Parentes

Parente é um conceito interessante

Parentes

Frequentemente os povos indígenas compreendem qualquer outro indígena como parente. Mesmo que eles não compreendam uma única palavra do que o parente fala. Pra essa gente, o parente é como a nossa gente, e diferente daquela gente. O parente pro índio é alguém que ele quer perto, que quer lutar por ele. Quer se identificar e ser visto como parte de um todo social maior com este parente. Não se abdica de manter contato com o parente. O parente é alguém que você viajaria quilómetros pra conhecer. O parente é aquela gente com quem você aprende conceitos de vida e de morte, de iniciação e de aliança. Conceitos que aparecem antes dos nascimentos e continuam depois dos ritos fúnebres. Parente, pro índio, é alguém com quem a gente fala sobre saúde e educação, sobre o passado e o futuro, sobre a cultura e o meio ambiente, e via de regra é uma conversa política. Há uma busca e saudável recepção por parentes desconhecidos, e um constante cuidado em manter perto os parentes conhecidos. É comum ouvir “parente é como a gente”.

 

Nós, no entanto, não compreendemos quase ninguém como parente. No fundo, nós temos que ter convivência e aquele laço de sangue. Que muitas vezes é completamente falsificado. Falamos o mesmo dialeto e carregamos o mesmo sotaque, mas mesmo assim as semelhanças acabam aí. Pra nós, o parente não é como a gente, é como aquela gente. O parente é alguém que a gente quer longe, que brigamos com ele. Não queremos ser identificados nem vistos como parte dessa coisa maior chamada família. Voluntariamente evitamos o contato com o parente. O parente é alguém que você conheceria e morando ao lado ainda evitaria visitar. Os parentes só são encontrados nos nascimentos, aniversários, casamentos e funerais. Datas festivas que são lembradas dias antes e esquecidas horas depois. Parente, pro não-índio, é alguém com quem gastamos tempo e dinheiro por conta de saúde e educação, que cobramos retornos do passado e ameaçamos abandonar no futuro, que discordamos profundamente sobre as relações com a natureza e sobre o que é cultura, é quase proibido falar sobre política com parentes. Há uma fuga e rodeio para evitar encontrar ainda mais parentes, e frequentemente reduzimos o número de parentes. É comum dizer “parente nem é gente”.

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Autor

Graduado e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

Pesquisador e doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal.