O Poder e a Verdade

A verdade que defendem não se produz a partir das crenças humanas. Ela é divina, por isso absoluta e, não pode ser questionada.

O Poder e a Verdade
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Bolsonaro, a verdade e o poder

Os discursos apresentados por um general da reserva, um economista, um professor da Escola de Comando e Estado Maior do Exército e um ex-senador evangélico, nomes presentes como da equipe de Bolsonaro, têm em comum, um dos elementos principais da ascensão do totalitarismo e, a fragilidade democrática do Brasil pós-eleição. O tema do Poder e da Verdade.

A verdade anunciada nas falas do general da reserva Alessio Ribeiro Souto e de Ricardo Velez Rodríguez, professor emérito da Escola de Comando e Estado Maior do Exército para o campo político da Educação e, por Paulo Guedes, para a Economia, estão sob o mesmo signo: a verdade que acompanhará todo o regime político implementado por Bolsonaro é ela, inegociável. Pois não se trata da verdade dos homens, mas, da Verdade divina de Deus, executada pelo Poder através dos homens. Por isso, a figura de Magno Malta não foi uma caricatura grotesca do aparelhamento entre Política de Estado e Religião dentro de um Estado Laico, preconizado pela Constituição de 88. Ela foi antes, a localização objetiva da interposição da Verdade e do Poder e suas formas de ação.

A verdade que defendem não se produz a partir das crenças humanas. Ela é divina, por isso absoluta e, não pode ser questionada. Por isso, a verdade não precisa agradar seus opositores. Através do poder ela é executada. E tudo e todos que não respeitam a verdade como única possibilidade ou fazem oposição, poderão ser exilados ou presos. Eliminados.

As falas são emblemáticas. Paulo Guedes, economista neoliberal formado na escola de Chicago e “guru” de Bolsonaro para o “Super Ministério da Economia”, falou para um público de jornalistas no dia 29/10/2018, portanto, um dia após o resultado das eleições. Questionado por repórteres sobre a importância de se manter as relações com o Mercosul, disse que esta não será prioridade do Governo. E para encerrar o assunto foi claro com a jornalista:

“A gente fala a verdade. A gente não tá preocupado em te agradar.”

A segunda fala é de Aléssio Ribeiro Souto, General da reserva e um dos nomes que foi cotado para o Ministério da Educação. Ele disse ao Site UOL que:

“os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados.”1https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/general-responsavel-pelo-plano-de-educacao-de-bolsonaro-defende-revisao-curricular-e-bibliografica/

E Ricardo Velez Rodrigo, indicado por Olavo de Carvalho e aceito por Jair Bolsonaro a Ministro da Educação mantém o pensamento que ferorça sua escolha:

“iniciativa da educação de gênero é uma grande estupidez da esquerda petralha, que pretende substituir o Pátrio Poder pela doutrinação gramsciana, para acabar com a família tradicional e os valores cristãos”.2https://www.cartacapital.com.br/educacao/bolsonaro-escolhe-colombiano-antipetista-para-chefiar-educacao

É na fala de Magno Malta que encontramos a exemplificação real do encontro entre Poder e Verdade. Nela, parecem agir duas motivações: A primeira, privar os eleitores de Bolsonaro da retórica de ódio e perseguição vazia do candidato eleito – aqui vale um texto apenas sobre o conteúdo vazio das falas de Bolsonaro e a aparente incapacidade de produzir idéias profundas em frases conjecturais espontâneas – salvando por fim, o próprio Bolsonaro deste trágico momento. E segundo, aparelhar o agora Poder do Estado com a Verdade Cristã Neopentecostal, consolidando promessas para com a poderosa bancada evangélica, que apesar das pautas específicas, representavam ali também, a bancada da bala e dos ruralistas.

A invocação do poder e da verdade foi utilizada desde o início da campanha de Jair Bolsonaro. Na primeira comunicação aos seus eleitores, e ao povo brasileiro, pelas redes sociais – instrumento que será muito utilizado por ele, por isso um tema que deve ser melhor debatido – após a vitória eleitoral, no dia 29/10/2018, o discurso de Jair Bolsonaro afirmava o slogan da verdade como o caminho a liberdade. Disse ele:

“Fomos em João 8:32: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’. Nós temos que nos acostumar a conviver com a verdade. Não existe outro caminho se quisermos realmente a paz e a prosperidade. A verdade tem que começar a valer dentro dos lares até o ponto mais alto, que é a presidência da república. O povo, mais que o dever, tem o direito de saber o que acontece no seu país. Graças a Deus essa verdade o povo entendeu perfeitamente.”

E, no discurso para o Jornal Nacional, da Rede Globo, do mesmo dia:

“Eu quero agradecer a todos que votaram em mim, pelo apoio e pela confiança. Agradecer pelas orações também. Afinal de contas, ao longo de quatro anos, não só durante a pré-campanha bem como a campanha, nós tivemos uma bandeira baseado numa passagem bíblica: João 8:32 ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’. Está na hora do Brasil conviver com a verdade. Então, agradeço esses que acreditaram na verdade e confiaram no meu nome nas urnas.”3https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/liberdade-e-deus-dominam-discurso-de-presidente-eleito,ab93ec41145bdd0758b6208c181d3701vdboorqg.html

E, em seu primeira comunicação oficial para jornalistas, após a fala bíblica de Magno Malta, Bolsonaro diz:

“Isso é uma promessa não de um Partido, não é a palavra vã de um homem. É um juramento a Deus. A verdade vai libertar este grande país. E a liberdade vai nos transformar em uma grande nação. A verdade foi o farol que nos guiou até aqui e que vai seguir iluminando o nosso caminho.”4https://oglobo.globo.com/brasil/leia-discurso-na-integra-do-presidente-eleito-jair-bolsonaro-psl-23194099

Nunca estivemos, enquanto nascimento da democracia brasileira, tão próximos do retorno a barbárie civilizatória imposta por regimes totalitários que outras nações historicamente já enfrentaram e que ainda vivem sob seu manto. Em comum, estas sociedades se obscurecem na perda da empatia humana quando o Poder e a Verdade se encontram. No Brasil, ela veio pelas mãos do Messias, Jair Bolsonaro.

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