Os Estados Unidos e a doutrina da guerra permanente

As peças do tabuleiro mundial seguem se movendo, a história não é estanque.

Neoimperalismo Estados Unidos

Tem sido comum os Estados Unidos inventarem doutrinas para justificar suas ações no mundo. E cada uma delas aparece num determinado tempo histórico, no qual o país do norte vai expandido seu processo de acumulação de capital. Até agora cinco grandes doutrinas se concretizaram, todas aprofundando e justificando o processo de dominação que culmina hoje no que Tierry Meysson chama de neoimperialismo. O capitalismo avançando e se expandindo.

E o que é uma doutrina? Um corpo fechado de regras que não pode ser debatido, apenas cumprido. No que diz respeito à América Latina, por exemplo, a primeira grande doutrina é a Doutrina Monroe,de 1823. Nascida de uma declaração do presidente Monroe, ela estabelecia que a partir de então, a América Latina estaria sob a proteção dos Estados Unidos, evitando assim a pressão da Europa sobre o continente que recém libertava-se. Na verdade, a proteção teria um preço: a dominação econômica, política e cultural, bem como a balcanização do continente. Naquele momento histórico, os EUA observavam as independências na América do Sul como um bom momento para crescer e tomar o controle dos vizinhos, fazendo sombra ao império da época, que era a Inglaterra. Essa doutrina só foi questionada em 1959 pela revolução cubana, que ousou sair do “abraço” opressor do capitalismo estadunidense. Uma revolução que começou com viés burguês e depois foi aprofundando na direção do socialismo.

Segundo o professor Waldir Rampinelli, do curso de História da UFSC, a segunda grande doutrina que marcará as relações dos EUA com a América Latina e também com o mundo é a do “destino manifesto”, elaborada em 1831. Essa doutrina é um conjunto de ideias de cunho realigioso, no qual os líderes estadunidenses se consideram “escolhidos por deus” para levar a civilização aos bárbaros. Eles sendo os civilizados, é claro. Importante ressaltar que o uso de “deus” foi meramente instrumental e ideológico, porque o deus verdadeiro do processo era o capital em processo de expansão. E essa doutrina muito bem serviu para que os EUA se apossassem, literalmente, do território latino-americano. O México, por exemplo, foi roubado em um milhão e 400 mil quilômetros quadrados de território, perdendo para os EUA os estados do Texas, Nevada, Utah e Califórnia, bem como partes do que hoje é o Arizona, o Colorado e o Wyoming. A política “messiânica” foi um motor no processo de crescimento econômico do país, pois permitiu a famosa marcha para o Oeste, que destruiu povos indígenas e se apropriou do ouro nas terras alheias, roubadas duas vezes.

Em 1890 uma nova doutrina aparece, a do Panamericanismo, que é a consolidação da América Latina como um mercado para os Estados Unidos que então, pós-guerra civil, logo depois da vitória do norte industrializado sobre o sul agrário, assoma como uma grande potencia industrial. A necessidade de vender suas mercadorias emerge com mais força, em mais uma etapa de expandsão do capital. Essa doutrina, criada a partir de um congresso chamado de “Congresso de Washington”, estabelece que toda a região abaixo do Rio Bravo seria então um mercado cativo para os Estados Unidos. Quem vai denunciar essa postura monopolista e imperialista dos EUA é o cubano José Martí, não por acaso o grande inspirador da revolução de 1959 em Cuba.

Uma quarta doutrina nasce em 1933, com Roosevelt. É a “política da boa vizinhança”, que tem por objetivo tirar o capital dos Estados Unidos da grande depressão, aprisionando ainda mais a América Latina nos seus laços comerciais. Como a segunda grande guerra já se anunciava, essa doutrina também servirá para garantir soldados e território para bases militares no enfrentamento aos países do Eixo. Com essa política, os EUA emergem como os grandes vencedores da segunda guerra – ainda que os que realemente derrotatam os nazistas tenham sido os soviéticos. Mas, ao venderem ao mundo essa mentira os EUA consolidam, enfim, sua prática imperialista, sustentando durante anos a chamada “guerra fria” com a União Soviética, na polarização capitalismo x socialismo. “As relações dos Estados Unidos com a América Latina sempre foram militarizadas, e sempre buscaram vantagens econômicas e políticas apenas para os Estados Unidos”, diz Rampinelli.

Com o passar do tempo, o fim da União Soviética abriu espaço para que o capital estadunidense fosse ampliando seus tentáculos, saindo da vizinhança (América Latina) e se expandindo para o mundo todo.

Como é da natureza do sistema capitalista ser insaciável e incontrolável, acumulando e expandindo, tem sido necessário, por parte dos EUA, convencer o seu povo de que o país tem mesmo um “destino manifesto”, sendo, portanto, “natural” se apropriar de outros territórios no planeta para expansão do capital, que vai reverter em benefícios para os estadunidenses. Essa também é uma boa mentira, que assume o caráter de verdade, inclusive dentro dos EUA. Na verdade, os benefícios são apenas para os capitalistas. Os trabalhadores seguem sendo explorados. De qualquer forma, essa expansão alucinada vai agora precisar de outra doutrina, e quem vai explicitar essa quinta doutrina estadunidense, na atualidade valendo para o mundo todo , é o jornalista francês Thierry Meyssan.

Meyssan tem defendido que hoje o pensamento estratégico dos Estados Unidos, para manter seu poder sobre o mundo, obedece à outra lógica. Não mais a mera dominação econômica através da política, dos acordos, dos tratados, geralmente fechados no campo da legalidade, ainda que se possa questionar essa dita legalidade. Essa nova doutrina já começa a se esboçar a partir do desmonte da União Soviética, o fim da guerra fria, e o começo de uma era unilateral, quando os Estados Unidos buscaram intimidar todos os governos que resistiam ao seu controle através do domínio econômico/militar. Naomi Klein chama esse modelo de “doutrina do choque”, que é a tática de chegar, destruir um país inteiro e depois reconstruir, ajudando assim a indústria e o capital estadunidense, que tanto fornece o material para a guerra quanto para a reconstrução.

Mas, depois do atentado de 11 de setembro de 2001, aquilo que aparecia como doutrina de choque, usada para um país de cada vez, foi se consolidando na doutrina da “dominância do espectro completo”, como nomina Thierry Meyssan. Essa lógica é a que permite aos Estados Unidos criar e liderar várias guerras ao mesmo tempo, estabelecendo o domínio completo, não apenas sobre um único país, mas sobre uma região inteira.  Tanto que as guerras do Afeganistão e do Iraque foram dirigidas por um único comando. Durante o governo de Barak Obama, afirma Thierry, foi organizado o maior sistema de sequestro e tortura internacional que matou mais de 80 mil pessoas, bem como um sistema de assassinato por drones operando em 80 países com um orçamento de 14 bilhões de dólares. Isso extrapola todas as demais doutrinas, que operavam com mais força na América Latina.

Essa doutrina se expressou também, de maneira bastante eficaz, na chamada “primavera árabe”, quando os Estados Unidos se aproveitaram dos levantamentos rebeldes acontecidos no interior dos países árabes, e aprofundaram o caos na região inteira. Para essa doutrina de “dominância do espectro completo” a fórmula é manter os países no caos, em conflito permanente, inclusive com guerras civis, internas, fomentadas pelos EUA, e que ajudam o capital na medida em que impedem a união e a resistência por parte da classe trabalhadora. Pode-se observar isso no Afeganistão, no Iraque, Tunísia, Líbia, Palestina, Líbano, Síria, Iêmem, Turquia, Haiti e Ucrânia. Mesmo com a ocupação das tropas estadunidenses ou de seus aliados, como Israel, o caos nunca termina, a guerra não para. Tudo isso para manter as regiões em permanente tensão e, é claro, sob o domínio dos EUA. Nenhuma das guerras iniciadas terminou, o Oriente Médio segue queimando, diz Thierry. Segundo ele, os Estados Unidos não pretende trazer nada de bom para os povos dominados, pelo contrário, a proposta é destruir todos os vínculos sociais regionais, aprofundando o separatismo e o ódio mútuo. Dividir para governar, sempre. Por isso também essa tática de criar as famosas “resistências”, como o Estado Islâmico, por exemplo, que são financiados pelos EUA, dando a impressão de que o país do Tio Sam não está envolvido no conflito, que a guerra é interna. Mas, é tudo jogo de cena. Os EUA estão por trás de tudo.

Considerando o nosso território latino-americano, é bem provável que os Estados Unidos estejam querendo aplicar por aqui a sua nova doutrina, que Thierry aponta como sendo a expressão do “neo-imperialismo”. E a porta de entrada, como já alertou a professora mexicana Ana Esther Ceceña pode ser a Venezuela. Todos os dias ouvem-se notícias sobre as ameaças de Donald Trump contra o que ele chama de “ditadura” de Maduro. E, nesse meio tempo, os EUA vão financiando a oposição, incçlusive para ações violentas como as “guarimbas”. São os primeiros passos da doutrina: criar a divisão interna, aprofundar as animosidades com o país escolhido e exigir lealdado dos demais países da região. Assim, o que se anuncia é a possibilidade de uma invasão militar na Venezuela com o intuito de trazer o caos (guerras internas e externas) para a América Latina. E, seguindo a lógica da doutrina, o segundo passo será manter o caos, espalhando-o para os países vizinhos, colocando toda a região em conflito permanente, fomentando ideias separatistas, ódios raciais e religiosos. Assim, os EUA podem aparecer como os salvadores da pátria, trazendo a proteção. Mas, não nos enganemos, tal como no Oriente Médio, a proteção será apenas para os recursos naturais. Melhor dizendo, para os que estiverem explorando os recursos naturais, que serão então  apropriados pelos EUA.

Esse é cenário geopolítico apontado pelos especialistas em análise internacional. E os prognósticos para a América Latina não são bons. Sem o conflito na Colômbia, que agora tenta avançar para um processo de paz, a Venezuela passa a ser o alvo mais provável. O México, por conta de seu triste destino de estar tão próximo do império, se esfacela no caos da violência interna, gerada pelo narcotráfico que abastece os EUA, e pela submissão política dos dirigentes. Lá, as coisas estão controladas, no ponto de vista dos Estados Unidos.

Mas, conforme aponta Danilo Carneiro, do Tortura Nunca Mais, um estudioso da geopolítica mundial, há um elemento aí que raramente é apontado pelos analistas: as coisas não estão dadas como algo inelutável, todo esse avanço do capital, a partir de seu braço mais competitivo que são os Estados Unidos, não acontece sem resistência, afinal a luta de classes é intrínseca ao capitalismo. Os Estados Unidos criam suas doutrinas, mas suas aplicações nunca são serenas. Sempre houve, há e haverá luta. Porque a classe trabalhadora sabe que as propostas imperialistas sempre são para aplastar a maioria e aprofundar a exploração praticada pelo capital. Thierry Meyssan mostra que a Síria, por exemplo, está conseguindo enfrentar o ataque violento dos EUA com a articulação da classe trabalhadora, que, unificada nas diferenças com o presidente Assad, tem enfrentado o inimigo maior, sem esquecer das divergências internas. Não bastasse isso, o tempo de dominação do pensamento único acabou. Rússia, China, Irã, Coréia do Norte conformam renovadas forças anti-EUA e podem colocar entraves ao projeto estadunidense.  As peças do tabuleiro mundial seguem se movendo, a história não é estanque.

A América Latina deve ficar atenta a esses movimentos no Oriente, pois eles apontam formas de resistência. Então, cabe aos movimentos sociais e aos partidos políticos comprometidos com a classe trabalhadora e com a proposta da grande pátria, conhecer os perigos que se avizinham e atuar em consequência. Ainda que cada uma das doutrinas lançadas e executadas pelos Estados Unidos tenham causado grandes estragos, sempre houve luta contra elas e algumas resultaram em grandes vitórias. Ou seja, o destino não é manifesto. Ele pode ser mudado pela força da luta!

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Autora

Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.