O que significa Ser Humano no atual tempo de complexidade do Covid-19 que testa os sistemas da modernidade?

Por uma reflexão sobre quem somos e quem estamos sendo nesses tempos que avizinham-se …

complexidade do Covid-19
complexidade do Covid-19

De acordo com o dicionário brasileiro Aurélio, o adjetivo humano refere-se ao homem (e venhamos e convenhamos que essa é uma abordagem de alta voltagem androcêntrica), ao indivíduo favorecido de inteligência e articulação de linguagem; aquilo que é inerente e concernente à espécie humana; próprio -e portanto- o que diferencia o homem das demais espécies; aquilo que o homem tornou maior e mais forte, fez crescer … Também abrange o significado de bondoso; aquele que sente um amor respeitoso e pratica atos piedosos inspirados nesse sentimento, aquele que tem compaixão, e assim, condói-se, infunde-se de tristeza e comove-se diante da tragédia e do sofrimento alheio. Misericordioso.

Bem, talvez essa significação tenha azedado a si mesma ou talvez tenha sido azedada. Ela já não se sustenta. Encontra-se em detenção. Pendurada na corda bamba que resolveu amarrar de um lado para o outro. Está insulada. Fragmentada. Dicotomizada. Hierarquizada. Está substancialmente e visceralmente modificada. Subsiste em condição de assimetria no que tange todos os seres viventes. Nesse sentido, vale estabelecer uma ligação com o pensamento do ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas e doutor honoris causa pela Universidade de Juiz de Fora, Ailton Krenak: “Consolidaram esse pacote que é chamado de humanidade, que vai sendo descolada de uma maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos.”

Aliás, tal denominação de humano enquanto restrita ao gênero masculino, já fora administrada equivocadamente, pois dispara epistemologicamente e ontologicamente a “poção” solúvel, inflamável e explosiva do enxofre, do carvão e do salitre, ou seja, a pólvora. O que se pretende aqui dizer é que uma ideia é ao mesmo tempo uma ação e uma ação sempre possui desdobramentos. Neste caso, converte-se em um ato de exclusão, de universalização e de invisibilização porque desconsidera e rejeita os terrenos gnosiológicos, psíquicos e das geografias cognitivas e imagéticas da pluralidade genealógica da cartografia global, como por exemplo as etnias dos femininos e do pueril.

Sendo assim, a concepção de humano urge para ser revista. Revisitada. Parece que a pandemia global Covid-19 é um convite a essa reflexão analítica-empírica. Tragicamente, ela parece ofertar um átomo de tempo kairótico para que haja um desadormecer, e portanto, para que façamos as perguntas certas já que a vida aparentemente se mostra mais suleada por indagações do que respostas. Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos, ao problematizar a história do Barba Azul, menciona que a interrogação certa estimula a germinação da consciência. Então, que possamos fazer as perguntas certas porque enquanto formos coagidos a acreditarmos que o humano refere-se ao homem (e sem mencionar a complexidade racial aqui), que somos indefesos e domesticados a não registrar no consciente aquilo que já sabemos há tempos ser verdade, os impulsos e dons de uma humanidade verdadeiramente solícita, bondosa e que se deixa afetar pelo sofrimento da outra/do outro permanecerão soterrados na erradicação.

Neste momento, trata-se da sobrevivência da vida planetária e não somente dos povos considerados periféricos como os indígenas, os afrodescendentes, os imigrantes, etc cujas vidas sempre estiveram à beira do abismo existencial, “tomara que, depois de tudo isso, não voltemos à chamada ‘normalidade,’ pois se voltarmos é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro. Aí, sim, teremos provado de que a humanidade é uma mentira.” (Krenak, 2020). À propósito, essa fala de Krenak pode ser entretramada à fala de Marx José Goméz Liendo no seu artigo Pensar la Pandemia de Iberoamérica Social, “volver a la ‘normalidad’, salir de esta ‘contingencia’, es el anhelo y la nostalgia de clases y grupos sociales socio-económicamente acomodados. Para las clases y grupos sociales depauperados, la ‘normalidad’ es una ‘contingencia extendida’. Es vivir al día, es cobrar un ingreso por hora, es evitar no enfermarse. Son migraciones y vejaciones; duelos y dolores a distancia; rabias y resentimientos. En suma, la existencia pendiendo de un hilo.” (Gómez, 2020).

A naturalização de uma sub-humanidade há muito tempo já em curso, vem impondo miséria, marchas migratórias com a cisão internacional e estratificação racial do trabalho, padrões de extrativismo, colonialismos endógenos, deslocamentos habitacionais, apetites geopolíticos, posses imperiais, diasporizações, e ações sistematizadas de racialização, subordinação, abusos e mortes intrapsíquicas. O vislumbre de uma saída perante esse espaço-tempo labiríntico parece turvo e nublado. A atual crise civilizatória parece mostrar uma face pessimista que exprime a não-chance dela libertar-se.  Contudo, sempre ou quase sempre há o que fazer. Há de se fazer uma escolha. Há de se des-(auto)hipertrofiar a consciência. Como diria Clarice Lispector, “(…) eu que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero também a inconsequência. Liberdade? é o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo” (2008, p.16). Contraditoriamente, Fiódor Dostoiévski em seu livro Memórias do Subsolo, nada tem de melífluo quando o assunto é sofrimento. Para ele, o homem (bem, ele reafirma o androcentrismo) pode vir a amar o sofrimento e com paixão! Isso para Dostoiévski um fato é. Esse sofrimento é dúvida, é refusão, é autêntico e sinônimo de aniquilamento, obscuridade e transtorno. “(…) poderemos espancar a nós mesmos, de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada.” (2009, p. 48).

Se ser humano é ser misericordioso, piedoso e bondoso, onde foram parar todas essas atribuições supostamente características do humano? Porque dentro do humano é que elas não estão! Não é uma generalização porque aí o perigo reside. Felizmente há pessoas muito próximas da definição de humanidade do dicionário Aurélio. Além do mais, não se limitam a um contorno semântico. Ao contrário, a ele transbordam. Fluem e confluem. Revoluciomam (se). Preocupam-se com a própria sobrevivência e com a sobrevivência daqueles que o circundam e que muitas vezes nem conhecem. Nem nunca olharam nos olhos nem ouviram qualquer pronúncia. Tem forte sentimento de pertença e de comunidade. Afinal, “la solidaridad consistente en guardar distancias mutuas no es una solidaridad que permita soñar con una sociedad distinta, más pacífica, más justa. No podemos dejar la revolución en manos del virus. Confiemos en que tras el virus venga una revolución humana. Somos NOSOTROS, PERSONAS dotadas de RAZÓN, quienes tenemos que repensar y restringir radicalmente el capitalismo destructivo, y también nuestra ilimitada y destructiva movilidad, para salvarnos a nosotros, para salvar el clima y nuestro bello planeta.” (Byung-Chul Han, 2020).

Enfim, pode-se dizer, ainda que inesgotavelmente, que ser humano compreende a busca incansável de contrapor-se e reagir à morte do mundo da Outra/do Outro, de cultivar a plausibilidade da generosidade e de nos abrirmos ao magnetismo do amor para irmos muito além das fracionadas hierarquias naturalizadas. (Torres, 2008).

Movimentar-se diante da iminência de morte e da desrazão parece ser um desejo e também uma necessidade intrínseca do humano/da humana. Aparentemente, queremos ser “salvos” e/ou “salvar” defronte um mundo antiutópico, distópico e/ou de utopia negativa. Todas e todos damos a impressão de ansiar por uma sensação de segurança e integridade considerando os seus sentidos mais amplos. Sem querer ser demasiadamente categórica, pensando que contra um fato provavelmente não há argumento e que quem co-cria tal fato é o humano (pelo menos a maioria deles), somos totalmente responsáveis pelo que acontece em nossas vidas. Ainda que miremos nas contingências transbordantes que sob nosso controle não estão, ainda assim, o que fazemos com o que sob nossa supervisão está? A vida grita, esperneia e persiste. E é assim que deve ser. Sempre.

Referências

Dostoiévski, Fiódor (2009). Memórias do Subsolo. São Paulo: Editora 34.

Han, Byung-Chul (2020). Virus, Bigdata Y Biopolítica. Disponível em: contranarrativas.org

Krenak, Ailton (2020). “O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise.” Jornal Estado de Minas.

Gómez Liendo, Marx José (2020). “Pensar la Pandemia.” Revista Iberoamérica Social.

Lispector, Clarice (1978). Água viva. RJ: Nova Fronteira.

Pinkola, E. C. (2014). Mulheres que Correm com os Lobos. Rio de Janeiro: Rocco.

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Pedagoga. Coordenadora. Mestranda em Educação. Feminista Decolonial e antirracista. Escritora. Apresentadora no portal de notícias com tv web integrada.

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