O ensino e a orientação para o plágio e a auto-citação na academia

Sobre a publicação científica no Brasil

O ensino e a orientação para o plágio e a auto-citação na academia
Imagem de duas meninas que são gêmeas idênticas. Uma veste uma camisa escrito "CTRL + C" e a outra "CTRL + V".

Uma ou duas vezes por mês eu sou convidado para emitir pareceres sobre textos de terceiros para revistas científicas. Faço isso desde quando conclui um mestrado. Inicialmente era feito apenas em revistas de graduação, mas posteriormente passei a receber pedidos de outras revistas. No começo eram apenas na área de antropologia, porém depois apareceram pedidos de revistas de direito, educação, história e sociologia. Normalmente são textos que cruzam a área de origem com certa bibliografia que é categorizada como antropológica. Em alguns casos eu recusei a possibilidade de emitir um parecer por óbvia incapacidade.

Faz algum tempo – não sei (diria que não quero) precisar quanto, eu fui convidado para emitir um parecer para uma revista, daquelas que só aceitam textos onde um dos autores é doutor, para um texto com uma abordagem tida e dita emancipatória e de empoderamento. Daquelas revistas que para publicar e para ser parecerista tem como base a versão brasileira do “é preciso ter Q.I.” – Quem Indica. Não sei quem sugeriu meu nome. Eu não me inscrevi no sistema da revista. Na verdade eu acho que nunca li um texto da revista. Tomei conhecimento das normas para autores apenas quando fui emitir o parecer. É, eu leio aquilo. Isso porque tem revista que literalmente proíbe de verificar se há plágio, pois considera que é responsabilidade plena e única da revista, ai eu recuso a emissão do parecer também.

Eu recebi um e-mail pedindo um posicionamento sobre a possibilidade de fazer um parecer. Então eu fiz um cadastro no site da revista, depois disso eu li o resumo e me considerei adequado para fazer o parecer.

Ao realizar aquela primeira leitura do texto, mais corrida, eu costumo adotar uma série de práticas que acabam internalizadas e que permitem identificar tanto o plágio, como a auto-citação em questão de minutos. Sou feliz em afirmar que das dezenas de pareceres que já emiti, apareceram (auto)plágios e/ou exagero nas auto-citações em pouquíssimos textos. Não sei o número exato. Ainda vou fazer um curso sobre como identificar isso, no olho. É útil.

Quando são questões pontuais, ou o óbvio efeito das péssimas aulas de metodologia e de escrita acadêmica com professores precariamente contratados como substitutos, e não por pura má fé de quem escreveu o texto, eu faço na medida do possível as orientações sobre como corrigir. Há casos que são tão graves que a própria revista acaba entrando em contato comigo depois perguntando se efetivamente eu recomendava reenviar – e se estou disposto a emitir um segundo parecer no futuro para o mesmo texto – porque o parecer de outro parecerista foi “rejeitar” acompanhado de ofensas gratuitas ao conjunto de autores. Aqui na Iberoamerica quando temos divergência entre os dois pareceres o que fazemos é pedir um terceiro, ou até um quarto, parecer.

Quem já fez qualquer trabalho sério de avaliação, correção ou edição de textos de terceiros tem ideia do esforço que apontar detalhadamente as necessidades de correções pode envolver. Faço isso porque acho um desperdício acumulado e compartilhado de tempo e de trabalho, da revista, do autor, e do revisor, aqueles pareceres de meia-página (diria meio-parágrafo) que pouco diz além da criptografia que esconde “não publicar porque não me citou” ou “não publicar porque não concordo com o autor”. Faço isso também porque acredito que há, infelizmente, padrões na formação educacional que existe no Brasil que dificultam, para quem não cresceu em Paris ou Londres, acatar os rigores que a escrita dita acadêmica envolve. Em resumo: É pedagógico. E eu pretendo me assumir professor um dia. Aliás, eu já falei sobre o problema do plágio na academia por idiossincrasias dos alunos aqui.

Nem todo mundo teve a felicidade de ter os nobres senhores da literatura colonial brasileira ou portuguesa na estante de casa. Muitos nem estante de livros tinham. Eu tive estante, mas eu nunca tive uma Barça Barsa. Que dirá uma Enciclopédia Britânica. O mais perto disso foi o Livro dos recordes de 95, que comprei em 2002 num sebo. Eu tinha 17 anos. Por isso eu tento compreender a dificuldade que pode existir no ato de escrever e publicar no Brasil. Felizmente eu tive o prazer de dar aulas para alunos de último ano em certo curso de graduação em uma universidade que é sucateada, e em dar aulas para alunos já graduados, em outra universidade, mas em um curso que foi construído de maneira viciada e precária, e foi visível em ambos os casos a dificuldade de vários pela, já citada, fraca formação que receberam nas aulas de escrita acadêmica ou metodologia.

Imagine que ao escrever o parecer, com carácter que se reconfigura em proto-denúncia, eu sou depois informado, que o texto estava assinado por três partes autoras, duas alunas de graduação e um professor (ciências humanas e sociais), daqueles com doutorado. Professor de uma (universidade) federal. Orientador de doutorado. Pontos positivos para um webqualis que almeje o A1. Aliás, o autor com título de dôtore tem dois textos nestas revistas, in English. Reforça que o webqualis não quer dizer nada. Feliz é o periódico que não quer ser classificado no webqualis. Mas há aqueles que são criados para o ser. E em menos de oito anos foi possível se tornar A1. É quase vibrante. Aliás, também já falei sobre parte dos problemas do webqualis neste espaço.

O texto que me caiu a análise estava dividido em quatro partes: Uma introdução genérica. Uma apresentação da metodologia idem. Um problema de pesquisa. Uma conclusão. A primeira parte foi claramente escrita por uma das alunas, que inclusive já reproduz a boa prática do professor, utilizou, integralmente, um texto seu já apresentado em outro espaço. A segunda parte foi claramente escrita pela segunda aluna, e arriscaria dizer que é o capítulo de metodologia de seu projeto de TCC ou de um relatório de estágio ou similar. A terceira parte é um Frankenstein de cinco textos do professor. São reproduzidas sequências de parágrafos, cópias de citações diretas já realizadas, notas de rodapé, e referências, sem tirar nem por. É ipsis litteris. O rapaz não se deu ao trabalho nem de reescrever ou reordenar. É copy/paste de páginas inteiras. Copiou até as notas de rodapé. Um dos textos é capítulo de livro e não estava online. MAS EU TENHO O LIVRO FÍSICO. Podia ser num sabor Gilberto Velho ou Darcy Ribeiro de república(ção), mas não é. Em alguns trechos nem o português foi revisado. O Sílvio Coelho dos Santos (na verdade a dona Alair, mas ok) revisava o português e avisava que era republicação. O Gilberto Freyre idem. Mas neste caso, os erros da publicação original estão todos mantidos ali. Diria até que faltou um SIC (sic erat scriptum). Talvez caísse bem um latim algures. A quarta parte mescla itens do primeiro e do terceiro item, mas é, felizmente, mais curta.

Ao acabar a primeira parte do artigo, eu pensei que era disso que se tratava: Um aluno recém-graduado que desconhecia regras mínimas do jogo científico. Os comentários nesta parte foram todos explicando como introduzir materiais de outra publicação (ou apresentação) sem destruir a qualidade do material em construção. Ao concluir a segunda parte me ficou visível que esta parte foi escrita por uma segunda pessoa, que aparentemente conhecia a maior parte das regras do jogo. Os comentários nesta parte foram todos de formatação e de como referenciar certos materiais ou fontes (entrevistas, websites, videos, etc). Percebi que o texto tinha co-autoria quando comecei a ler a segunda parte. Nos primeiros parágrafos da terceira parte eu imaginei que as duas partes autoras estavam sendo obrigadas a citar o orientador, inclusive achei que não sabiam como o fazer. Ao desenvolver a leitura deste item até o fim percebi que não era disso que se tratava. Era o próprio orientador quem o escreveu, um terceiro nome que assinava o texto em conjunto. Isso agravava bastante a situação. Tive o trabalho de revisar linha por linha. E 100% da parte dele do texto já havia sido publicado em outros lugares. Alterações foram pontuais, normalmente no início ou término do parágrafo. E só. A quarta parte foi escrita com trechos de materiais do primeiro autor (uma aluna) e do terceiro (o professor). E ao chegar nas referências me senti numa verdadeira festa. Eram poucas referências. Metade delas, literalmente, não aparecia no texto. E as outras estavam em edições distintas daquelas que foram citadas no material de origem. Então citava se no texto a edição de 1995, que o professor consultou em livro para escrever a tese dele nos anos 2000, mas na bibliografia aparecia a edição de 1984 – que é a que tem PDF online e as alunas devem conhecer da ementa de outra disciplina ou da fotocópia que usaram quando foram obrigadas a ler.

Pois bem, o parecer que eu emiti resume parte da obra, e ele pode ser visto a seguir:

PARA O AUTOR E EDITOR

O artigo não pode ser aceito pois praticamente todo o conteúdo dele é derivado de materiais de duas autorias.

Os materiais de onde os trechos foram copiados (e em alguns casos brevemente adaptados) estão disponíveis nos links informados na versão comentada. Há cópia inclusive de notas de rodapé, citações direta, e etc.

Estes cinco materiais curiosamente não são citados ou referenciados, e das (poucas) 12 referências incluídas na bibliografia, apenas 6 aparecem no corpo do texto. Recomendo ler o documento com comentários que foi submetido ao sistema.

O material relacionado com as entrevistas e a apresentação da metodologia são as partes úteis, saudáveis e aparentemente originais do artigo, mas não são suficientes para ponderar todo o restante do material.

PARA O EDITOR APENAS

Há aspectos adicionais que agravam a situação, pois um dos autores já possui doutorado e é professor, além de potencialmente orientador, das outras duas partes autoras.

Há duas ocorrências onde além de republicar trechos de textos próprios, estes trechos inclusive estão citando ou mencionando outros trechos de si mesmo. Em alguns casos o trecho pode ser encontrado, já publicado, em outros dois materiais. É claramente uma tentativa de inflar citações sobre si mesmo combinado com a desagradável prática de republicar materiais antigos como se fossem novos.

Não é possível garantir que este texto não tenha sido enviado para outras revistas paralelamente ao envio para este periódico.

É bastante problemática a situação de pedagogia/didática/orientação que este professor possivelmente produz sobre não uma, mas duas alunas de graduação. É altamente recomendável encaminhar uma cópia de meu parecer para o departamento responsável por este professor averiguar se isto é reincidente e pedir esclarecimentos.

Caso a revista se omita de tomar tal iniciativa, eu posso fazer. Já denunciei casos similares [instituições omitidas] e não tenho problema em me identificar novamente.

É ainda possível que uma das alunas tenha submetido o texto sem o conhecimento do professor. E neste caso, a respectiva deve ser orientada sobre os vários problemas éticos e práticos que isto envolve.

Uma terceira possibilidade é o professor estar ciente, mas efetivamente não ter realizado qualquer leitura do material antes da submissão. O que também é razoavelmente grave, ainda que hábito desta gente que possui título de doutor.

Independente do que aconteceu é altamente recomendado não apenas rejeitar o artigo, como encaminhar para o departamento onde o professor é efetivo e onde as alunas estão matriculadas. Uma advertência para cada um dos envolvidos é o mínimo para esta situação não mais se repetir. Para o caso do professor é reincidente, como demonstro em um dos comentários.

Por questões remotamente de bom senso eu não vou disponibilizar as informações adicionais que eu recebi depois da revista no período pós-parecer. E assim eu concluo, deixando as interpretações livres sobre quem acha que isso é produzir ou disseminar conhecimento. Espero, mesmo, não ver o texto publicado em outra revista daqui um ano.

Para concluir devo reiterar que eu tenho sérias ressalvas para a quantidade absurda de normas que inundam os círculos de publicação científica no Brasil e no mundo. Eu inclusive deixei isso explícito em outros espaços, como no capítulo inicial, e no anexo 1, de certa dissertação de mestrado, mas infelizmente não é disto que estávamos falando aqui. O problema aqui é o plágio e a auto-citação na academia, caso não tenha ficado claro pelo título.

Ps.: Estou pensando em usar o texto nas minhas futuras aulas de metodologia. Melhor exemplo impossível. A pergunta é: Será que eu preciso ou devo pedir autorização do autor para citar ele?

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Autor

Graduado e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

Pesquisador e doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal.