou e nutriu por semanas a fio. Infelizmente os feijões acabam rápido e parte das sementes tem de ser acondicionadas em garrafas PET para o plantio na próxima estação já que eram poucas as aldeias que possuíam cultivares de feijão tradicional, informação corroborada por Ribeiro (2015) num levantamento das roças tradicionais da TI Parabubure.

No final do mês de novembro, com o retorno definitivo da estação chuvosa os dias amanheciam repleto de insetos, principalmente formigas e borboletas. Uma grande quantidade de tanajuras9Também conhecidas como içá, são imensas fêmeas aladas de formigas do gênero Atta., ali chamadas de ‘rãtito, irrompiam do solo fazendo a alegria das crianças que se dedicavam por horas a coletá-las. Depois, arrancavam suas asas e as torravam numa grande panela com óleo e sal, transformando-as numa iguaria de sabor amanteigado, agradável e viciante. Não fosse pelas patas, duras e ásperas, que frequentemente sobravam na boca, eu nem me lembraria que estava a comer grandes formigas. Neste dia em que as crianças comiam as formigas torradas com voracidade, o Cacique me observou com simpatia e graça enquanto eu também as degustava. Depois, me contou que os pais costumam comer essa ‘formiga bunduda’ nos últimos meses de gestação do bebê para que a criança nasça com bastante bumbum e que, após o nascimento, eles não podem mais comê-la, pois a criança corre o risco de não crescer e ‘ficar miúda como a formiga’.

Frequentemente as mulheres me perguntavam receitas culinárias e pediam que fizéssemos isso nas aulas, quando então incorporamos esse método para explicar conceitos de matemática, unidades de medida, transformações físico-químicas, entre outros conteúdos pertinentes e elas simplesmente adoravam anotar as receitas, treinar a leitura individualmente em voz alta, colocar a mão na massa – sempre diminuindo drasticamente as quantidades de açúcar ou sal indicadas – e saboreá-las ao final das aulas com muitos risos e comentários sobre o conteúdo aprendido.

A Saúde

Com frequência a equipe de saúde chegava durante as aulas, mobilizando a atenção geral da comunidade, quando então interrompíamos as atividades até que fizessem o que era de praxe. Poucas vezes vi o médico visitando a comunidade. O ‘carro da saúde’, branco, imponente, com seus vidros pretos e ar-condicionado, chegava como um cavalo a galope, sempre apressado em cumprir suas atividades e seguir caminho.

Quase sempre quem visitava a comunidade eram o motorista e duas enfermeiras ou o dentista e um auxiliar. Eu permanecia dentro da escola, geralmente aproveitando o tempo para preparar tarefas nos cadernos dos alunos, enquanto eles faziam suas atividades e atendimentos como se tratassem de um rebanho de gente. O trabalho do dentista era ainda mais chocante já que a sua única função ali era retirar dentes careados que obviamente poderiam ser tratados. Assim, era comum encontrar pessoas com aproximadamente vinte anos de idade e menos de seis dentes na boca, o que comprometia sua qualidade de vida permanentemente.

Na comunidade havia um agente de saúde, que era responsável por realizar a pesagem periódica das crianças pequenas anotando tudo em fichas que eram repassadas aos funcionários uma vez ao mês e também distribuir medicamentos alopáticos para diversas finalidades. A medicina tradicional, composta dentre outras práticas e saberes pelo uso de plantas medicinais pelas matriarcas das famílias, bem como de um interessante ritual de ‘riscar’ a pele para que o ‘sangue sujo que está causando o mal-estar saia através desse procedimento e então purifique o corpo’, nunca foi mencionada ou considerada nas práticas cotidianas das equipes de saúde in loco.

Muita coisa me chocou nessas visitas das equipes de saúde à comunidade em que vivia, e o mais marcante era a maneira distante e quase desrespeitosa com que lidavam com as pessoas. Em alguns poucos meses de convívio eu me esforçava para aprender a língua materna e me comunicar de maneira respeitosa, ao passo que funcionários que trabalhavam há anos na saúde indígena falavam meia dúzia de palavras, quase sempre erradas, ocasião em que eram motivo de aparente chacota das mulheres e crianças.

Numa área carente de saneamento básico (Muria & Ribeiro, 2011), educação e práticas orientadas à saúde em vez da doença, nunca vi a prevenção sendo efetivamente levada a cabo entre o povo Xavante. Práticas simples como ensinar e orientar a lavar as mãos, hábitos corretos de higiene pessoal, escovação dental, preparo e administração de soro caseiro para reidratar crianças que morriam por diarreia e desassistência (CIMI, 2015), nada disso era feito e tentávamos elencar isso nas aulas, na medida do possível, em prol da comunidade.

A água para consumo e cocção é um caso delicado (Silva & Agostini,1995) já que é oriunda dos riachos do entorno da aldeia e frequentemente sofre contaminação por dejetos humanos e de animais de criação como gatos e cachorros, sem contar na concentração de produtos químicos, presentes nos sabões de lavar roupa e louça ao longo de centenas de aldeias que utilizam os mesmos cursos d’água diariamente.

Devido ao contato com a sociedade não-indígena, à sedentarização quando aldeados nas TI que habitam hoje e às mudanças alimentares com a inserção de alimentos açucarados e grandes quantidades de carboidrato, predominantemente arroz e macarrão, o povo Xavante, hoje, apresenta altas taxas de obesidade, hipertensão e diabetes, doenças crônicas que fazem com que os anciões centenários e fortes estejam cada vez mais restritos às histórias do passado.

A Escola e a educação escolar indígena

Na escola da aldeia que, por conta de seu pequeno porte, funcionava como uma sala anexa, estudavam cerca de 45 alunos entre crianças, adolescentes e adultos, em distintas fases de aprendizado. No primeiro dia de aula, as crianças encontravam-se tão ansiosas pela presença do novo professor que acordaram os pais desde as quatro horas da madrugada para saber se já podiam ir para a escola assistir à aula que só começaria de fato às sete. Nesse dia me lembro ter acordado assustado com a algazarra que faziam na escola pensando que havia me atrasado.

Apresentei-me enfatizando que tivéssemos uma boa relação, que não tivessem medo ou vergonha de mim, pois ali estava a convite do Cacique para auxiliar na educação da comunidade e pretendia ser realmente útil nessa função. Contando com a ajuda dos outros professores indígenas, que traduziam cada frase que eu dizia, estabelecemos contato e um bom ritmo de estudos na escola. Pedi que os alunos se apresentassem e contassem seus sonhos. Alguns revelaram o desejo de serem professores, médicos, auxiliares de limpeza da escola, merendeiras, trabalhadores da roça e até mesmo um piloto de avião despontou na turma! Esse momento foi encantador e desafiante ao mesmo tempo em que me inspirou naquela nobre missão com os A’uwê. No mesmo dia, no turno da tarde, foi a vez de conhecer a turma do Ensino Médio e EJA10Educação de Jovens e Adultos, nova designação do ensino supletivo., praticamente composta de mulheres mais o Cacique que se impunha em sala de aula. Na mesma dinâmica que ocorreu com as crianças, me apresentei e pedi para ouvi-las e saber o que esperavam das nossas aulas. O desejo geral era aprender a língua portuguesa para conseguirem se comunicar na cidade de Campinápolis com os não-indígenas. Em seguida vinha a matemática, para melhor compreenderem os valores dos produtos na cidade, bem como as contas relacionadas ao dinheiro que mensalmente recebiam como beneficiárias do Bolsa-família.

Logo de início, não tínhamos os materiais escolares mais básicos para o prosseguimento dos estudos. Como funcionávamos como uma de várias salas anexas pertencentes à mesma escola, os recursos acabavam concentrados na escola-sede por diversos motivos como logística e valores insuficientes ou simplesmente não chegavam. Foi então que, com o consentimento das lideranças da aldeia, lancei nas redes sociais um pedido de doação de materiais escolares diversos para que pudéssemos prosseguir os estudos. Uma foto com os alunos adultos na sala de aula estampou a postagem que em poucas semanas alcançou mais de 500 compartilhamentos, trazendo uma atenção nunca imaginada para a educação na pequena aldeia. Receber esse carinho, mesmo que indireto, de pessoas distantes pertencentes à sociedade com quem frequentemente os Xavante mantinham um relacionamento conturbado no município mais próximo, foi algo único e transformador para a experiência e a relação que passaram a ter comigo e com o ambiente escolar e para uma perspectiva de considerar que as pessoas poderiam ser diferentes das que eles estavam acostumados a lidar cotidianamente em Campinápolis. A necessidade de aprender coisas para a vida cotidiana é muito evidente, uma bagagem prática que prepare os alunos para o mundo fora da aldeia, muitas vezes rude e cruel com quem pertence a outras culturas como é o caso dos Xavante daquela região. Questões historicamente construídas e que, infelizmente, são perpetuadas de maneira que nada ou quase nada muda de geração em geração.

Os ciclos naturais se fazem muito intensos na aldeia, de modo que os insetos tomam conta dos materiais recebidos com uma ânsia inconcebível. Em questão de dois dias um cupinzeiro inteiro conseguia se transferir diretamente da terra para as caixas de doações causando danos irreversíveis em livros e até materiais plásticos, num ciclo permanente de reciclagem de matéria e vida.

Figura 5. Os cupins devoram tudo da noite para o dia.

cupins
Fonte: Felipe Jacinto, arquivo pessoal, 2015.

Logo de início a escola funcionava numa cabana sem paredes que, ao mesmo tempo em que permitia um certo frescor dos ventos do dia, nos expunha à chuva e às tempestades de poeira que assolavam a aldeia comumente. Após alguns episódios de inundação dentro da escola que transformavam o chão de terra em pura lama, empreendi longas conversas com as lideranças pelas melhorias na infraestrutura da escola, pois se a educação era mesmo tão importante para a comunidade, eles não poderiam permitir que a escola continuasse em condições tão precárias. Após algum tempo a comunidade se reuniu a fim de repensar a escola e iniciar melhorias pela sua infraestrutura e funcionamento. A situação de precariedade das escolas de Parabubure é abordada sob a ótica dos próprios indígenas no documento “Estudos Etnográficos sobre o Programa Bolsa Família entre Povos Indígenas, Relatório Final” (Brasil, 2016) atestando uma realidade muito mais ampla do que a vivenciada.

Com o tempo, percebi que muitos dos planos e metas para a educação escolar dos Xavante não seriam possíveis, pois a dinâmica local era completamente distinta de qualquer coisa que eu já tivesse vivido ou imaginado. Os ciclos naturais se integram com as práticas cotidianas indissociavelmente de modo que não havia como seguir um planejamento linear e pré-concebido, mesmo que construído conjuntamente com o corpo docente da escola. O andamento das aulas se deu graças à colaboração dos outros professores indígenas, que eram bilíngues, em traduzir as minhas falas aos alunos e vice-versa, de modo que sempre atuávamos em conjunto.

Muitas vezes adultos e crianças iam à minha habitação fazer companhia e perguntar coisas sobre a minha vida. Conforme fomos recebendo materiais de doação – muitos livros e revistas – o interesse pela leitura e pelo dialogo para aprender o português aumentava. A oportunidade de ter um ‘branco’ conversando despretensiosamente com eles era algo quase inimaginável e, por isso, imperdível. Mesmo assim, não me sentia bajulado pela comunidade e muito menos pelas crianças. Conseguimos estabelecer um laço e uma relação respeitosa sem que ficássemos dependentes de agrados mútuos. Muitas vezes as crianças me cercavam, noutras simplesmente me ignoravam e brincavam como se eu nem existisse.

A merenda oferecida pela escola, curiosamente, tinha de ser adquirida na cidade por conta das Notas Fiscais o que fazia com que fosse composta majoritariamente de itens alimentares pouco ou quase nada saudáveis (Gonçalves, 2012) como suco de frutas em pó, biscoitos industrializados e pão branco. Apesar dos adultos gostarem pouco de açúcar, doces ou muito sal, as crianças parecem ter um paladar diferenciado, preferindo esses itens com muita atenção. Poucas vezes a merenda de fato era oferecida, pois a comunidade tinha por hábito dividir os itens alimentares entre si11Essa prática era realmente muito comum naquela região, pois eu já havia visitado várias outras salas de aula e escolas no ano anterior e a realidade era exatamente a mesma. Segundo Gonçalves (2012), o fluxo de trocas de alimentos e outros bens entre as famílias é grande, o que remete a característica de valorização da prática de reciprocidade atribuída aos Xavante já nas primeiras etnografias publicadas nas décadas de 70 e 80., deixando os alunos sem ter o que comer nos intervalos das aulas.

A rotina de atividades escolares exigia constantemente que eu refizesse conteúdos ou os adaptasse à realidade local, já que os poucos livros didáticos que dispúnhamos eram os mesmos utilizados pelas escolas urbanas de Campinápolis. Apenas algumas poucas matérias específicas como Tecnologia Indígena, Língua Materna e Cultura Tradicional diferenciam o conteúdo curricular da escola da aldeia de outra qualquer. O choque cultural que a instituição “escola” representa dentro de uma comunidade Xavante é bastante evidente, haja vista que as formas de educação e aprendizagem tradicionais se dão na prática e majoritariamente sob a forma oral. Assim, fazer com que a escola surta efeitos benéficos para a comunidade, desejosa de aprender cada dia mais, é um desafio constante que, ao meu ver, acontece de maneira isolada em cada uma das aldeias por onde passei sem que haja uma integração visando o desenvolvimento e a eficiência da educação escolar indígena entre o povo Xavante como um todo.

Ao fim do primeiro semestre letivo, o Cacique fez questão de promover um grande almoço e convocar todos os pais dos alunos – alguns residentes em aldeias vizinhas e que caminhavam por duas horas pela mata todas as manhãs a fim de chegar à escola – para termos um diálogo e nos afinizarmos numa reunião de pais e mestres. Todos compareceram mediante o fornecimento da gasolina para as motos que fazem os habituais transportes dentro da TI e se deliciaram com o almoço, oriundo da verba das merendas, que continha uma grande quantidade de arroz, macarrão, carne de frango e linguiça frita. Em dois anos de existência da sala anexa que existia na aldeia, era a primeira vez que acontecia uma reunião de pais e mestres daquela magnitude, com a participação massiva de todos os envolvidos: lideranças locais, professores, pais, alunos e demais irmãozinhos curiosos em saber sobre o professor de fora. Fiquei feliz de poder conhecer os familiares de cada criança ou jovem com quem convivia diariamente, e sem perceber me vi tomado de forte emoção ao me envolver no drama existencial de cada um. Ali vi rostos de traços fortes, marcados pela vida e pelas escolhas muitas vezes alheias à própria vontade, pelas regras de convivência, pela tradição, pela vida dura e sofrida de quem nasceu indígena e teve a sorte de sobreviver às intempéries do tempo num país que não os enxerga.

A partir das férias de julho, a comunidade empreendeu uma grande transformação: demoliu a cabana onde trabalhávamos diariamente e, reutilizando alguns dos troncos da estrutura, empreendeu a árdua construção de outro prédio tradicional para o funcionamento da escola, desta vez maior, fechado contra as tempestades de chuva e poeira e com um anexo lateral para o acondicionamento das doações de materiais escolares que recebíamos. Sob a supervisão de um membro da comunidade reconhecido como exímio construtor de casas Xavante, todos auxiliavam na tarefa de buscar a muitos quilômetros de distância a quantidade necessária de folhas de babaçu para recobrir as paredes e o teto. Utilizando-se de uma verba anual direcionada às melhorias na escola, que era pouca, mas suficiente para a finalidade, compraram pregos e a lona para o telhado. As aulas continuaram concomitantemente a construção do prédio e após alguns meses a nova escola estava inaugurada.

Nas atividades escolares cotidianas sempre busquei trabalhar questões referentes à autonomia e empoderamento, pessoais e coletivos, debatendo diversos temas da atualidade e fazendo com que refletissem sobre os conteúdos abordados, mesmo que a custo de não serem alfabetizados como eu gostaria que acontecesse naturalmente. As dinâmicas, os ritmos e as necessidades eram outras. Por algumas vezes tive impactantes diálogos com os colegas professores, que se diziam menosprezados em suas funções e tinham vergonha de demonstrar o pouco que haviam aprendido na escola sobre a sociedade não-indígena. A formação contínua dos docentes era muito questionável, já que em alguns dos cursos de Magistério ou Pedagogia fornecidos pelas Secretarias de Educação a grande maioria dos conteúdos não era adequadamente compreendida e refletida pelos participantes. Tratava-se de uma mera formalidade prevista nas políticas públicas educacionais direcionadas aos povos indígenas que não funcionaria da maneira generalizada como estava acontecendo. Uma questão muito levantada tanto por docentes quanto pela prática diária é a carência de materiais didáticos desenvolvidos em língua materna, atuais e oriundos das mentes dos próprios Xavante já que os poucos que existem hoje foram sistematizados e escritos12São exemplos dessas obras: “Cartilha para uso dos Xavantes das margens do rio das Mortes”, de autoria de Bartolomeu Giaccaria, Instituto Teológico, 1959 e “A gramatica: Estudos Sistemáticos e Comparativos de Gramática Xavante” de autoria de Georg Lachnitt, edição experimental produzida pela Missão Salesiana de Mato Grosso, em 1988. pelos padres salesianos que os catequizaram nas ultimas décadas. Algumas lideranças, inclusive, rechaçam essa produção em língua materna alegando que são ‘fruto da mão do branco’.

A relação com os waradzu

Uma vez por mês íamos à Campinápolis a fim de receber nossos salários ou benefícios sociais e adquirir alguns itens alimentares que complementariam a dieta pelo restante do tempo. Toda vez que saía da aldeia e me dirigia à cidade percebia o abismo cultural que havia entre as duas realidades. A minha percepção pessoal permite dizer que o preconceito que os Xavante sofrem da sociedade não-indígena local acaba agindo, indiretamente, como um elemento que reforça a união interna e a manutenção de grupos e comunidades que, num outro contexto, facilmente se espalhariam pelas periferias da cidade. Evidentemente nem todos os cidadãos de Campinápolis são preconceituosos e intolerantes, mas, em geral era isso o que prevalecia. Rezende (2009) trata dessa evidente ‘fronteira’ local existente entre ambas as sociedades, indígena e não-indígena, a questão dos conflitos, da subjugação do outro e da alteridade quando analisa o universo escolar e a presença dos estudantes Xavante em Campinápolis.

Muitas das demandas levantadas nas atividades escolares refletem diretamente a relação entre os Xavante e os habitantes de Campinápolis, ficando muito evidente que anseiam, por meio da educação, atingir patamares mais igualitários nessa inevitável relação humana. Ficava muito claro que a grande maioria dos não-indígenas que trabalhavam com o povo Xavante daquela região, adentravam seu território com visão e bagagem extremamente etnocêntricas, muitas vezes impondo crenças e valores que destoavam do que a comunidade praticava e valorizava. Nesses âmbitos, se enquadram ações referentes à saúde pública, assistência indigenista, educação, religião, entre outros.

Nos dias de pagamento, a cidade de Campinápolis fica lotada de Xavantes que vão das aldeias para receber seus ordenados e benefícios sociais e gastá-los nos comércios locais, ficando nítido que grande parte da economia local gira em torno do acesso à renda pelos Xavante (Brasil, 2016; Carvalho, 2010) já que todo o dinheiro acaba gasto ali em produtos de qualidade duvidosa e preços exorbitantes. Mesmo assim, a relação é conflituosa e existem locais onde não podem sequer pisar na calçada ou entrar para consumir algo mesmo que munidos de dinheiro.

Com relação ao impacto que a minha permanência na comunidade teve, há distintas óticas e percepções. Internamente, com relação ao povo Xavante com quem convivi, percebi que conseguimos estabelecer relações muito diretas e sinceras nos objetivos e metas que tínhamos uns para os outros. Externamente, conforme ia vivendo e enviando notícias a familiares e amigos a respeito da relação respeitosa e amigável que vinha construindo com aquela pequena comunidade e com o povo Xavante daquela região como um todo, percebi que proporcionei distintos processos de ressignificação, direta ou indiretamente relatados a mim, nas pessoas que acompanhavam a minha vivência na aldeia.

Era muito claro que com o tempo, entre os meus amigos (pessoais e virtuais) e a minha família, a imagem do indígena ‘selvagem e perigoso’, arredio e avesso ao contato amistoso com ‘o branco’ foi se dissipando e sendo substituída por novos olhares, que mesclavam admiração, curiosidade, respeito ou o simples desconhecimento despido de preconceitos, oriundos de uma relação pré-estabelecida por projetos sócio educacionais que infelizmente nos mantinham, não-indígenas e indígenas, isolados ao longo do tempo.

Considerações finais

Hoje percebo que a minha trajetória prévia com os povos indígenas de certa forma me preparou para que eu não tivesse uma visão ou postura puramente etnocêntricas, como observei em diversos não-indígenas que se dispunham a trabalhar com os Xavante. É bastante evidente que em menos de oitenta anos de contato com a sociedade nacional, o povo Xavante sofreu um impacto, de diversas frentes, muito significativo em suas existências. No entanto, a cultura e a tradição continuam vívidas e vibrantes, tomando outros aspectos e acompanhando o desenrolar dos tempos em que passaram a conviver indissociavelmente com aspectos positivos e negativos da cultura do não-indígena.

Dentro da escola, instituição oriunda da sociedade não-indígena e, de certa forma, imposta aos indígenas como uma garantia de aquisição de direitos e igualdade, as lógicas internas e externas se chocam constantemente. Daí percebe-se que, por exemplo, o princípio da reciprocidade tão característico dessas sociedades tradicionais, não é completamente assimilado e compreendido pelos mecanismos de gestão da educação escolar indígena controlados, prioritariamente, por não-indígenas que pouco ou quase nenhum contato mantém com as atividades desenvolvidas in loco.

Dessa forma, muitas comunidades por onde passei desde 2014, quando visitei os Xavante pela primeira vez, acabam vendo a escola como uma ‘instituição do branco’ de onde podem conseguir recursos tais como renda, mobiliário, alimentos e até a atenção do Poder Público. A grande maioria delas funciona em situação precária de infraestrutura, formação de docentes e atenção com relação às práticas didáticas, específicas de cada povo, de cada etnia, além de carecerem de livros, material escolar e alimentação adequados.

Este processo não é muito distinto da relação estabelecida ao longo dos tempos com os órgãos indigenistas, que parecem propagar as ações assistencialistas em vez de propor e iniciar ações, mesmo que para médio e longo prazo, que proporcionem definitivamente a autonomia e o empoderamento das comunidades e dos povos indígenas no nosso país. Analisando a relação local entre as sociedades indígena e não-indígena em seus mais distintos aspectos, não tenho certeza se realmente existe disposição e interesse para que essa situação de igualdade aconteça. Infelizmente.

Apesar dos avanços com relação à convivência com a diversidade sociocultural e melhores esforços em compreender essas dinâmicas, bem como a conquista legal de instrumentos que garantem direitos e serviços básicos como saúde e educação, por exemplo, a dominação e a subjugação do nativo, presente nos capítulos do “descobrimento do Brasil” há mais de 500 anos, ainda persiste sob outras formas e nuances.

Após recordar e reescrever tantos momentos-chave que compõem a minha experiência juntamente ao povo A’uwê Uptabi da Aldeia Daritidzé torna-se muito evidente que conviver com a diversidade exige postura e atenção para que, constantemente, possamos nos reinventar e conhecer o novo despidos de pré-conceitos herdados, aprendidos e perpetuados de geração em geração. Percebe-se que são linguagens diferentes, de etnias diferentes, de povos diferentes que vão criar meios sobre o caminho que leva a uma percepção mais clara da realidade e isso nos torna mais hábeis de sermos um pouco melhores a serviço da humanidade.

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Silva, J. P.; Agostini S. M. (1995). Parasitoses intestinais nos índios Xavánte de Parabubure, Mato Grosso, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 11, n. 4, p. 630.

Tsi’Rui’a, A. T. (2012). A Sociedade Xavante e a Educação: um olhar sobre a escola a partir da pedagogia Xavante. 258 f. (Dissertação de Mestrado em Educação). Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande/MS, Brasil.

Notas   [ + ]

1.Designação comum às plantas do gênero Orbignya, da família das palmas.
2.Branco, na língua materna xavante. Usam para se referir aos não-indígenas, homens ou mulheres.
3.‘ri, significa casa na língua materna que acrescida do sufixo para diminutivo ‘re, torna-se carinhosamente ‘casinha’.
4.Os casamentos acontecem entre membros de clãs diferentes e os homens têm quantas esposas puderem sustentar. Segundo os relatos locais, antigamente um homem tinha até cinco ou seis esposas e atualmente dificilmente tem mais de duas.
5.Mandioca, na língua materna xavante.
6.Homem branco, na língua materna.
7.Política pública elaborada especificamente para o povo Xavante que consistiu na implantação de roças mecanizadas de rizicultura comercial principalmente durante a década de 70. Com isso ocorreram ajustes no modo de vida Xavante causando, durante a primeira metade da década de 80, “movimentos de cisão internos, culminando em uma grande fragmentação por meio da formação de novas aldeias ao longo dos territórios”, com profundas interferências nos modos de economia tradicional bem como das condições de nutrição e saúde.
8.Palavra que significa simplesmente feijão na língua materna.
9.Também conhecidas como içá, são imensas fêmeas aladas de formigas do gênero Atta.
10.Educação de Jovens e Adultos, nova designação do ensino supletivo.
11.Essa prática era realmente muito comum naquela região, pois eu já havia visitado várias outras salas de aula e escolas no ano anterior e a realidade era exatamente a mesma. Segundo Gonçalves (2012), o fluxo de trocas de alimentos e outros bens entre as famílias é grande, o que remete a característica de valorização da prática de reciprocidade atribuída aos Xavante já nas primeiras etnografias publicadas nas décadas de 70 e 80.
12.São exemplos dessas obras: “Cartilha para uso dos Xavantes das margens do rio das Mortes”, de autoria de Bartolomeu Giaccaria, Instituto Teológico, 1959 e “A gramatica: Estudos Sistemáticos e Comparativos de Gramática Xavante” de autoria de Georg Lachnitt, edição experimental produzida pela Missão Salesiana de Mato Grosso, em 1988.

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