O homem e a floresta: uma relação de pertencimento*

Acostumado a estudar a Amazônia desde muito pequeno e a admirar toda a sua imponência, a vivência naquela localidade não poderia ter sido mais enriquecedora e capaz de valiosas lições de vida.

amazonia
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Em 2016 saí do cerrado mato-grossense, onde morei entre o povo Xavante, e me mudei para a babilônia amazônica conhecida como Belém do Pará a fim de cursar a minha pós-graduação em Agriculturas Amazônicas pela Universidade Federal do Pará. Acostumado a estudar a Amazônia desde muito pequeno e a admirar toda a sua imponência, a vivência naquela localidade não poderia ter sido mais enriquecedora e capaz de valiosas lições de vida.

Durante o mestrado, pude realizar algumas incursões à campo visitando paisagens distintas, como as iniciativas agroecológicas no Nordeste Paraense, o litoral e as florestas ao sul da Ilha do Marajó, onde desenvolvi minha pesquisa sobre as apropriações da fauna para finalidades medicinais. Realidades visualmente distintas, mas que guardavam elementos em comum como a íntima relação dos seres humanos com o ambiente natural e as redes de reciprocidade e sociabilidades tecidas em torno disso.

Numa relação onde os domínios natureza e cultura se fundem indistintamente gerando relações e saberes muito específicos com os componentes da paisagem natural, o homem amazônico, quer seja urbano ou do campo, nutre estes laços cotidianamente, onde os seres vivos permeiam práticas e a manifestação da própria vida. Foi ali, imerso nesta realidade, que eu pude perceber o quão deslocada é nossa visão das populações humanas que interagem com a floresta, sem compreender as atribuições simbólicas e culturais que existem em meio à isso.

Numa ótica puramente etnocêntrica, julgamos e criminalizamos certos segmentos da sociedade nacional, relegando à eles uma existência marginalizada quando nós usufruímos de grande parte da própria Amazônia no conforto de nossos lares, a muitos quilômetros de distância dela. Com os produtores agroecológicos do Nordeste Paraense, pude descobrir as inúmeras possibilidades de conviver com a floresta, obtendo dela o seu sustento, criando laços afetivos com as distintas formas de vida que os cercam, mesmo frente à todas as adversidades sociais e econômicas, sem que haja um romantismo acerca das atividades. No litoral paraense, idem, uma relação extremamente conectada, onde vive-se o momento presente de forma única e dedicada, conferindo-se o devido valor ao tempo, dia após dia.

Com os agroextrativistas da RESEX Mapuá, com quem convivi por mais tempo, pude criar laços que pareciam pré-existentes e que vejo como a manifestação da pura empatia de partes que vislumbram o ambiente como uma extensão de si mesmos e que estendem isso às suas relações mais íntimas criando micro-cosmos de manifestações abundantes.

Ditada por códigos especialmente tecidos geração após geração, a vida na floresta amazônica é complexa, árdua e exige que os seus habitantes humanos estejam intimamente ligados aos elementos naturais e aos ciclos dessa natureza exuberante. A cheia e a vazante dos rios repercute nos homens e em seus hábitos cotidianos, onde distintas espécies compartilham uma infinidade de atribuições mútuas. O limite entre o que é planta, o que é bicho, o que é solo, o que é rio é apenas o espaço de convivência que abarca todos esses componentes, não existe esta segmentação e tudo está interligado numa rede de acontecimentos que dita o ritmo de vida. É o pertencimento que move os seres numa localidade que se funde às memórias, à oralidade, aos hábitos intrinsecamente ligados às diversas formas de manifestação da vida.

 

Capítulo de Livro Publicado – O homem e a floresta: uma relação de pertencimento. In: «Quando pensa que não…»: contos, crônicas e causos em etnoecologia. 1ed. Belém: UFPA, 2018, v. 3, p. 144-146.

 

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Etnobiólogo.

Especialista em Antropologia e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará.

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