Os laços desfeitos que unem a América Latina

A essencialidade do trabalho, como fonte comunitária, necessita ser rearticulada frente aos espaços de combate e neocoloniais.

O modo de curadoria que esse blog tem costurado tantos temas, produções e agentes culturais da América Latina tem se mostrado, intencionalmente, um espelho de variadas questões que nos formam e nos fazem reagir frente aos desafios contemporâneos e aos problemas enraizados no passado. Assim, a escolha do filme Eslabones Sueltos (2017) evidencia mais um problema crônico em nossa América Latina: a intersecção entre trabalho e infância.

A relação trabalho e infância remonta a formação de nossa sociedade, em diversos momentos históricos a importância do corpo infantil estava na sua reelaboração frente aos desafios “modernos”. A visão de massa por sobre a formação de crianças configurou-se em alguns Estados como política social – e de controle. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) demonstram que 10,7 milhões de meninas e meninos nas Américas realizam algum tipo de trabalho, ou seja, cerca de 1 em cada 19 crianças estão em situação de trabalho infantil. Uma realidade destrutiva que se alastra pelo mundo inteiro. A definição do trabalho infantil pela OIT indica que “todo trabajo que priva a los niños de su niñez, su potencial y su dignidad, y que es perjudicial para su desarrollo físico y psicológico” são enquadramentos desse tipo de exploração.

O documentário situa, didaticamente, as correlações entre eventos que geram o trabalho infantil com ênfase em histórias de jovens argentinos. A importância dos testemunhos reforçam os múltiplos aparatos utilizados pelas engrenagens neocoloniais de dominação. As vidas de Juan Pablo (19 anos) no embate entre quem reluta em voltar aos estudos e de quem necessita sobreviver; de Juan Gabriel (25 anos) desempregado, mas na busca por retomar o controle de sua vida; de Emanuel (20 anos) que foi expulso aos 11 anos da escola e que hoje trabalha como catador de lixo; de Verónica (34 anos) repetindo a história de várias mulheres latino-americanas, pois sendo criança precisou cuidar dos irmãos, depois do seu filho e agora de sua neta, formando um ciclo de sobrevivência e solidão; de Miqueas (12 anos) como exemplo vivo da relação perigosa entre trabalho infantil no campo e trabalho familiar (agricultura,  setor que mais engloba situações qualificadas como trabalho infantil) ; assim como Andrea (16 anos) e a aplicabilidade naturalizada de explorações cotidianas, “menores”, ditas como comuns, mas que refletem um sistemático mecanismo de subordinação e subvalorização. Porém, o documentário realiza uma crítica comedida ao não referendar o papel de um sistema-mundo administrado pelo patriarcado, pelas relações de classe e pelo racismo. São evidentes as escolhas do diretor em narrar uma realidade própria, entretanto, a conjunção de certos marcadores precisam ser pontuados continuamente para que a discussão se alargue e consiga dissipar certos padrões de comportamento e discursos enraizados.

Se você se interessa pelo tema e busca elementos introdutórios, a colunista M. Elena Mendez faz uma levantamento das principais teorias que amalgamaram a união entre trabalho e infância no artigo Trabajo infantil. Lo que sabemos.

Sabemos que no basta con el afán sancionador de una ley que persiga a las grandes compañías y a las personas dispuestas a abusar de la situación de pobreza y vulnerabilidad de un niño.

Sabemos que la sola prohibición del trabajo infantil no terminará con el problema, y que puede llegar a ser contraproducente porque imposibilitará la protección de los niños cuando todo trabajo infantil quede oculto a la ley. Sabemos dejarle a las instituciones y organizaciones buenas la responsabilidad de la lucha contra este abuso.

Tristemente, nos dimos cuenta de que se ha naturalizado aquella escena de niños trabajando en una esquina gris o con la imagen de fondo  del rascacielos más alto de Latinoamérica. Lo sabemos de ida y vuelta al pasar por la misma calle muchas veces. Sabemos que el trabajo infantil y las formas peores de trabajo existen y han existido como abuso antes del ascenso neoliberal, o de  la revolución industrial. Y nos dijimos  que sabemos darle la responsabilidad a la Historia y a los modelos económicos.

As afirmações da ativista social e psicóloga nos servem como prefácio do recorte da história do trabalho infantil na Argentina. E como adiantamos, desenha o perfil de um espelhamento da realidade latino-americana sobre tal contexto. O diretor Andrés La Penna incide questionamentos em oficinas particulares, em gabinetes estatais, em escolas, no campo, na cidade, buscando uma via de conexão entre histórias que se ligam pelo abandono.

A gangorra da educação

A atuação de exploração no trabalho infantil, que reforça sua condição perante a colonialidade, se estabelece também entre as mentes. A formação que atinge a saúde, o desenvolvimento pessoal, físico e psicológico, também regimenta um processo que desvincula inovações, epistemologias e atitudes descoloniais. A formação da escola, como atitude libertária, faz parte de um projeto que pode ocasionar ruínas nesse modelo hegemônico.

A fundamentação do abandono escolar, alinhavado a um sistema escolar decadente, e necessidades primárias, reforça a inabilidade de criação, invenção e protagonismo. A função de uma educação libertária, teorizada e vivenciada por Paulo Freirebell hooks, Luis Fernando Sarango Macas, entre outros, e projetos como as escolas autônomas do movimento zapatista, servem como contrarreação aos planos hegemônicos.

Por isso, a gangorra da educação balança entre o conservadorismo de quem sustenta o mesmo projeto colonial de exploração, e de quem radica na educação a raiz de um levante comunitário e revolucionário. O ato de aprender, e a aprendizagem compartilhada, é um dos elementos que se tornam chaves na reelaboração da criança na América Latina. Passa pela conformidade de câmbio social, de valorização profissional, de instabilidade de desigualdades e restabelecimento de protagonismo. O movimento íntimo e profundo de vivenciar o pensamento crítico, se faz na desarticulação de pilares conceituais e morais como o trabalho. A essencialidade do trabalho, como fonte comunitária, necessita ser rearticulada frente aos espaços de combate e neocoloniais.


A filmografia de Andrés La Penna também originou o documentário Crónicas de explotación (2018) sobre a exploração de trabalhadores em oficinas de costura clandestinas. Assinando a direção com Sebastián Di Domenica, o filme retrata os temas de escravidão e exploração laboral.

Eslabones Sueltos é uma produção da Construir TV, com co-produção da OIT Argentina, o que possibilitou a exibição em rede de televisões públicas no México, Brasil, Perú, Costa Rica e Uruguai. Pode assistir ao documentário aqui.

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Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

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