O tempo dos maus? Onde estás felicidade

O mundo capitalista alfabetiza os seres humanos, desde a tenra idade, para a competição, o individualismo, o egoísmo.

tempo dos maus
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A morte de um mendigo numa padaria em São Paulo – ao qual, antes, foi negada ajuda – e que, depois, teve seu corpo coberto por um plástico, enquanto a vida no entorno seguia sem atropelos provocou muitos comentários nas redes sociais sobre a falta de generosidade das pessoas. Há que falar sobre isso.

Frequentemente ouvimos que estamos vivendo o pior dos mundos, que nunca houve gente tão ruim ou descabeçada. Não é verdade. Esse tipo de gente sempre existiu em todos os tempos. Cada tempo tem sua cota de maldade, de terror, de medo. Basta a gente pensar como seria, sendo pobre, trabalhador ou mulher, viver no século 16 ou 17, por exemplo, no Brasil? Ou na Idade Média, na Europa? Ou no Império Romano? Ou em Bagdá, no século III? Ou no Egito antigo? Ou na Mongólia? Ou na China imperial?

Esse não é o pior dos tempos. É o nosso tempo. E nesse tempo, a tecnologia possível nos permite, inclusive, saber o que acontece em cada canto desse planeta. É o que torna os terrores ainda maiores, porque são mais visíveis.

E assim como temos de analisar porque nos tempos passados foi possível tanta maldade humana, há que refletir porque hoje é assim. Maldade, indiferença, ódio. Não creio que haja uma explicação antropológica, mas sim uma explicação social. É o tipo de sociedade que existe que faz com essas pessoas possam se expressar e se manifestar. Quais as forças dominam a sociedade em cada época? Esse é o tema.

Falando sobre o nosso tempo há que observar que o mundo capitalista alfabetiza os seres humanos, desde a tenra idade, para a competição, o individualismo, o egoísmo. Há que vencer o outro. Há que eliminar o outro. Há que disputar. Não se ensina solidariedade, cooperação, empatia. Isso é coisa de um grupo muito pequeno de pessoas que foge da caixa. A regra é olhar para o que está do nosso lado com absoluta indiferença sobre seu destino. Que se lasque. É por isso que a maioria não liga para um mendigo doente, um corpo no chão. Não há ali uma maldade intrínseca. Há um aprendizado social.

Não sem razão que propostas sociais como o anarquismo e o comunismo são tão combatidas. Porque essas são formas de organizar a sociedade que escapam da lógica de dominação de uma minoria sobre a maioria. São propostas que, demarcadas suas diferenças, tem como elementos centrais a lógica da cooperação. Ou seja, não se compete, a proposta é atuar junto para que todos desfrutem da vida à larga. É justamente por isso que nesse tempo, de capitalismo tardio, a ideia de comunismo precisa ser demonizada. Imaginem as pessoas compreendendo o que seja isso? Imagina viver sem precisar destruir o outro? Viver sem ser explorado? Viver sem fome? Viver com acesso à terra, à moradia? Não. Isso impede a sociedade de avançar, dizem. É coisa do demônio.

A ideologia obscurece a verdade. A mentira assume o status de verdade. E as pessoas, ensinadas desde o berço, acabam acreditando que se trabalharem muito poderão vencer na vida. E para isso, há que ir derrubando qualquer um que cruze o caminho. A sociedade do mérito, que é uma falácia.

Então, antes de clamar aos céus sobre o tamanho da maldade no mundo, há que construir escolas de solidariedade, da prática do comum. Escolas não formais, é claro. Mas, escolas na vida, nos bairros, nas igrejas, nos partidos políticos, nos movimentos sociais. Há que alfabetizar para o bem-viver. Isso não brota do nada, muito menos da nossa vontade. É uma prática política. E que não pode ficar relegada a guetos, a ações pontuais. Precisa ser massiva e organizada. Precisa negar o capitalismo. Precisa ser uma força de destruição do que aí está. Não pode ser uma prática de convivência. É de destruição da forma social capitalista. Sem isso, seguiremos com nossas lágrimas.

A felicidade é uma construção social e coletiva. A felicidade é o horizonte do comum. Não vai existir no capitalismo. Não vai.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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