O ensaio crítico de Bella Jozef e o horizonte hispano-americano

No Brasil de hoje, resgatar o trabalho de Bella Jozef é tarefa primordial.

A intenção inicial deste espaço era apresentar a um público mais amplo um conjunto bastante variado e diverso de intelectuais, especialmente aqueles envolvidos na atividade da crítica literária em suas múltiplas facetas (do rodapé na imprensa à institucionalização universitária).  O único pressuposto intransponível é nossa fronteira espacial: o espaço latino-americano. Esta é uma opção não somente territorial, mas também, e sobretudo, política e epistemológica.

Na prática, isso tem se tornado um grande desafio. Há um punhado de críticos já canonizados no espaço público da América Latina, seja pela densidade de suas obras, seja pela circulação de suas ideias em ambientes não somente nacionais, mas continentais, chegando à Europa e aos EUA. Nomes como o próprio Antonio Candido, que foi tema da primeira postagem deste blog, além de Ángel Rama, Afrânio Coutinho, Octavio Paz, Alceu Amoro Lima, Antonio Cornejo Polar, Rafael Gutierrez Girardot etc.

Mas há também um conjunto de intelectuais, quase todos estudiosos que são dos fenômenos da cultura, que foram colocados à margem do cânone pela história da crítica. Falo hoje, especialmente, de uma mulher: Bella Jozef. À luz de sua condição feminina em um espaço majoritariamente masculino, como a academia brasileira ao longo do século XX, foi fundamental na institucionalização dos estudos literários no ambiente universitário. Mas não só isso: prefigura, hoje, como uma das únicas a esboçar, desde o Brasil, uma história da literatura hispano-americana.

Bella nasceu no ano de 1926 na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Filha de imigrantes judeus russos, no ano de 1945 se formou em Letras Neolatinas pela Universidade do Brasil. O curso havia sido criado em 1941, apenas 4 anos antes, e fazia parte do Departamento de Letras da Escola de Filosofia da antiga UDF, criada em 1935 e extinta, através de decreto presidencial de Getúlio Vargas, em 1939. Seus cursos foram absorvidos e incorporados à Universidade do Brasil e seus alunos transferidos para a Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras (FNF).

Em 1945, outra reforma reestrutura a Universidade. Nos anos seguintes, estabelece-se um modelo de estrutura departamental, em que as faculdades e escolas passam a se organizar em departamentos, dirigidos por um chefe escolhido entre os professores catedráticos que compunham o quadro docente permanente. Foi nessa estrutura que Bella, logo após a conclusão de seu curso universitário, assumiu a cadeira de Assistente de Manuel Bandeira na Cátedra de Literaturas Hispano-americanas da Faculdade Nacional de Filosofia. Após a aposentadoria de Bandeira, assumiu definitivamente a responsabilidade pelo ensino de literatura-hispano-americana em uma das maiores universidades do Brasil.  Nesse mesmo ano, obteve seu doutorado em Literatura Americana com a tese “María, de Jorge Isaacs e o romance hispano-americano”. Em 1957, tornou-se livre-docente.

Seu interesse geral de pesquisa sempre foi a produção literária latino-americana. Para além de sua atuação no espaço institucional da universidade, ampliando o espaço dos estudos hispanistas, foi incansável defensora da atuação do crítico na esfera pública mais ampla. Nesse sentido, atuou na criação de diversas revistas, como América Hispânica, periódico que congregou importantes intelectuais do continente, como Julio Ortega, Ruben Vela, Moacyr Scliar e Paul Verdevoye. Alguns de seus números foram dedicados às obras de escritores como Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes e Juan Carlos Onnetti. Foi fundamental, também, na construção de círculos culturais: foi diretora de um programa na Rádio Roquette Pinto, além de ter sido entrevistadora do projeto FINEP. Publicou textos em grandes jornais, especialmente nos suplementos literários de diários de grande circulação, como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Estado de São Paulo e O Globo, dentre outros.

Em um texto intitulado “Uma estética da inteligência”, publicado em 1999 nas páginas do Jornal do Brasil, Bella define Jorge Luis Borges como aquele que rompeu com a tradição retórica do século XIX, libertando a narrativa dos entraves do regionalismo tradicional e abrindo espaço para a explosão dos movimentos vanguardistas posteriores na Argentina. Para ela, a visada de realismo borgeana é a consciência de que o mundo é não só materialidade imediata e translucida, mas também um conjunto de símbolos, códigos e enigmas. A possibilidade de pensar a linguagem como elaboradora de mundos leva, em alguma medida, à autonomização do princípio estético, sem deixar de interpenetrar ficção e realidade.

De certo modo, esta discussão é retomada em “Vargas Llosa: em busca de um realismo rebelde”, texto publicado em 2010 nas páginas de O’Globo. Nele aparece novamente a questão do choque entre a realidade anterior à obra estética e o mundo representado no fenômeno literário. Para ela, o escritor peruano, ao questionar o estatuto usual da arte, recria a literatura para além da sua relação cristalizadora com a verdade transitória da história imediata do mundo. Ao mesmo tempo, escritor de aguda sensibilidade e consciência das desigualdades e injustiças, confirma o empenho em vocalizar as mazelas da América Latina de seu tempo, especialmente a partir das temáticas da violência, da fome, da miséria, preconceitos, intolerância etc.

Essas belas análises foram constantes na vida intelectual e crítica de Bella Jozef. Seu projeto de maior alcance e folego foi “História da Literatura Hispano-Americana”, publicado em 1971. A obra, que firma seu arco temporal no período que vai desde o início da colonização até a segunda metade do século XX, procura retraçar os contornos da produção estética continental a partir da tópica da “busca por identidade”. O fôlego e a magnitude dessa empreitada são ainda mais admiráveis se levarmos com consideração que, até aquele contexto, eram raras as figuras críticas do cenário brasileiro que se lançavam à análise da produção literária continental. Além do próprio Manuel Bandeira, com “Literatura Hispano-americana”, de 1949, poderíamos destacar também João-Francisco Ferreira, autor de “Capítulos de Literatura Hispano-americana”, publicada em 1959.

Historia da Literatura Hispano-AmericanaSua tarefa intelectual era uma só: difundir a literatura hispano-americana no Brasil e no mundo. Mas, ao mesmo tempo, procurou ampliar o escopo da produção estética brasileira ao largo do continente, na tentativa de fazer valer um reconhecimento mútuo. Esta era não somente uma tarefa acadêmica e institucional, mas sobretudo política. Para ela, a função da crítica era social e essencialmente inconformista. Até por isso, dedicou-se à obra de escritores que, de alguma maneira, perfilaram-se como grandes romancistas modernos. A América Latina de Bella é o espaço da produção literária de maior qualidade e universalidade porque foi capaz de fazer coexistir três elementos fundamentais: temáticas empenhadas e interessadas, explosão estilística e formal e ampliação da visão de mundo desde a periferia do capitalismo.

No Brasil de hoje, resgatar o trabalho de Bella Jozef é tarefa primordial. Não só por sua atuação, enquanto mulher, em um ambiente majoritariamente masculino, mas também, e sobretudo, por sua ousadia crítica de enxergar na produção literária para além das fronteiras nacionais um vigor estético fundamental para a formação cultural do continente. Às próximas gerações de latino-americanistas fica a missão de reavivar os ensaios desta brilhante professora e intelectual, que faz da sua vida uma eterna ponte entre a universidade, a imprensa e outros espaços da esfera pública.

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Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Pesquisador de mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Membro da Comunidade de Estudos de Teoria da História (COMUM-UERJ) e professor do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais (CEPE).

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