Por uma visão não míope das relações Sul-Sul em tempos de ‘internacionalização da educação superior’

As interações entre o Sul seguem como importante ‘objeto’ de estudo para o rastreamento de práticas desvinculadas da racionalidade moderna/colonial dominante, mas é preciso ser realista: considerar a natureza politica, os interesses e as assimetrias de poder presentes nas relações internacionais.

relações Sul-Sul
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A ideia de cooperação Sul-Sul (CSS) ganha relevância a partir um cenário de descontentamento com as assimetrias existentes na arena internacional; de questionamento sobre a efetividade do modelo ocidental de desenvolvimento e de crítica ao viés assistencialista comumente observado nos vínculos entre o ‘Norte’ e o ‘Sul Global’1O conceito de ‘Sul Global’ ou ‘Sul’ desvincula-se de seu caráter geográfico. Na maior parte das interpretações, diz respeito ao “agrupamento que reúne os chamados ‘países em desenvolvimento’ (países de renda média e países de renda baixa)” (Leite, 2012, p. 4): uma grande quantidade de países da África, da Ásia e das américas Central e Latina – cerca de 160 de um total de 195 Estados reconhecidamente independentes – que enfrentam desafios significativos em termos de economia e de desenvolvimento (Robertson & Komljenovic, 2016). Como Chisholm (2009, p. 3, tradução nossa) observa, “as noções de Norte e Sul tornaram-se uma metáfora para ricos e pobres, desenvolvidos e subdesenvolvidos, Primeiro e Terceiro mundos, doadores e receptores de ajuda internacional”. Trata-se de um conceito relacional, “que invariavelmente se refere a uma relação de desigualdade” já que o nível de desenvolvimento é contrastado com partes do mundo que constituem o “Norte-Global” (Chisholm, 2009, p. 3, tradução nossa; Robertson & Komljenovic, 2016). Também em termos relacionais, o reconhecimento da desigualdade e da diversidade dentro e entre as nações “sugere que todo Estado do Sul pode ter o seu próprio Norte e Sul, que o Leste pode existir dentro do Oeste e que o Sul pode existir dentro do Norte” (Chisholm, 2009, p. 4, tradução nossa). Podemos, portanto, apontar para a existência de um Sul Global dentro do Norte Global, ou seja, as comunidades dos países centrais cujas circunstâncias econômica, cultural, política e tecnológica são precárias se comparadas ao restante da população. Integram esse grupo aqueles que vivem dentro ou abaixo da linha de pobreza, os requerentes de asilo com acesso limitado ao bem-estar social e os grupos étnicos marginalizados. É possível, ainda, enxergar um Norte Global dentro do Sul Global: neste caso, as elites políticas e econômicas evidenciadas em coalizões dominantes de países como a África do Sul e o Brasil (Robertson & Komljenovic, 2016). Relativamente à adoção dos termos “Sul Global” e “Norte Global”, compartilhamos do entendimento de Stein (2017, p. 6, tradução nossa) de que “qualquer análise que empregue esses termos deve atender à sua complexidade interna e às mudanças de configurações de poder local e global, inclusive no contexto da educação superior. No entanto, apesar de suas limitações, esses termos servem para fazer referências às relações desiguais em andamento que precisam ser nomeadas, para que não continuem a ser compreendidas como naturais ou inevitáveis”. Para Sousa Santos e Meneses (2010, p. 19), o Sul é “concebido metaforicamente como um campo de desafios epistêmicos, que procuram reparar os danos e impactos historicamente causados pelo capitalismo na sua relação colonial com o mundo”. Sousa Santos (2018), em interpretação mais recente, faz referência ao Sul a partir de uma concepção epistemológica: como metáfora para designar os conhecimentos construídos nas lutas dos sujeitos oprimidos e excluídos contra as injustiças causadas pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado. . Muito do argumento político que subsidia essa ‘modalidade’ de interação internacional se ampara no pressuposto de que o Sul pode e deve cooperar entre si para resolver seus problemas políticos, econômicos e sociais. Nesse sentido, a reciprocidade e a horizontalidade são inerentes à construção do conceito, que, em nível discursivo, tende a ser referenciado como uma relação baseada em benefícios mútuos, ausente de condicionalidades ou dependências.

Todavia, ao situarmos o interesse nacional e o poder no centro da análise das relações internacionais, incidimos luz sobre a natureza política da CSS. Com isso, podemos associá-la a uma diversidade de significados para as dinâmicas entre países periféricos e semiperiféricos. Assim, apesar do sentimento de que a CSS possa representar um caminho para que as relações internacionais se desenvolvam em condições mais igualitárias, é pouco realista conceber que ela seja despolitizada ou que não inclua recompensas materiais ou imateriais, diretas ou indiretas. Além disso, classificar como cooperativa qualquer relação de trocas é uma questão empírica, que requer ir além das promessas e dos discursos enfatizados a seu respeito.

Os padrões históricos da Política Externa Brasileira e da CSS na educação superior

A política externa brasileira foi historicamente construída a partir de um empreendimento dominante: o desenvolvimento econômico nacional, por meio da preservação e da expansão da autonomia do país, embora em certos momentos tal empreendimento tenha se traduzido em alinhamento, automático ou pragmático, com determinada potência. Os laços com o Sul foram estreitados nos momentos em que tal aproximação se apresentou como favorável a tal empreendimento, segundo uma conjunção dinâmica dos interesses e percepções de seus representantes.

No campo da educação superior, as relações internacionais historicamente fomentadas pelo governo federal também estiveram majoritariamente subordinadas às prioridades e aos interesses do Estado-nação, constituindo-se, em última instância, como um instrumento para fins de inserção do país no mercado mundial capitalista. Programas de CSS – a exemplo do Programa Estudante-Convênio de Graduação (PEC-G), o mais antigo e tradicional – não necessariamente se constituem como relações verdadeiramente cooperativas ou desvinculam-se inteiramente de um padrão de poder moderno/colonial, tendo em vista o desenho, as características e as práticas que apresentam.

Em alinhamento com os padrões historicamente observados e dadas as evidências de que no Brasil o prestígio da Universidade tem se configurado como a principal motivação para ‘internacionalizar’ (Leal, 2020), discursos e práticas institucionais de ‘internacionalização’ sobre as relações Sul-Sul (incluindo regionais) correm o risco de encontrar-se igualmente imersos em um padrão de poder hierárquico, reforçando o vínculo entre ‘internacionalização’ e diferenciação/estratificação.

Narrativas dominantes de CSS no domínio da ‘internacionalização da educação superior’

A despeito das promessas associadas à ‘internacionalização da educação superior’, esse processo segue imerso em um paradigma econômico altamente competitivo, que potencialmente reforça geografias/demografias desiguais de poder, de saber e ser.

educação superiorDiscursos sobre a CSS no domínio específico da ‘internacionalização da educação superior’ ganham notoriedade diante de um reconhecimento geral de que vínculos entre parceiros (sistemas nacionais, instituições universitárias, pesquisadores etc.) desigualmente posicionados no sistema econômico mundial tendem a exacerbar assimetrias por meio de processos que fortalecem os já fortes e enfraquecem os já fracos. Nesse sentido, tais discursos tendem a associar CSS à presença de princípios como equidade, autonomia, solidariedade e participação mútua.

Ao estudar as narrativas institucionais de ‘internacionalização’ no contexto de uma universidade pública federal brasileira (Leal 2020), observamos que as referências à CSS caminham em duas direções, sendo que nenhuma delas parece transcender a matriz hegemônica/colonial em que o fenômeno se insere.

Por um lado, relações Sul-Sul são concebidas como algo ‘a parte’ da ‘verdadeira internacionalização’, uma vez que não alimentam o imaginário moderno/colonial dominante de ser ‘internacionalizado’, de integrar-se ao ‘círculo de excelência’; de transformar-se em ‘universidade de classe mundial’ etc. Uma série de narrativas presentes em entrevistas e documentos corrobora com a ideia de CSS como algo acessório à ‘internacionalização’ (“inclusive as relações Sul-Sul”; “as do Sul também”; “Nós decidimos incluir” etc.). Inclusão, segundo tal perspectiva, é uma via de mão única, codificada em relações de poder que determinam quem tem o poder de incluir. À medida que CSS, nesse contexto específico, não representa ruptura com o paradigma dominante, a noção hierárquica de progresso/desenvolvimento permanece como razão para o estabelecimento de tais relações. Na mesma linha, justificativas para a participação em programas/projetos de CSS são recorrentemente expostas de forma genérica/abstrata.

Por outro lado, os discursos analisados concebem CSS como meio para obter liderança e visibilidade/reputação/prestígio internacionais, em conformidade com o padrão mais amplo observado em nível nacional e na política institucional de ‘internacionalização’ em curso na Universidade. A percepção de CSS como uma oportunidade para construir status e expandir capital social e poder de influência faz com que os discursos a seu respeito enfatizem a necessidade de que tais relações sejam exploradas de forma mais ‘sistemática’ e ‘institucional’. Em outros termos, que haja uma condução estratégica, de cima para baixo, acerca da atuação da Universidade em tais contextos.

“Aqui a [rede de universidades públicas da América Latina] é muito bem-sucedida. O que eu digo é que ela podia ser mais explorada […] De nós mostrarmos aquilo que a gente tem de melhor e dessa forma conduzir e ter um poder maior de influência, e nós não usamos isso, nós não fazemos isso”.

Assimilação de sua posição de liderança acadêmica no eixo Sul-Sul através, por exemplo, de uma participação mais ativa em associações como [exemplos de associações do Sul Global](Plano Institucional de Internacionalização)

“[…] um outro fator que eu acho interessante, é que você começa a perceber a inserção da [Universidade] dentro desse cenário latino-americano. Então eu fico pensando, como é que eu não vou apoiar uma iniciativa dessa? Eu tenho a obrigação de apoiar uma iniciativa dessa, porque mostra claramente que nós poderemos, nós podemos ser se nós quisermos, eu estou falando da [Universidade], líderes dentro do contexto acadêmico latino-americano, sul-americano. A gente só não faz isso, porque a gente não quer. Porque as pessoas não despertaram ainda. […] isso é uma questão de começar a pôr em prática essas ideias e explorar um pouco mais a [rede] […] Então eu acho que dentro da universidade, a [rede] ela é pouco explorada”.

“[…] Área tecnológica eles não trabalham muito com a [rede de universidades públicas da América Latina], o que eu acho um erro, porque eles poderiam estar trabalhando e poderiam estar focalizando nessa ideia de liderança num contexto regional

“Então a ideia realmente com a [rede de universidades públicas da América Latina] é manter essas relações, explorar a [rede] de uma maneira mais sistemática e de uma maneira mais institucional.

O ambiente altamente pluralístico e institucionalizado da educação superior, associado às nuances da colonialidade, induz a `cooperação Sul-Sul` a materializar-se de forma complexa, repleta de coexistências, latências conflitivas e hibridismos. As interações entre o Sul seguem como importante `objeto` de estudo para o rastreamento de práticas desvinculadas da racionalidade moderna/colonial dominante da `internacionalização da educação superior`, mas é preciso ser realista: considerar a natureza politica, os interesses e as assimetrias de poder presentes nas relações internacionais. Sobretudo, é necessário desvincular-se das narrativas parciais de `progresso, felicidade e salvação` que caracterizam a modernidade/colonialidade, e, com isso – como diria Fanon – vislumbrar uma agenda de total desordem.

Referências

Leal, F. (2020). As bases epistemológicas da concepção dominante de ‘internacionalização da educação superior’ no Brasil. Tese (Doutorado em Administração). Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina.

Notas

1.O conceito de ‘Sul Global’ ou ‘Sul’ desvincula-se de seu caráter geográfico. Na maior parte das interpretações, diz respeito ao “agrupamento que reúne os chamados ‘países em desenvolvimento’ (países de renda média e países de renda baixa)” (Leite, 2012, p. 4): uma grande quantidade de países da África, da Ásia e das américas Central e Latina – cerca de 160 de um total de 195 Estados reconhecidamente independentes – que enfrentam desafios significativos em termos de economia e de desenvolvimento (Robertson & Komljenovic, 2016). Como Chisholm (2009, p. 3, tradução nossa) observa, “as noções de Norte e Sul tornaram-se uma metáfora para ricos e pobres, desenvolvidos e subdesenvolvidos, Primeiro e Terceiro mundos, doadores e receptores de ajuda internacional”. Trata-se de um conceito relacional, “que invariavelmente se refere a uma relação de desigualdade” já que o nível de desenvolvimento é contrastado com partes do mundo que constituem o “Norte-Global” (Chisholm, 2009, p. 3, tradução nossa; Robertson & Komljenovic, 2016). Também em termos relacionais, o reconhecimento da desigualdade e da diversidade dentro e entre as nações “sugere que todo Estado do Sul pode ter o seu próprio Norte e Sul, que o Leste pode existir dentro do Oeste e que o Sul pode existir dentro do Norte” (Chisholm, 2009, p. 4, tradução nossa). Podemos, portanto, apontar para a existência de um Sul Global dentro do Norte Global, ou seja, as comunidades dos países centrais cujas circunstâncias econômica, cultural, política e tecnológica são precárias se comparadas ao restante da população. Integram esse grupo aqueles que vivem dentro ou abaixo da linha de pobreza, os requerentes de asilo com acesso limitado ao bem-estar social e os grupos étnicos marginalizados. É possível, ainda, enxergar um Norte Global dentro do Sul Global: neste caso, as elites políticas e econômicas evidenciadas em coalizões dominantes de países como a África do Sul e o Brasil (Robertson & Komljenovic, 2016). Relativamente à adoção dos termos “Sul Global” e “Norte Global”, compartilhamos do entendimento de Stein (2017, p. 6, tradução nossa) de que “qualquer análise que empregue esses termos deve atender à sua complexidade interna e às mudanças de configurações de poder local e global, inclusive no contexto da educação superior. No entanto, apesar de suas limitações, esses termos servem para fazer referências às relações desiguais em andamento que precisam ser nomeadas, para que não continuem a ser compreendidas como naturais ou inevitáveis”. Para Sousa Santos e Meneses (2010, p. 19), o Sul é “concebido metaforicamente como um campo de desafios epistêmicos, que procuram reparar os danos e impactos historicamente causados pelo capitalismo na sua relação colonial com o mundo”. Sousa Santos (2018), em interpretação mais recente, faz referência ao Sul a partir de uma concepção epistemológica: como metáfora para designar os conhecimentos construídos nas lutas dos sujeitos oprimidos e excluídos contra as injustiças causadas pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado.
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É doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil, foi pesquisadora visitante do Center for International Higher Education (CIHE), Boston College, Estados Unidos, de 2018 a 2020, e é secretária-executiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil.

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

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