O universo paralelo do fanatismo

Alguém sobe num carro e fala ao povo: “Temos a informação de que o exército tem provas da fraude nas eleições”. Gritaria geral, palmas, rezas e lágrimas. As pessoas acreditam piamente em tudo que qualquer um diz ao microfone.

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Quem entra num grupo de discussão bolsonarista se depara com um torvelinho de alucinações. As mensagens que chegam tratam dos temas mais esdrúxulos. Há alertas sobre alienígenas do bem que estão na terra para guiar os humanos para a luz. Há denúncias contra o Papa Francisco, que seria pedófilo e comedor de fetos. Há denúncias contra Obama que seria responsável pelo tráfico de crianças. Há mensagens motivacionais com o nome de Jesus. Há denúncias de satanismo praticado por gente de esquerda. Há teorias de que figuras como John Kennedy Júnior estaria vivo e pronto para assumir a presidência dos Estados Unidos, bem como estariam vivos também a Princesa Diana, Elvis Presley e Michael Jackson. Também há a teoria dos clones segundo a qual vários governantes mundiais já estariam mortos e no seu lugar estariam clones, como era o caso da Rainha Elisabeth e agora do presidente Putin.

O grupo acolhe canais no Youtube de figuras absolutamente alucinadas como é o caso de um rapaz chamado Luciano Cesa. Ele, que se diz “artista musical” e discípulo do Senhor Deus, fala com tamanha propriedade sobre essas teorias todas, como se verdades absolutas fossem. E faz previsões e prognósticos verdadeiramente delirantes. A criatura tem mais de 300 mil seguidores. Durante a operação da Nasa para mudar a rota de um asteroide, ele divulgava que o Asteroide iria cair sobre a terra e que havia uma luta desesperada dos Estados Unidos para impedir isso. Orientava as pessoas a fazerem estoque de alimentos e aguardarem em casa o desfecho, pois podia dar errado e o mundo ser destruído. E pasmem. As pessoas viveram aquele episódio aterrorizadas, mandando mensagens, chamando filhos e pais para perto, porque tudo podia se acabar. E faziam estoques de comida.

Agora, durante as eleições, anunciavam a vitória estrondosa de Bolsonaro porque deus estava no comando. Quando os números começaram a virar, as mensagens que chegavam eram de que o Exército Brasileiro estava interceptando estradas digitais que vinham dos Estados Unidos, com hackers de esquerda tentando fraudar os resultados. E as mensagens vinham com gráficos e tudo mais. Também parece que estava havendo alguma interferência de alienígenas do mal.

Então, vencidas as eleições pelo satanismo do PT as mensagens que circulam são de que é preciso ir para a rua para fazer valer o artigo 145 da Constituição, que segundo eles, autoriza as Forças Armadas a tomar o poder. São milhares de mensagens chegando e circulando numa velocidade estonteante. Como os bloqueios foram desarticulados, começaram a surgir áudios dos filhos de Bolsonaro (verdadeiros ou não, não se sabe) orientando o pessoal a se reunir em frente aos quarteis. Segundo os áudios não é para falar em Bolsonaro, apenas pedir a “intervenção federal”.  Por quê? Ninguém sabe ao certo. O argumento é que o Lula é ladrão e satânico e por isso tem de ser impedido de chegar à presidência.

Assim, nesta quarta-feira de Finados, lá foi a turba para frente dos quartéis. Em alguns lugares o número foi expressivo, mas na maioria o grupo foi pequeno. Nos atos as  cenas são delirantes. Alguém sobe num carro e fala ao povo: “Temos a informação de que o exército tem provas da fraude nas eleições”. Gritaria geral, palmas, rezas e lágrimas. As pessoas acreditam piamente em tudo que qualquer um diz ao microfone. Em outra manifestação alguém anuncia que o ministro Alexandre de Moraes acabou de ser preso. De novo, a histeria, os gritos, lágrimas e palmas. São informações absolutamente mentirosas que apenas servem para manter o grupo unido e em ação.

A fala do presidente Bolsonaro, que não reconhece a eleição nem a vitória de Lula, é interpretada como um apoio seguro aos atos anti-Constituição. E todos seguem firmes. A segunda fala do presidente, vestido de camiseta à moda Zelenski, pedindo que eles saiam das estradas, também foi interpretada como falsa. Os gurus dos grupos dizem que aquele que falou é um clone, que Bolsonaro está preso, sendo obrigado a falar o que “eles” querem.

A última agora é a chamada para matar o presidente eleito. Como nada deu certo, a única coisa que resta é eliminar o Lula para que ele não assuma. Até mesmo o famoso piloto de Fórmula 1, Nelson Piquet, esteve nos atos golpistas e declarou que quer ver Lula no cemitério. E a considerar o nível de alienação das pessoas que estão hipnotizadas por essa enxurrada de absurdos é preciso ficar bem alerta. Porque certamente não faltará quem decida cumprir a tarefa.

Tudo isso acontece sob o beneplácito do judiciário, bem como de parte da polícia militar. Durante os bloqueios policiais ajudaram a romper cercas, fizeram continência para os golpistas e deram proteção. Sob o argumento da liberdade de expressão essas figuras grotescas que disseminam mentiras seguem pregando e incitando os grupos.

Passado o feriado provavelmente os atos em frente aos quarteis escasseiem, mas a incitação à violência e à morte segue firme nos grupos e nos uatizapis familiares. Mesmo que tudo siga aparentemente normal no país, os ataques pontuais seguirão. Ontem, em Porto Alegre, um grupo de teatro infantil foi impedido de se apresentar por conta de uma ação violenta que destruiu o palco enquanto as crianças choravam em desespero. E por aí vai. Caso não haja uma ação efetiva por parte do judiciário isso não vai parar e qualquer um que não esteja com Bolsonaro é inimigo mortal. Na hora a pessoa vira petista, satânico, pedófilo, traficante de crianças, comedor de fetos e aliado dos alienígenas do mal. Logo, alvos.

Os tempos são turvos.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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