Os pobres que se lasquem, só que não

Desde o princípio dos tempos da história humana tem vigorado a luta de classes. Há os que detêm o poder e há os que estão subjugados. A forma de garantir o poder muda conforme o tempo histórico, ou é pela força das armas, ou é pela força econômica, mas, no geral, é sempre um pequeno grupo que se arroga o direito de definir a vida da maioria a partir de mecanismos de controle e repressão. Nunca é fácil, para um povo, constituir uma consciência de que a maioria pode inventar outro jeito de ser estado, ou outra forma de viver. E, assim, mesmo sendo maioria, se sujeita à repressão e ao domínio. Um dos elementos para manter essa maioria – ou em silêncio reverente, ou cooptada – é o poder econômico. Através do “mundo das coisas”, os grupos de poder vão minando os desejos e as possibilidades de vida boa para todos.

A explicação para isso é simples: no mundo capitalista, para que um viva, outro tem de morrer. Assim, se um pequeno grupo consegue viver na opulência, é porque existe o seu contrário: aquele que afunda na miséria. E, apesar de serem irmãos siameses – o rico e o empobrecido – aquele que desfruta da riqueza está pouco se lixando para o que acontece àqueles que garantem a sua saciedade. No mais das vezes, essas pessoas são vistas como um atrapalho ou como um monte de lixo no chão, que pode ser varrido, enterrado, desaparecido, que não fará falta alguma.

A única condição que a classe dominante permite à maioria que lhe serve é o silêncio e a passividade. Se os grupos subalternos aceitam o domínio, quietinhos e em reverência, até lhes é permitido sobre/viver, sempre no limite, vigiados. Mas, se os empobrecidos começam a exigir direitos, novas formas de organização, espaços de poder, aí a coisa muda de figura. Sobre eles desce o braço forte da lei, da repressão, da violência. Alguns há que resistem, em comunhão. E outros há que, incapazes de compreender os grilhões, aceitam a servidão voluntária em nome de algumas migalhas. Essa é a história humana, que se repete a cada tanto.

Nossa América Latina

No início do século XXI a América Latina viu um florescer de luta desses que chamamos de “os de baixo”, os empobrecidos, os sem poder. Primeiro, foram os indígenas do Equador, ocupando igrejas e exigindo atendimento as suas demandas. Depois, quando todos diziam que o socialismo estava morto, e com ele todas as narrativas de esquerda e de emancipação popular, das entranhas do México chegam os zapatistas, armados de fuzis e de tecnologia a mostrar que a utopia seguia firme, porque afinal, sempre há os que não aceitam o domínio de uns poucos. E quando os Estados Unidos tentavam seu golpe final de dominação econômico e política sobre o continente, com a imposição da Área de Livre Comércio, aparece na Venezuela um militar revolucionário que encanta seu povo e assume a presidência do país com a promessa de governar com os empobrecidos. Hugo Chávez estende a espada de Bolívar e oferece, outra vez, o sonho da Pátria Grande: a América Latina unida, soberana, com poder popular. Era a mais completa das heresias.

Ainda assim, a promessa bolivariana de riquezas repartidas foi avançando pelo continente. Desde a Venezuela partiam as ideias comunitárias, de democracia participativa, de construção de outras formas de viver. Uma proposta que se ancorava no povo que sempre estivera excluído das instâncias de decisão. De repente, os trabalhadores, os desempregados, as prostitutas, os negros, os pescadores, as mulheres, os sem-casa, os sem-terra e toda a gente que sempre estivera à margem começa a dizer sua palavra, e ser levado em conta.

Mas, da mesma forma em que esse outro jeito de ser governo incendiava a vida popular, provocava tremores na classe que sempre dominara o processo de poder nos países periféricos de uma América Latina quase totalmente ajoelhada, com a exceção de Cuba. Foi aí que começou a luta sem quartel para a retomada do poder, que agora escorregava para as gentes comuns. E, assim, acostumados a observarem a vida desde o alto de seus casarões, os endinheirados tiveram que descer para as ruas e fazer passeatas, se apropriando agora também das formas de luta do mundo popular. Foi assim na Venezuela, quando os “esquálidos” (a oposição) tiveram que disputar as mentes dos venezuelanos. E aquela não era uma batalha singular. Se era da Venezuela que partia o vento fresco da proposta de poder popular, era ali que a questão teria de ser resolvida, para que não contaminasse o continente inteiro.

Por conta disso que Hugo Chávez e o bolivarianismo passaram a ser os inimigos mortais da elite latino-americana. Era preciso destruir o cancro, o câncer, a doença. E a campanha foi dura. Por mais de 12 anos os braços armados da ideologia – os meios de comunicação de massa – disseminaram a exaustão mentiras e terrores. Hugo Chávez era o próprio demônio e a Venezuela o antro de todo mal. Afinal, onde já se viu, desdentados e favelados participarem do processo de decisão sobre uma nação? Isso era inconcebível.

Não foi por acaso que, durante os 12 anos de governo de Hugo Chávez, ele teve de submeter cada passo dado à população. Foram 18 eleições, e que não eram só uma consulta ritual. Eram decisões discutidas com antecedência, por toda a comunidade viva, ou seja, a que se organizava politicamente. Teve uma nova Constituição, eleições presidenciais, parlamentárias, plebiscitos. E, em 2002, teve também um golpe de estado, protagonizado pelos empresários da comunicação em parceria com a velha direita. Com toda essa movimentação de defesa e ataque, pode-se até considerar um feito monumental o que Chávez conseguiu. Organizar comunidades, criar espaços de produção de conhecimento, criar espaços de poder para a população. Foi coisa demais, num estado de guerra permanente.

Ainda com Chávez eram apontados os limites do processo. Um país ancorado no petróleo, que não conseguia criar uma planta produtiva, nem no campo nem na cidade. Vale salientar que nunca foi fácil dialogar com o empresariado venezuelano. A maioria estava mais preocupada em derrubar o chavismo do que fazer a Venezuela avançar. Houve uma decisão por parte da classe dominante, que era a que detinha – e ainda detém – o controle do comércio e da indústria, e essa decisão era destruir a proposta de poder popular a qualquer custo, mesmo que isso significasse impor uma derrota à nação. Ninguém ali estava preocupado com a Venezuela, apenas com seus negócios.

Com a providencial morte de Chávez, novas portas se abriram para os “esquálidos”. Sempre amparados política e financeiramente pelos Estados Unidos, os representantes da elite venezuelana aprofundaram o combate, agora contra Nicolás Maduro, que obviamente não é Chávez e tem ainda mais limitações para governar. A guerra econômica imposta desde o início do mandato de Maduro foi criando um clima de caos no país. Como a burguesia comercial tem o controle da importação, foi a partir daí que começou a nova onda contra o projeto bolivariano. Impor a falta de produtos na mesa e na vida dos venezuelanos foi um golpe de mestre.

Como o governo de Hugo Chávez, ao longo de 12 anos, já havia garantido conquistas importantes como saúde, educação, moradia, gás, emprego, aquela parcela da população que sempre fica em cima do muro – a classe média – foi se acomodando. Boa parte não participava politicamente dos processos decisórios, mas exigia que suas demandas fossem atendidas. Quando, por conta do desabastecimento, se viu sem produtos, não teve dúvidas em passar para o outro lado, opositor. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, diz o ditado popular. Sem consciência de classe, fica fácil cair nessa armadilha.

É certo que o governo de Maduro vem cometendo muitos erros e o maior deles talvez seja o de querer buscar a burguesia golpista como aliada. Várias mesas de negociações foram tentadas com os que vinham sendo os protagonistas dessa guerra econômica. Mas, para os que conhecem a natureza da classe dominante, sabem que ela é insaciável. Ou tudo, ou nada. E, de novo, sempre é bom lembrar que o que estava em jogo não era a vida do povo da Venezuela, mas o lucro de alguns. Negócios, nada mais do que negócios. O governo foi então cometendo erros sobre erros. Aliado a isso, criou-se no país uma camada de burocratas, chavistas de última hora, igualmente não comprometidos com a Venezuela, processo que, apesar de denunciado pelos movimentos sociais, foi se aprofundando, gerando insatisfação e protestos.

Os novos rumos

Assim, muitos foram os fatores que levaram a direita venezuelana a conquistar a maioria das cadeiras na Assembleia Nacional. Eles tinham na mão, não se pode esquecer, toda a poderosa estrutura dos meios comerciais locais – nunca censurados – e também a ajuda dos seus parceiros de classe nos demais países latino-americanos e nos Estados Unidos. Basta ver como algumas pessoas no Brasil acreditaram piamente que a Venezuela é um país que censura a imprensa, e onde as pessoas são presas por serem contrárias ao governo. Jamais se disse que Leopoldo Lopez, por exemplo, um queridinho da elite, foi o responsável pela morte de mais de 20 pessoas nas manifestações de rua. A mais-valia ideológica garantiu uma fabricação de consenso sobre o processo bolivariano, que é visto como coisa ruim para as pessoas. Só não dizem para que tipo de “pessoas”. Obviamente que para os endinheirados da Venezuela, ver os pobres organizados e ajudando a governar é coisa do “demônio”.

Hoje, pouco mais de dois anos depois da morte de Chávez, a fábrica ideológica dos meios de comunicação comercial comemora o que chama do fim do bolivarianismo. Vibram todos com a derrota de Cristina Kirchner, que nem esquerda era, bem como com os perrengues de sua colega, Dilma Roussef. Os governos argentino e brasileiro, ao longo desses 13 anos apenas deram algumas cutucadas na classe dominante, muito fraquinhas. Algumas políticas compensatórias, alguma coisa de redução de danos, um mínimo de distribuição de renda. Mas, mesmo isso, tão pouco e quase insignificante na estrutura, já foi suficiente para que o combate contra elas fosse feroz. Cristina ainda chegou a comprar algumas brigas com o grupo Clarin, que seria o paralelo da Globo no Brasil, e, por conta disso, teve uma oposição mais raivosa.

Nas redes sociais, vimos também pessoas comuns, que não são parte da elite ou da classe dominante, babando de alegria, agourando o governo de Evo, de Correa e de Dilma como os próximos a caírem, para o bem das nações. Muito poucos conseguem alcançar o fato de que os insignificantes avanços que cada um conseguiu dar para os empobrecidos  – sempre excluídos das políticas públicas  – não são suficientes, mas conseguem garantir espaços de participação e de poder. Em alguns países mais, em outros menos, mas de qualquer forma vão pavimentando novas formas de organizar a vida e a política.

Por mais críticas que possamos ter – e as temos – contra os governos ditos progressistas que foram se entregando para a proposta da nova reestruturação do capitalismo, fugindo completamente do rumo da esquerda, não dá para negar que a América Latina tem vivido novos espaços de participação. E isso é, de alguma forma, pedagógico, ou seja, aponta um caminho, que pode, inclusive, fugir do controle desses governantes.

As vitórias da direita, tanto aqui como nos demais países irmãos dessa nossa imensa Abya Yala, só se configuraram porque nossos governantes claudicaram, se perderam, se renderam, decidiram apostar na proposta de “conciliação de classes” e não realizaram as mudanças estruturais que tinham de fazer acontecer. Inúmeros são os motivos e esse texto não os poderá listar, mas ao concederem poder aos velhos inimigos, foram picados pela cobra que eles nunca deixaram de ser. Vide Dilma com seu vice, Temer. Nada mais previsível.

Para nós, que nos dedicamos a auscultar a realidade, fica a certeza de que essa derrota na Venezuela é bastante significativa para a esquerda. Requer análise e autocrítica. O grande império estadunidense – vejam o vídeo de Hillary Clinton dizendo “ganhamos, ganhamos” ao falar das eleições venezuelanas – está sempre ali, ancorado nas nossas margens, distribuindo verba, alimentando de informações, pronto para o bote. Mas, ele não está sozinho. Dentro de cada país está uma gente que não se importa com a maioria, que só quer saber de seus lucros e negócios. São entreguistas de nascença, e não mudarão. Nunca! E também há outra parcela que busca apenas seu próprio umbigo, interessada em si mesma, sem visão do coletivo. Essas forças que, unidas, são fortes, tampouco gostam de ver o povo no poder. Os desdentados, os feios, os maltratados, os favelados precisam ficar “no seu lugar”. E esse lugar não é o espaço de poder.

Então, por esses dias, a elite e os desinformados bons cristãos latino-americanos celebram a vitória dos “bons”, consubstanciada na imagem de Lilian Tintori, uma linda mulher, loira e bem cuidada, ou na do seu marido, o “prisioneiro” playboy, Leopoldo López, o vivo retrato dos esquálidos, a boa e velha classe dominante. Preferem essa gente no poder, uma gente bonita, que fala inglês, que está preparada para governar a Venezuela e cada país da América Latina. Na verdade eles estão mesmo preparados para isso. Governar os países para benefício de si mesmos. Já os empobrecidos, que se lasquem.

Mas, alguma coisa lhes escapa. Esses empobrecidos são a maioria e, ainda que se percam, que sejam enganados, comprados ou que assumam por decisão própria a visão da classe dominante, momentos há em que se levantam em rebelião. A história está cheia de exemplos, e cada dia mais. Então, um pouco de calma antes de alardear o fim do sonho da Pátria Grande, do bolivarianismo, do artiguismo, da esquerda, da proposta de bem viver. A história da luta de classes é a história humana e cada passo que a gente dá, ainda que seja pequeno, sempre é uma esperança. Como diria Gonzaguinha, “eu acredito é na rapaziada”. Essa gente valente que segue em frente quando tudo diz que não é mais possível. Porque é uma gente que nada tem de seu a não ser o corpo. E esse, é um espaço de liberdade. P´alante!

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Autora

Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.