Pintura pra alma

Revivi em outras proporções a tragédia do índio pataxó Galdino, queimado vivo enquanto dormia nas ruas de Brasília no ano de 1997, há quase 20 anos, e finalmente pude compreender o motivo pelo qual os jovens nos evitavam.

Pintura pra Alma
Pintura pra Alma

Por quatro anos, fui membro de uma equipe que trabalha aspectos de resgate e intercâmbio cultural em duas Terras Indígenas de composição multiétnica do noroeste paulista, Icatú e Vanuíre. Em meio a esses sobreviventes da ocupação daquelas prósperas terras e da ganância do ‘homem branco’, fui introduzido no campo da etnobiologia e compartilhei de momentos únicos, mágicos e de imensa sabedoria ancestral trazidos no sangue de cada um. Certa vez, numa visita à Terra Indígena Vanuíre, tive a oportunidade de me aproximar dos mais jovens de modo atípico: não era no futebol, nem nas festinhas que curtiam a noite, mas numa atenta e especial sessão de pintura corporal feita com tinta de jenipapo, palitos de madeira, atenção e muito talento.

Pintura pra Alma
Foto: Sharlene Melanie

De todos os habitantes de lá com quem tive contato, os jovens eram mais arredios e dificilmente falavam conosco. Assim, me interessei por aquele momento em que alguns dos garotos se ofereceram para pintar nossos braços e pernas enquanto tentávamos estabelecer algum tipo de conversa para estreitar os laços e conhecer um pouco da vida de cada um. Eu sabia que para darem continuidade aos estudos, após terminarem o ensino fundamental, os alunos obrigatoriamente tinham de se deslocar até a cidade mais próxima diariamente para obterem o ensino médio completo, e pensava que, talvez, a nossa similaridade com os jovens urbanos os assustasse um pouco.

Pintura pra Alma - 2
Foto: Sharlene Melanie

Enquanto estava sendo pintado, consegui estabelecer um diálogo com o parente que me pintava, embora ele nunca me olhasse nos olhos. Ali, num momento de extrema atenção e ligação mútuas, fui atingido violentamente ao descobrir que para irem à cidade, os garotos da aldeia tinham de andar ‘em bando’, como eles diziam, pois do contrário, corriam o risco de serem espancados sem nenhum motivo, pelo simples fato de estarem desacompanhados e serem índios. Voltei daquela visita pintado de jenipapo e impregnado com aquela história em minha memória. Revivi em outras proporções a tragédia do índio pataxó Galdino, queimado vivo enquanto dormia nas ruas de Brasília no ano de 1997, há quase 20 anos, e finalmente pude compreender o motivo pelo qual os jovens nos evitavam. Surpreendeu-me o relato daquela crueldade carregado de ressentimento, de desigualdade, de dor e preconceito em pleno século 21, no estado que se gaba por ser o mais rico e desenvolvido do país. Confesso que senti vergonha por ser da parte ‘branca’ da história, mas isso também me aproximou do que estava fazendo ali e me inspirou a viver a realidade dos povos indígenas, a vê-los de outra forma e a buscar, de alguma maneira, diminuir esse abismo que parece persistir entre nós, seres humanos. O tempo passou, o jenipapo se dissipou dos meus poros, mas aquele momento e a lição que obtive dele, permanecem no meu íntimo, no meu caráter e na estrada da minha vida de modo indelével.

 

* Publicado em “Quando pensa que não…”: contos, causos e crônicas em etnoecologia. Organizadores: Francisco José Bezerra Souto…[et al.], vol. 2, Feira de Santana: Z Arte Editora, 2016. 293p.

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Pintura pra alma 1
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Etnobiólogo.

Especialista em Antropologia e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará.

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