O enigma dos fenômenos mundanos: pictografia de hieróglifos de concepções superiores?

A sublimação da fertilidade da Vida

Deusa primitiva
Deusa primitiva
Deusa primitiva
Deusa Primitiva.
“Quando você tem uma Deusa como criador, o próprio corpo dela é o universo, ela se identifica com o universo.”
Fonte: O Poder do Mito, Joseph Campbell

O que significa viver no mundo? O que é o mundo? Por que ele é supostamente redondo? Por que não é assimétrico, triangular ou como uma figura geométrica qualquer?

Seria porque ele carrega consigo um sentido de finalização apoteótica que deifica a alegria de viver, exalta o foco em alguma coisa, louva as sensibilidades, celebra a transitoriedade da existência humana e glorifica a inspiração de um certo equilíbrio?

Diz-se de um certo equilíbrio porque hipoteticamente existe a necessidade da desarrumação para sua posterior arrumação. Do bagunçar para organizar. Do perder-se espacialmente para encontrar a própria geografia no Mundo. Para desfocar-se totalmente, e ainda assim, instantaneamente concentrar-se. E o que seriam os tais fenômenos mundanos? Seriam sorte grande, pequena ou/e apenas sorte? Êxito integral ou fracasso parcial? Êxito parcial ou fracasso integral? Coroamento de Vida ou usurpação dessa mesma Vida? Meio, fim ou começo? Ou tudo juntinho como a simbiótica terra-planta? Contemplação, desatenção, descortesia com aquilo que é belo e poético e é digna de admiração?

Seriam circunstâncias favoráveis ou adversas de si sobre si mesmo? Ou do Mundo sobre o Si?

Na esfera intra  a sensação é de que o Mundo esconde uma parte de si da gente. Como um doce daqueles bem gostosos que são tecidos tradicionalmente pelas matriarcas em almoços de Domingo em alguns espaços do planeta Terra. Doces esses que na ânsia de fazer com que eles se multipliquem para gente e tenham maior durabilidade, damos um jeitinho sorrateiro de escondê-los. Risos risos …

De reservar mais um pedaço egoisticamente só para gente. Nesse sentido, os fenômenos mundanos seriam lutar por sabor de alegria? Por sabor de caráter exclusivamente individual? Por usar o grande poder da mente só em prol de si? Que si? Choros choros …

Ora, se a gente se constitui a partir de outrem, como pensar só em si desconsiderando o outrem? A gente desconsideraria a si próprio. Seria muita falta de inteligência. Seria ausência de altruísmo e de capacidade latente de abastança proveniente da convivência amorosa com o outro. Seria abster-se de Vida. Seria o abandono de sacrificar-se por Amor. Seria a revelação de um ambiente interno hostil, onde tudo o que está imanente- tanto conscientemente quanto inconscientemente nas camadas aglomeradas e intersecionadas de uma pessoa- está contra ela. Não a favor. Ou não seria? Ou seria?

Os fenômenos deixam-se revelar. Os fenômenos mundanos, então, regem rigorosamente as estações, as escuras e enigmáticas noites, os dias imbuídos de luz e calor solares, as luas, os mares, os céus, as árvores, as cavernas, os precipícios, os solstícios… O Mundo parece ser mesmo a totalidade e/ou o conjunto manifestado das alegorias humanas e não-humanas. Ou não parece?

O Mundo também parece encontrar em seu reflexo uma representatividade velada de vagina simbólica, já que ele é feminino. Feminino porque é fecundo, feminino porque gera e libera a Vida a cada fração de instante. Feminino porque ele é Criação incessante e operante. Feminino porque é uma mistura de corpo, sexualidade e espiritualidade.

Dizem que o Mundo tem o fenótipo de uma vagina simbólica. Isso possivelmente soa aos ouvidos como uma melodia intra-uterina, daquelas emitidas pelo ser que ali está habitando e é simultaneamente habitado. Uma melodia de simbiose, de conexão e fusão totais e absolutas onde a Vida culmina em um de seus mais lindos horizontes possantes. Uma melodia tão lapidada de divindade, de feminilidade e masculinidade, daquilo que mostra um contorno fortemente ininteligível de tão mágico que é, de tanto transbordamento que escorre com charme e em lentidão e que estupefatadamente povoa o frenesi da cotidianidade dos seres humanos. Por isso, os fenômenos mundanos são provavelmente fragmentários, não são totalmente alcançáveis, nem palpáveis, nem manipuláveis: são sim, uma constante que faz jorrar de si incontáveis hieróglifos de germinações superiores…

Imagem de Nascimento

“O feminino representa o que em termos Kantianos, chamamos de formas da sensibilidade. A Deusa é espaço e tempo, e o mistério para além dela é o mistério para além de todos os pares de opostos. Assim, não é masculina nem feminina. Tudo está dentro dela, de modo que todos os deuses são seus filhos.
O Poder do Mito, Joseph Campbell

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Pedagoga. Coordenadora. Mestranda em Educação. Feminista Decolonial e antirracista. Escritora. Apresentadora no portal de notícias com tv web integrada.

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