O que significa América Latina para os latino-americanos?

LatinoAmérica Desde Adentro e a construção de uma América profunda

O que significa América Latina para os latino-americanos?

Larissa Mehl.
Cursando Mestrado en Estudos Latinoamericanos, pela Universidad del Cuyo.
Criadora e Facilitadora do projecto LatinoAmérica Desde Adentro.
larissamehl.contato@gmail.com

 

Para se falar de uma cultura latino-americana, é necessário, antes de tudo, entender o que é América Latina. Uma região territorial? Uma área com línguas em comum? Uma herança histórica? Étnica? Será que o significado desse termo é o mesmo em todos os lugares que ele pode abarcar? Para Canclini, América Latina “mais do que uma identidade (pode ser) uma tarefa” (Canclini, 2008, p. 39). Mas uma tarefa para conseguir o que? Possivelmente construir um caminho conjunto, porque pensar o que significa ser parte desse imaginário e o que se pode alcançar com ele, possibilita dá-lo novos significados. Para trabalhar com essa tarefa, foi criado o projeto itinerante “LatinoAmérica Desde Adentro”, que desde 2015 realiza oficinas e apresentações musicais ao redor de todas latitudes, refletindo sobre o que significa ser latino-americano. O projeto já foi realizado em nove países da América Latina, desde a América do Sul até o México.

Nessa tentativa de pensar e entender coletivamente qual é o significado de ser latino-americano, que para o projeto foi criada a oficina “O que é América Latina? – transformando um conceito em realidade”. Já foram realizadas 25 oficinas em diversos países, contando com participantes de todas as camadas sociais – desde estudantes, músicos, mineiros, trabalhadores de uma fábrica de queijo, viajantes, entre outros. Gente dos Andes, do Caribe, das praias, do sul frio e úmido do Chile, de quebradas secas e de grandes cidades, como: Santiago e Cidade do México. A faixa etária da maioria dos participantes foi na casa dos vinte anos, mas também contamos com uma lúdica participação de crianças, e também, às vezes, de adolescentes e pessoas quase no final de sua fase adulta. Portanto, podemos atestar uma grande diversidade dentre os participantes.

O objetivo dessa oficina, desde o começo, foi de fazer as pessoas refletirem mais profundamente, sobre o que é (e pode ser) América Latina, uma vez que muitas vezes, se emprega esse termo em vários tipos de colocações, as vezes de maneira contraditória e as vezes, desde um olhar superficial. Incitar os participantes a refletirem suas próprias definições (imaginários) e contrastar com a visão dos demais, poderiam trazer claridade ás suas percepções e gerar um olhar mais profundo sobre a região.

No começo, sem nenhum tipo de influência, as pessoas são convidadas a colocar em um papel o que elas consideram América Latina. Uns colocam em tópicos, outros em forma de desenho, outros em frases. Dentre as respostas, encontramos definições básicas e fáceis de serem desconstruídas, como afirmar que a região é um composto de países que falam línguas derivadas do latim. Porém, também pudemos encontrar muitas visões que podem trazer novas perspectivas e enriquecimentos, de como analisamos a região. Abaixo podemos encontrar algumas dessas visões, recopiladas durante as oficinas:

 

RESPOSTAS DA PERGUNTA: PARA VOCÊ, O QUE É AMÉRICA LATINA? (Primeira etapa do projeto)

“América Latina é: Alegria e sorriso no rosto independente da ocasião, é ancestralidade e valor aos antepassados. / Um território amplo e diverso de cultura, de pessoas. Gente que luta pelo que acredita e batalha todo dia, honra os compromissos e preza pela família e pelo carinho”. Fernanda Bueno (Curitiba – Brasil).

“América Latina soy yo, las montañas, la fauna, el agua, la flora y mi sangre”. Jhonny Quispe Ayara (Potosí – Bolívia).

“Vida – dolor. Mixtura de sabores, colores y culturas. Sincretismos, colonización cultural y resistencia”. Consuelo (Santiago – Chile).

“Para nosotros LATINOAMERICA es la unión de las distintas razas, culturas, lenguas y etnias. Son los hermanos reunidos en un territorio bendecido por los dioses”. Paola Flores y Joaquin Toconas (Humahuaca – Argentina).

“Un espacio barroco, yuxtapuesto, sincretizado que resiste, una risa con llanto, un territorio lleno de existencias con un pasado cultural común”. Paola (Quito  –  Equador).

“América – una mixtura.  Un cuerpo/ arte/ antiguo/presente/creación/ historia. Ritmo, Color, Sabor” . Daniela Troncoso Vargas (Valdivia – Chile).

“Un paraíso que no entendemos”. Blanca Chávez (Bogotá – Colombia).

“América Latina es un territorio en disputa por las diversidades, las etnicidades, las identidades nacionales, los estados naciones, las compañías internacionales. Burlar las fronteras, los espacios y estados de confort se vuelve crucial para crear una nueva identidad latinoamericana y la forma para conseguirlo a un nivel micro es compartiendo experiencias, vivencias y saberes que nos permitan vivir la alteridad”. Miguel Barreiros (Quito – Equador).

“Son nuestras costumbres, nuestras raíces, nuestras lenguas con culturas, nuestras mismas problemáticas, aspectos culturales, históricos, hombres/mujeres corazón, espiritualidad, diversidad, mestizaje”. Rosa Mo Mendez (Ciudad de México – México).

“A pues son los continentes que forman parte del centro y sur de toda América. También son los lugares que producen más, pero que no reciben lo que se merecen al producir. Es donde vivimos y convivimos, pero sentimos felices, aunque tengamos poco y hagamos demasiado. América Latina: El lugar en donde sin un centavo, te siente un hombre de éxito”. Oscar Vásquez Martínez (Oaxaca – México).

“Imposição pelo que vem de fora e busca pelo que vem de dentro; agricultura; Amazônia; saberes tradicionais e saberes femininos; astrologia; maia; Pachamama ; comida afetiva e caseira; coexistência; língua espanhola; biodiversidade; diversidade étnica; ouro, prata, cobre;  arte primitiva; habitat natural; grande nação indígena; representatividade, afetividade e empatia”. Eduarda Guimarães (Curitiba – Brasil).

“América Latina: múltiples formas de ser, de hacer una idea de unidad que por una misma razón no se logra cuajar”. André Vigil (Lima – Perú).

 

Nessas respostas, que terminam por delinear imaginários latino-americanos, podemos encontrar muitas referências a sentimentos (como alegria e resiliência), percepções históricas (desde ancestralidade até consciência da colonização), natureza (muitas associações com montanha), desigualdades e injustiça, mestiçagem e diversidade, e a região como um espaço de intensa atividade e potencial cultural (gastronomia, música, cores, danças).  Às vezes, pudemos perceber respostas, de alguma maneira, mais aplicadas (derivada de estudantes universitários), e também visões mais poéticas, poderíamos dizer até influenciadas por um realismo mágico. Com o tempo, percebemos que essas definições recopiladas podem ser analisadas em conjunto.  Assim, é interessante ver, que muitas respostas se repetem, em diferentes partes da região, e outras se diferenciam, se tornando reflexo da realidade de quem a compõe e do seu entorno.

Ainda mais bonito do que recopilar esses conceitos, foi ver durante a oficina, nos pontos de vista – as contradições, ressentimentos e inconscientes em relação a esse tema, saindo à luz nas discussões. Situações marcantes como em Potosí, onde uma jovem gritou contra seus companheiros, cansada das minas e do orgulho de seus colegas pelo “Tio” (Deus das Minas) e pelo culto a Pachamama e o idioma quéchua. Sua posição foi fortemente abominada pelo resto dos participantes, mas perplexamente, havia beleza em seu expressar, que por mais que raivoso e abnegado, continha paixão, e dizia muito, de como algumas identidades são aceitas por uns, e negadas por outros. Outra situação parecida aconteceu em Humahuaca, norte argentino, onde uma adolescente confessou, durante a oficina, a vergonha que geralmente, ela e os colegas, tinham de caminhar com as mães ou as avós cholitas (mulheres vestidas com indumentária indígena). Ela parecia reconhecer aquilo com uma tristeza sincera, que fez seu professor se encher de lágrimas nos olhos. Esses dois casos, mostram mais uma faceta de ser latino-americano: a negação somada com o amor, sempre envolvido nesses processos dolorosos.

Em um primeiro momento, se buscava aprender das visões dos participantes, e depois apresentar a história do conceito e várias interações profundas que haviam na região. Depois das primeiras oficinas, se pode perceber, que os próprios participantes, depois de pensar suas visões com claridade, em muitos casos, conseguiam trazer elementos mais profundos que percebiam que conectava a América Latina, como um espaço comum.

Por isso, após debater seus imaginários, desconstruir algumas visões e relatar um pouco sobre a origem do conceito de América Latina, os participantes são convidados a fazerem seus próprios mapas latino-americanos, a partir de um mapa que contorna desde o México até o fim do continente americano. Nessa parte da atividade, pudemos encontrar até agora, muita originalidade na maneira de estruturar visões sobre a região. Um participante da cidade de Cartagena, no Chile, desenhou os Estados Unidos e Canadá junto com o mapa, porque para ele, essas regiões também tem um resgate a ser feito, que é antes americano do que latino. Em Bogotá, um participante recortou todos os países e os colou separadamente, conectando-os por linhas, ou seja, refletindo um intercâmbio entre as regiões, mesmo na fragmentação. Em Medellín, um senhor desenhou os pontos energéticos do continente, porque para ele América Latina é espiritualidade.

Com essas duas atividades, a oficina “O que é América Latina? ” tem se tornado uma ferramenta onde os participantes trocam seus saberes e vão refletindo seus imaginários, sem o objetivo de julgar suas visões, mas sim de tentar conceber uma perspectiva mais profunda, que pode contribuir para o fortalecimento do carácter intercultural das culturas latino-americanas. Nesse processo, é importante levar essa discussão para fora do âmbito acadêmico, pensando que o papel dos universitários e dos profissionais é construir o conhecimento junto com as comunidades locais. Pois essas diversidades do significado de América Latina, que se entrecruzam – em história, memória, resistência, falta de reconhecimento, violências, frutas, comida e músicas – quando direcionadas, podem facilitar a América Latina como tarefa, conectado diretamente com a proposta de pensar nossas nações e região de um modo próprio, atuando na nossa realidade. Já para os dias atuais, o latino-americano precisa estreitar seus caminhos, ajudando a refletir em conjunto diversas culturas que tem seus destinos entrelaçados devidos as suas múltiplas latino-americanidades.

Referencias

Canclini, N. Garcia. (2008). Latinoamericanos à procura de um lugar neste século. Tradução: Sérgio Molina. São Paulo: Iluminuras.

Mehl, L. (2015-2018). Definiciones de los talleres de LatinoAmérica Desde Adentro.