ONU joga para a platéia

A ONU historicamente sempre tem se comportado como um braço longo do imperialismo estadunidense e os países ficam por lá porque entendem que é sempre possível fazer uma batalha por dentro do monstro.

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A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas suspendeu a Rússia do Conselho de Direitos Humanos. O motivo foi o chamado massacre de Bucha, que Moscou nega alegando que foi um episódio armado pela Ucrânia. Mas, mesmo sem se levar a cabo uma investigação segura, a Rússia já foi julgada sumariamente. E, a punição foi o banimento do Conselho. Foram 93 países a favor, 24 contra e 58 abstenções. Há denúncias de que o texto não foi discutido previamente e que, é claro, a votação aconteceu sob intensa pressão dos Estados Unidos. Ou seja, é mais ou menos como acontece nas nossas Câmaras de Vereadores: ninguém leu nada, mas vota porque o prefeito mandou. Nenhuma novidade, portanto.

Ora, a ONU, historicamente, tem sido absolutamente omissa com relação aos crimes dos Estados Unidos e nem mesmo depois que a verdade aparece, como foi o caso do Iraque, quando os EUA anunciaram aos quatro ventos de havia armas químicas por lá e por isso o destruíram, o país do Tio Sam recebe qualquer sanção. Os EUA podem tudo, mas seus adversários são sempre julgados com rigor.

Para quem tem memória curta é bom lembrar que esse mesmo organismo suspendeu a Líbia em 2011 também sob alegações de que lá, Muammar Kadafi cometia um sem fim de violências contra a população. E na esteira disso os EUA promoveram a “primavera árabe”  e garantiram que Kadafi fosse assassinado e arrastado pelas ruas. Com isso destruíram a Líbia – um país não alinhado e afeito ao nacionalismo árabe  – que até hoje não conseguiu sair do atoleiro.

A ONU historicamente sempre tem se comportado como um braço longo do imperialismo estadunidense e os países ficam por lá porque entendem que é sempre possível fazer uma batalha por dentro do monstro, denunciando os dois pesos e duas medidas que conformam as decisões. De qualquer sorte, as decisões do órgão que são tomadas contra nações amigas dos EUA nunca são ouvidas e sequer noticiadas com ênfase. Já, agora, com toda a mídia comercial assumindo as relações públicas da OTAN, a medida repercutiu tremendamente.

Um exemplo próximo de nós é o dos povos indígenas, que sistematicamente têm denunciado sobre a violação dos direitos humanos no Brasil no que diz respeito às etnias e aos territórios. E o que passou? O Brasil foi escolhido para integrar o Conselho de Direitos Humanos. Não parece estranho?

Cuba é um país não alinhado que faz parte desse Conselho, votou contra a resolução de suspensão da Rússia e ainda tem advertido os demais países sobre esse ato que pode se tornar corriqueiro, servindo de moeda de troca dos Estados Unidos com os demais países. Hoje é a Rússia, amanhã pode ser qualquer país que se apresente não alinhado. Para os diplomatas cubanos, o conselho deveria ser um espaço capaz de enfrentar os complexos desafios apresentados pela comunidade internacional nessa área encontrando saídas e não simplesmente aplicando sanções.

O embaixador cubano, no seu discurso, questionou: “esta Assembleia alguma vez poderá aprovar uma resolução suspendendo a participação dos Estados Unidos no Conselho de Direitos Humanos? Todos nós sabemos que isto não aconteceu e não acontecerá, apesar de suas flagrantes e maciças violações dos direitos humanos”.

O fato é que agora, não adianta querer discutir os crimes estadunidenses. Ao fazê-lo, a maioria das pessoas, já contaminada pelo discurso da mídia servil, só quer saber de julgar o que a mídia mostra. E o que a mídia mostra são os crimes de guerra na Ucrânia. Os demais podem seguir, já que não estão na tela da TV.

Para os que não se movem desde a opinião dos poderosos de plantão, os crimes de guerra devem ser julgados, todos. Com apresentação das provas, com a investigação qualificada. Fosse assim, Israel já estaria pagando por seus crimes contra os palestinos, ou os Estados Unidos pelo que fez no Iraque, só para ficarmos em dois exemplos.

Mas, ao contrário. Quem está preso e morrendo aos poucos pela tortura é o jornalista Julian Assange, que ousou denunciar – com provas cabais  – os horrores estadunidenses. Para Assange não se vê qualquer manifestação do Conselho da ONU. Ele está prestes a ser extraditado para os Estados Unidos como se fosse um criminoso de guerra, um espião. Uma situação para lá de bizarra que aparece como normal.

De qualquer forma isso não é surpresa. A lógica dos organismos que foram criados no pós-guerra é essa mesma: fortalecer sempre o poder do império estadunidense, sob quaisquer circunstâncias.  Todo cuidado com os amigos e toda a força da lei para os inimigos. Provas? Investigação? Justiça? Não, isso não é necessário. Se o «rei» falou, tá falado.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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