Pedro Henríquez Ureña: do sepulcro à exumação

Uma de suas reflexões mais importantes, na esteira de certo arielismo latino-americano, se orienta pela contundente crítica às sociedades europeias no contexto após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Pedro Henríquez Ureña: do sepulcro à exumação
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Pedro Henríquez Ureña

Pedro Henríquez Ureña nasceu em Santo Domingo, na República Dominicana, em 1884. Importante filólogo, filósofo, ensaísta, escritor e crítico literário, é autor de obras como Horas de estudio (1910), Nacimiento de Dionisios (1916), En la orilla: mi España (1922) e La utopía de América (1925), dentre outras. Circulou entre México, Cuba, Estados Unidos da América e Argentina, local onde faleceu em 1946. Viveu quase sempre sob o signo do exílio, do desenraizamento nacional e do deslocamento espacial. A despeito dos prejuízos à vida, foi esta condição de viajante que o possibilitou construir um olhar pautado em pontos de observação móveis, não reificados e não cristalizados, capazes de enxergar a cultura latino-americana a partir de uma ampla variedade de prismas e perspectivas.

Em geral, a região do Caribe recebeu tratamento rarefeito nos estudos de humanidades. Especificamente no caso da República Dominicana, isso se agrava ainda mais no âmbito dos estudos acadêmicos brasileiros. Se levarmos em consideração os campos preocupados com a produção de pensamento ou ideias, por exemplo, este país, situado no antigo arquipélago das Antilhas, tem sido relegado à segundo plano, merecendo pouquíssimo tratamento dos espaços especializados da universidade. Ainda mais estarrecedor é perceber que de lá saíram intelectuais do porte de Ureña, figura que hoje encontra-se soterrada em escombros intelectuais europeus que aqui se estabeleceram ao longo do século XX.

Nesse sentido, parece curioso perceber como, por outro lado, matizes teóricos e perspectivas filosóficas velho-mundistas (existencialismo francês, romantismo alemão, iluminismo inglês, new criticism estadunidense, dentre outros) – por si só formulações imbuídas de um espírito que tenho chamado de “epicêntrico” – tenham recebido tratamento pomposo e virulento dos diversos punhais historiográficos das últimas décadas. Salvo engano, esse era o de Roberto Schwarz no seu impactante Nacional por subtração, ensaio de 1986, em que falava da recepção que a crítica literária brasileira fazia destas vogas velho-mundistas como um gosto pela novidade terminológica e doutrinaria, ao passo que as tradições locais eram cada vez mais soterradas, tidas como meros “pensamentos” assistemáticos, incapazes de dar conta da realidade concreta do mundo.

Se a ideia deste espaço é, conforme Josefina Ludmer, pensar “desde aqui, América Latina”, a história intelectual, por exemplo, pode servir de suporte à análise. Em seu esforço de perceber como artefatos intelectuais são produzidos no mundo social a partir de uma ampla trama que tem a ver com questões estéticas, linguísticas, políticas e materiais, cruzadas e inter-relacionadas a partir processos de transculturação, apropriação e rejeição, esta disciplina tem servido de suporte ao estudo de discursos, obras e autores esquecidos.

Voltemos ao dominicano. Sua vida intelectual se construiu em espaços diversos e de maneiras distintas: atuou como crítico literário em jornais, periódicos e revistas, como a argentina Sur, fundada em 1931 pela escritora Victoria Ocampo; enquanto funcionário público, participou de órgãos governamentais, a exemplo do convite que recebeu de José Vasconcelos para atuar na Secretaria de Educação do México entre 1921 e 1924; como professor, lecionou na Universidade de Minnesota (EUA) entre 1916 e 1921, além de ter se vinculado, a partir de 1925, ao Colégio Nacional de La Plata e ao Instituto de Filologia de la Universidad de Buenos Aires, ambos na Argentina. Nas palavras de Borges, tratava-se de alguém que teria “leído todo, todo”.

Pedro Henríquez Ureña
Selo dos correios cubanos da série “história latino-americana” com o rosto de Pedro Henríquez Ureña. Ano: 1989

Uma de suas reflexões mais importantes, na esteira de certo arielismo latino-americano, se orienta pela contundente crítica às sociedades europeias no contexto após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A tópica do “eclipse da Europa”, isto é, do declínio das “civilizações-fonte”, marcadamente epicêntricas, colocava à unidade latino-americana uma oportunidade e uma obrigação. Desprendidos da tutela velho-mundista, dever-se-ia agora aprender a pensar autonomamente, a desenvolver um sistema de valores próprios que fosse capaz de dar conta de uma situação tida, até então, como periférica, com dilemas tarefas singulares. Em outros termos, tratava-se de expressar-se no mundo a partir de recursos elaborados na nossa própria realidade. A formulação disso, que se encontra em Utopía de América (1925), indicava desde já uma postura teórica de abertura de horizontes diante da constatação do potencial contido na condição pós-colonial do continente.

É em Seis ensayos en busca de nuestra expresión (1928) que ele elabora melhor as saídas para este dilema colocado nos debates sobre as questões da autenticidade intelectual e da colonialidade do saber. Nesta obra, desenvolve uma crítica à identidade cultural que dá sentido às formas de expressão literárias que se desenvolveram no cenário latino-americano ao menos desde a colonização. Em certa medida, seu esforço é por identificar, no passado literário da América Latina, as posturas estético-formais que não se recusassem à relação com o afluxo europeu, mas que também não operasse em um mero jogo imitativo da vida alheia à localidade. A visão que se desenha nessa obra é a de que há uma importante continuidade entre as experiências dos colonizadores e as dos colonizados, ou seja, uma espécie de prolongamento da vida europeia nos espaços explorados no “novo mundo” a partir do século XVI. Nesse sentido, a possibilidade de uma “produção cultural própria” dependia necessariamente de uma “personalidade literária” do continente que se preocupasse, antes de tudo, com a reapropriação e a ressignificação dessa matriz discursiva formulada nos termos da Europa, não com o isolamento e a recusa do que vem de fora. A consolidação desta tradição, aqui no cenário latino-americano, permitiria aos escritores e intelectuais do continente construir, de forma gradual, identidades mais autônomas e, por conseguinte, produções mais críticas do ponto de vista estético, formal e temático.

Se nossa intenção aqui não é desenvolver um estudo exaustivo sobre a obra dos críticos escolhidos, é importante que ao menos consigamos abrir possibilidades de pesquisa a partir de intelectuais pouco ou quase nunca lembrados, nos espaços da periferia do capitalismo, como figuras de vulto e formuladores teóricos e filosóficos. No caso de Henríquez Ureña, em seus diversos livros e ensaios – bem mais do que os dois que aqui elencamos – encontram-se um conjunto enorme e denso de reflexões sobre questões, conceitos e problemas que perpassam temas como cultura, civilização, ocidente, literatura e história, para ficar em apenas alguns exemplos.

Continuemos, portanto, nossa tarefa de exumar alguns destes corpos e mentes.

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Autor

Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Pesquisador de mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Membro da Comunidade de Estudos de Teoria da História (COMUM-UERJ) e professor do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais (CEPE).