Para além do discurso acadêmico dominante sobre internacionalização da educação superior: Extratos de entrevista com Chrystal George Mwangi, Professora Associada da University of Massachusetts Amherst, Estados Unidos

As reflexões da Dra. George Mwangi nos possibilitam vislumbrar a importância de ‘habitar a fronteira’ (Mignolo, 2017), isto é, de confrontarmos histórias locais com projetos globais, na busca por outras formas de fazer, pensar, viver e ser nas relações internacionais da educação superior.

Chrystal George Mwangi
Chrystal George Mwangi

A pesquisa em internacionalização da educação superior tem se configurado de forma predominantemente a-teórica e positivista: antes orientada para a consecução de objetivos práticos do que preocupada com as estruturas mais amplas nas quais esse fenômeno opera, seus dilemas e suas contradições. Em contraponto às promessas associadas ao fenômeno pelos discursos dominantes, as crescentes desigualdades abrem margem para que sua definição como uma intervenção neutra, coerente e baseada no conhecimento seja reconhecida e questionada.

Para George Mwangi et al. (2018, p. 3, tradução nossa), pesquisadores e journals internacionais frequentemente falham “ao abordar o poder e a hegemonia que estão embutidos nos sistemas e nas parcerias existentes na educação superior”. Buckner e Stein (2019, p. 2, tradução nossa) observam que “os principais recursos estão predominantemente orientados para alcançar a internacionalização ‘bem-sucedida’, em vez de demandar engajamentos ponderados e análises sistêmicas sobre por quais motivos ou de quais formas devemos fazer isso”. Leal (2020, p. 264) acrescenta que a “literatura mainstream sobre o tema […] [está] majoritariamente amparada em narrativas construídas a partir de relações desigualmente constituídas ao longo da história [e] tende a enquadrar o fenômeno tanto como inevitável quanto como um fato social estável e isolado no tempo. Como consequência, neutraliza tensões, contradições e contextualidades e estabelece zonas de ‘não ser’ por universalizar o que é situado”.

Dr.a Chrystal George Mwangi, Professora Associada da Faculdade de Educação na University of Massachusetts Amherst, Estados Unidos, é uma das vozes acadêmicas que tem questionado a ideia de internacionalização como ‘bem incondicional’ frequentemente enfatizada pelos discursos político e acadêmico dominantes.

Em 2018, Dr.a George Mwangi recebeu o prêmio de Pesquisa Inovadora em Educação Internacional pela Association of International Educators (NAFSA), pelo seu trabalho intitulado “Posicionamento de Parceiros: Examinando Parcerias Internacionais na Educação Superior sob as Lentes da Mutualidade” (“Partner Positioning: Examining International Higher Education Partnerships through a Mutuality Lens”). Sua pesquisa premiada investiga como parceiros negociam e navegam pelo poder em sessenta parcerias entre os chamados Mundo Majoritário (os Estados Unidos) e Minoritário (o ‘Sul-Global’). A partir de suas análises, constata que enquanto “muito da retórica em torno das parcerias internacionais na educação superior enfatizam relações transformadoras e recíprocas” (George Mwangi, 2017, p. 55, tradução nossa), o que se observa é “um processo de aprendizagem muito mais unidirecional” (p. 53). Argumenta, assim, que a atenção à mutualidade, por meio da intencionalidade, pode “ajudar indivíduos e instituições em parceria a defender o compartilhamento de princípios éticos na educação superior”.

Nesta entrevista1Via Zoom, em língua inglesa. A entrevista completa original encontra-se em processo de avaliação para publicação., conduzida em Junho de 2020, Dr.a George Mwangi reflete sobre a internacionalização da educação superior de uma perspectiva crítica. Especificamente, trata de temas como os impactos da forma de engajamento na pesquisa em internacionalização; os desafios de ser simultaneamente um profissional técnico e acadêmico sobre o tema e o papel da internacionalização no contexto da pandemia do Covid-19.

Pelas lentes da decolonialidade, as reflexões da Dr.a George Mwangi nos possibilitam enfatizar a importância de ‘habitar a fronteira’ (Mignolo, 2017), isto é, de confrontarmos histórias locais com projetos globais, na busca por outras formas de fazer, pensar, viver e ser nas relações internacionais da educação superior.

 

O que significa conceituar a internacionalização da educação superior a partir de uma abordagem crítica? Quais são os impactos das escolhas que fazemos ao pesquisar sobre educação superior internacional e internacionalização da educação superior?

Eu acabo de escrever um capítulo de livro com a Dra. Christina Yao, uma acadêmica que faz muitos trabalhos relacionados à internacionalização, no qual desenvolvemos o que estamos chamando de uma lente orientada para a equidade na internacionalização da educação superior. A abordagem inclui quatro componentes, integrando perspectivas conceituais e teóricas orientadas para a equidade, (des)construindo a internacionalização, definindo o contexto sócio-histórico da internacionalização e conectando a pesquisa em internacionalização às forças contemporâneas da globalização.

«a forma como pensamos a internacionalização decorre de elementos históricos relacionados à colonização e à escravidão, além de outras formas de desigualdades que aconteceram e acontecem em nossa sociedade»

Nós realmente conversamos sobre essa ideia de uma abordagem crítica, que exige que certas coisas fiquem em primeiro plano quando pensamos na internacionalização da educação superior. Então, é claro, mencionei a equidade e as questões de poder e de opressão. E quais são as maneiras pelas quais a internacionalização reifica essas coisas ou trabalha para mitigá-las. Eu entendo que uma abordagem crítica faz isso. Outra coisa que se faz necessário é ter uma perspectiva sócio-histórica da internacionalização e reconhecer que não se trata apenas de práticas contemporâneas, mas que essas práticas decorrem de algo e a forma como pensamos a internacionalização decorre de elementos históricos relacionados à colonização e à escravidão, além de outras formas de desigualdades que aconteceram e acontecem em nossa sociedade. E políticas e todas essas coisas que aconteceram ao longo do tempo e moldaram onde estamos em termos de internacionalização hoje. Como definimos estudantes internacionais ou pensamos sobre educação no exterior ou em parcerias na educação superior – todas essas peças foram moldadas a partir de um contexto sócio-histórico. Assim, uma abordagem crítica realmente requer que se reconheça isso.

Uma abordagem crítica também requer pensar sobre a internacionalização da educação superior não apenas colocando em primeiro plano a equidade, a opressão e a marginalização, mas também pensar sobre como promover uma mudança positiva no uso da internacionalização como uma ferramenta para promover maior equidade e fazer essas coisas acontecerem. Há algo orientado para a ação sobre a abordagem, com certeza. Mesmo que você não mude o mundo com uma prática. Mas, pensando apenas em interromper, trazendo uma abordagem crítica porque você está perturbando o status quo – isso também é uma ação. Portanto, o componente orientado para a ação também é muito, muito importante para conceituar a internacionalização a partir da abordagem crítica.

Recentemente, mesmo autores que desenvolvem pesquisas sobre internacionalização a partir de uma abordagem mais funcionalista têm reconhecido que ao lado das oportunidades que esse processo oferece, existem questões que são contraditórias e contestáveis. O discurso dominante, no caso, é que a racionalidade econômica para internacionalizar se sobrepôs às demais, ou que ‘a internacionalização perdeu o seu rumo’. Quais são os limites dessa crítica?

Em termos de crítica e limites, é importante não simplificar demais os desafios em torno da internacionalização. Isso remete à ideia de uma abordagem crítica para a internacionalização – que também ajuda a desconstruir e talvez complicar um pouco as coisas. Quando dizemos que a lógica econômica se destacou em relação a outras racionalidades para internacionalizar, concordo que a lógica econômica é muito, muito poderosa agora. Mas também existem outros fundamentos lógicos muito poderosos que podem tornar a internacionalização uma ferramenta injusta. Por exemplo, eu diria que as questões geopolíticas estão em par com as econômicas. É importante pensar holisticamente sobre as múltiplas maneiras em que a internacionalização funciona.

«eu diria que a educação superior sempre esteve em função do elitismo, então não sei se realmente perdeu o seu rumo. Penso que fez o que sempre se propôs a fazer, que é dar educação a uns e não a outros»

E internacionalização em termos de perder o seu rumo – não acredito que a internacionalização tenha algum dia sido essa coisa perfeita. Portanto, não sei se ‘perder o rumo’ é a melhor maneira de formular uma crítica. Alguns até questionam se a educação superior está perdendo o rumo por se tornar tão neoliberal. Mas eu diria que a educação superior sempre esteve em função do elitismo, então não sei se realmente perdeu o seu rumo. Penso que fez o que sempre se propôs a fazer, que é dar educação a uns e não a outros. Para criar mobilidade para alguns e excluir outros. Isso sempre foi uma função da educação superior. E então, algumas das críticas podem ser um pouco simplistas demais e simplesmente não estão considerando um pensamento sócio-histórico sobre essas outras coisas que também são muito, muito importantes.

Chrystal George Mwangi - internacionalização da educação superiorÉ como usar um pequeno band-aid para esse grande desafio. Como dizem, usar um band-aid em um ferimento a bala. Não vai realmente curar nada. E então, é apenas um tipo de solução de nível superficial. Essas são coisas importantes a se considerar. E eu também reconheço que isso é parte integrante do desafio porque, por exemplo, para mim, é fácil. É fácil, entre aspas, mas fácil para mim, como acadêmico, fazer críticas. Mas para os profissionais que estão engajados na internacionalização na prática, eles estão tendo que lidar com muitos empurrões e puxões. É importante para os estudiosos, é importante para mim como uma estudioao, por exemplo, fazer críticas sobre essas coisas, mas também reconhecer que as pessoas que se engajam na prática não são más. Elas estão tentando negociar muitas coisas. E então, como a pesquisa pode ser acessível a elas, de maneira a permitir que mudanças aconteçam, porque se eu apenas estou lançando todas essas críticas o tempo todo e não fornecendo nenhum suporte adequado, bem, “Como as coisas podem mudar?”. Isso não é útil para realmente promover mudanças. É importante manter isso em mente. E essa é uma parte diferente, mas acho que também é importante.

No próximo ano, terei um trabalho conjunto. Serei do corpo docente em meio período e administradora por meio período no escritório de Programas Internacionais da minha Universidade. Vou tentar trabalhar com eles em seu plano estratégico de internacionalização e coisas assim, realmente tentando trazer mais uma lente orientada para a equidade em seu planejamento estratégico e avaliações. Foi importante para mim fazer isso porque quanto mais tempo sou um membro do corpo docente – comecei como um administrador –sinto que estou mais longe de, como, “Ok, o que os praticantes realmente podem fazer em torno deste problema agora?”. Então, eu queria oferecer minha experiência, mas também aprender com as coisas que eles estão vivenciando. Penso que às vezes as pessoas pensam que com uma abordagem crítica você só tem que lutar, lutar, lutar contra a administração e a organização e coisas assim. Mas acho que é importante também tentar encontrar um terreno comum e maneiras de colaborar e ainda ser uma voz crítica também. Portanto, há muito para navegar.

A predominância de uma abordagem funcionalista na pesquisa em educação superior internacional é muitas vezes justificada pela forte presença de técnicos na área, que estão principalmente interessados em resolver problemas práticos para que a internacionalização ocorra com sucesso. Você já foi uma acadêmica-técnica e, ainda assim, sua pesquisa visa a transformar a realidade. Como isso começou e que conselhos podem ser dados aos profissionais que estão se tornando ou desejam se tornar pesquisadores?

Eu comecei como administradora, mas minha lente sempre esteve – eu acho que a maneira como vejo o mundo – em torno de pensar: “Por que as coisas são do jeito que são e como podem ser melhores?” E quando eu era uma administradora, trabalhei pela primeira vez com admissões de estudantes e vi muita desigualdade entre estudantes que estavam preparados para a universidade e estudantes que não estavam preparados para a universidade. E não era culpa deles, foram as circunstâncias em que eles cresceram e um reflexo das desigualdades que temos em nossa sociedade. Mas reconheci, como administradora, que só conseguia ajudar os estudantes que estão à minha frente e apoiar esses alunos, e que esse é um trabalho importante, mas eu realmente queria considerar quais são o sistema e as estruturas que estão impactando aqueles estudantes e que talvez possam ser alterados. E há maneiras de pensar sobre isso a partir dessa perspectiva macro, em vez de trabalhar com os estudantes para superar circunstâncias que eles não deveriam ter que superar porque não deveriam existir. Foi quando realmente comecei a pensar: “Ok, bem, isso é se envolver em um trabalho relacionado a políticas? É fazer pesquisa?” E eu voltei para a escola e eventualmente me tornei um membro do corpo docente e decidi seguir esse caminho, em parte para fazer esse trabalho por meio de minha pesquisa. A outra parte era ser capaz de educar pessoas que seriam profissionais, acadêmicos e formuladores de políticas. E então, era um propósito duplo.

É importante para os profissionais, independentemente de quererem se tornar professores, um dia ou não, serem capazes de ler pesquisas. Sempre digo aos meus estudantes, especialmente os de mestrado, “não importa se você quer fazer um doutorado ou não, ou se tornar um pesquisador, é importante que você esteja familiarizado com pesquisa porque você será solicitado em seu trabalho para usar dados para informar suas práticas ou para ver o que os estudiosos estão dizendo. E você não deve apenas absorver o que eles dizem, você deve ser capaz de criticar – ler e questionar, por exemplo: Isso realmente se encaixa no seu contexto? O que eles estão dizendo é realmente correto? Estão levando em consideração todas as nuances da situação de que falam? Se, como um técnico, você não pode fazer isso, então você irá reificar as mesmas coisas em sua prática contra as quais você pode realmente querer lutar. Então, eu entendo que é realmente importante para os profissionais se engajarem na pesquisa ou pelo menos serem alfabetizados em pesquisa e capazes de olhar dados e artigos e colher coisas deles. E compreendê-los e criticá-los. […]. Outra coisa que eu diria para os profissionais que estão mais em um nível sênior, que têm uma equipe, é que é importante ser capaz de dar espaço à equipe para aprender como conduzir pesquisas. E fazer isso como parte do desenvolvimento profissional, porque não podemos apenas esperar que as pessoas sejam capazes de fazer isso além de tudo o que já estão fazendo no trabalho. Portanto, deve haver estruturas para apoiar os profissionais envolvidos em pesquisas e incentivar a colaboração com pesquisadores.

Que reflexões podem ser feitas sobre a internacionalização da educação superior no contexto da pandemia do Covid-19?

Sinto que estamos em um momento muito importante para repensar e reimaginar o que a internacionalização pode ser. Este é um momento em que, com a pandemia, a agitação social que está acontecendo em todo o mundo, o conservadorismo político que está acontecendo em todo o mundo – todas essas coisas estão proporcionando este momento para realmente dizer: “o que pode ser feito de outra forma para caminharmos em uma direção mais positiva em todos os aspectos da vida?”.

«A internacionalização é um processo que deve levar a algo maior. É isso que precisa continuar na vanguarda. E, infelizmente, muitas organizações, profissionais e acadêmicos começaram a tratar a internacionalização como se internacionalizar fosse o próprio objetivo»

Mas, especificamente para a internacionalização, este é um momento crítico. Tudo o que está acontecendo nos força a nos engajarmos na internacionalização de maneiras diferentes do que antes. Se pudermos realmente ser intencionais, acredito que esse momento pode se traduzir em uma abordagem mais ponderada e crítica. Infelizmente, novamente, às vezes as pessoas são muito rápidas para simplesmente continuar sem realmente pensar sobre isso, mas é um momento realmente crítico.

A internacionalização, na minha opinião, deve ser um processo para o alcance de um objetivo final. Ser uma instituição de ensino internacionalizada não é um objetivo final. A internacionalização deve ser um processo de fazer algo para atingir um objetivo como maior aprendizado, maior acessibilidade, ampliação da participação na educação superior, retenção de alunos ou mitigação de desafios globais. Não se trata apenas de enviar alguns alunos para o exterior. A internacionalização é um processo que deve levar a algo maior. É isso que precisa continuar na vanguarda. E, infelizmente, muitas organizações, profissionais e acadêmicos começaram a tratar a internacionalização como se internacionalizar fosse o próprio objetivo. Se isso continuar, esse sempre será o desafio em torno da internacionalização como uma ferramenta potencial para uma mudança social positiva e maior equidade.

Referências

GEORGE MWANGI, C. A. Partner Positioning: Examining International Higher Education Partnerships Through a Mutuality Lens. The Review of Higher Education, v. 41, n. 1, Fall 2017, p. 33-60. 2017.

LEAL, F. Bases epistemológicas dos discursos dominantes de “internacionalização da educação superior” no Brasil. Doutorado (Programa de Pós-Graduação em Administração). Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2020.

MIGNOLO, W. Desafios decoloniais hoje. Epistemologias do Sul, v. 1, n. 1, p. 12–32, 2017.

STEIN, S. Internationalization for an uncertain future: tensions, paradoxes, and possibilities. The Review of Higher Education, v. 41, n. 1, p. 3–32, 2017

Notas   [ + ]

1.Via Zoom, em língua inglesa. A entrevista completa original encontra-se em processo de avaliação para publicação.
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É doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil, foi pesquisadora visitante do Center for International Higher Education (CIHE), Boston College, Estados Unidos, de 2018 a 2020, e é secretária-executiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil.

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

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