Patrimonializando um futuro

Nem um mês, ou umas duas semanas, desde o seu lançamento e o novíssimo Museu do amanhã já está, antes estava, na lista de futuros automáticos, autodeclarados e óbvios patrimônios históricos, diria que culturais da humanidade. Ainda que possam variar, e bastante, sobre as percepções a seu respeito nas primeiras visitações que foram sendo expostas e divulgadas. Ele fala sobre futuro, e assim, permito sobre o mesmo falar neste pequeno comentário.

O tal museu do amanhã é, muito resumidamente, uma das muitas tentativas do grupo globo de criar turismo e cultura em formatos e espaços que julga coerentes, sendo neste empreendimento específico também patrocinado pelo banco Santander. É um museu sem acervo, sem catálogo, sem história, que sugere, humildemente “trazer o futuro para o presente” e “pensar o futuro”. Gasta-se muito para dizer nada sobre tudo, e chamar isso de cultura, de patrimônio. A proposta de longe não é nova.

Havia um outro museu, que dizem ser muito visitado, no Brasil, onde eu já lá estive, e não valia a entrada, pois prefiro aquele do outro lado da rua. Este museu, da língua portuguesa, assim como o do amanhã, também não precisava de acervo, ou até tem, mas é todo digital ou virtual.

Acervo este que pode ser facilmente, e completamente, restaurado. O “problema” todo se resumiria, em tese, a investimentos financeiros, coisa que não foi problema no primeiro, e não será no segundo. Afinal, estamos falando de cultura, aquela alta, digna de gente com dinheiro e pouca instrução, onde se desvia dinheiro público para o receber, aos múltiplos, de volta, já na iniciativa privada. E falando em língua portuguesa, ou na tradução lusitana lusofonia, os neocolonialistas da CPLP não demorariam a se pronunciar como salvadores do filho que não pariram. Na verdade, propor inclusive um substituto, se o Brasil não se acelerar na tal recuperação.

É muito curioso que entre tantos incidentes mais graves que ocorrem contra o governo de São Paulo, notadamente os políticos e financeiros, e aqui citaria apenas o mais recente, o caso das escolas ocupadas, haja tanto enfoque, curiosamente pelos meios de comunicação do grupo globo, ao incêndio do museu, quase que esquecendo a frágil situação do governador.

Ainda mais curioso, é o museu, na véspera de feriados, e em dia da semana onde não há visitação, receber um nada suspeito e inconclusivo curto-circuito sem provas. O museu não abre as segundas, e justo essa do incêndio, foi prévia a múltiplos dias de atividades encerradas. A falta de pessoas dentro do prédio é tamanha, que a única vítima fatal foi um brigadista que precisou entrar TRÊS vezes no prédio, já em chamas, para padecer. Haviam trinta pessoas no museu no horário de início de incêndio.

A ausência de acervo único, e principalmente material, permite, sacar enormes quantias monetárias para o reconstruir, diria que visualmente dito idêntico ao museu anterior, e ainda viabiliza a oportunidade de patrimonializar a desgraça, na óbvia ala de memória que provavelmente será anexada ao museu reconstruído.

A reconstrução em tempo recorde, que claro, afetou a estação de metro, que é outro problema antigo em São Paulo, quase garantirá a mudança da prefeitura municipal de São Paulo em 2016, que atualmente é do partido de oposição (PT) ao partido do governador (PSDB), e também deve permitir a renovação do contrato entre o governo de São Paulo e o grupo globo, provavelmente incluindo a prefeitura homônima, se for realizada em tempo hábil às eleições municipais de 2016.

É muito diferente da situação que atacou institutos com acervos materiais, difíceis de serem reconstruídos, ou mesmo outros museus em outras partes do mundo, ou mesmo no Brasil, ou se quiser, apenas em São Paulo. A repercussão na mídia fora completamente distinta, notadamente na dimensão da divulgação, e agravada pela escala desproporcional da perda do patrimônio material quando feitas devidas comparações.

É claro que tais ousadias de empreendimentos, ditos museológicos, sendo suportadas pelo grupo globo, podem atingir audiência nacional em rede aberta na programação, ou mesmo no formato de nota pública. O recém destruído museu também tinha ali o nome da máfia Marinho por trás de seus alicerces, ditos culturais.

E eu nem quero entrar na questão de quando e como a classe que constrói esses museus pode ter algum acesso, diria o único, e principalmente longe dos reais frequentadores. E principalmente, como os reais frequentadores esperam o amanhã, de homônimos museus. Permito-me uma citação sobre o museu do futuro:

A missão do museu é fazer o visitante refletir sobre como suas atitudes moldam o futuro da Terra.

Tenho dúvidas se quero ESTE futuro moldado pelas e pelos visitantes.

É por isso que me é muito estranha toda a comoção que gente que se diz especialista em museologia, em cultura, em história, em letras ou em educação, expôs publicamente nos telejornais e nas redes sociais. O museu da língua portuguesa era, e vai voltar a ser, tão pertinente para a cultura brasileira, e tão valioso para a economia, como foi e é o novíssimo museu do futuro. Próximo à zero.

Fonte: Portal de notícias do Google.

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