O coração do Brasil é terra quilombola – Capítulo 3

Pela profundidade dos brasis, os quilombos mostram que lutar pelo direito ao território é a grande pandemia.

O coração do Brasil é terra quilombola
O coração do Brasil é terra quilombola

A luta pela terra nos provoca a revirar o arcabouço da história que nos contaram e buscar as histórias não contadas. O Quilombo Mesquita, na Cidade ocidental em Goiás, é um indicativo de como a invenção romântica da ideia de nação e progresso é capaz de nos sufocar. Existindo a mais de 233 anos e atualmente com quase 800 famílias, o território ocupava toda a área onde hoje está Brasília. Porém, a invasão para a construção da capital do país roubou grande parte das terras já ocupadas e lançou para fora das fronteiras do Distrito Federal os povos que ali estavam. Uma expulsão que também está no apagamento, inclusive, da existência de quilombolas na construção de tal fortaleza. 

Walisson Braga, estudante de Artes Visuais na Unb e quilombola da Comunidade Mesquita, relata o desgaste e injustiça que o território vem passando ao longo dos anos devido a história que se diz oficial. “Nos misturam no meio dos candangos, sendo que já estávamos aqui bem antes” reitera.

O coração do Brasil é terra quilombola
Os quilombolas tiveram importante participação nos primeiros momentos da construção da capital federal. Foto: Arquivo Público do Distrito Federal.

“Juscelino veio para cá construiu o sonho dele, o sonho de 50 anos em 5, e isso se tornou o nosso pesadelo. Passou a linha do Distrito Federal em cima de nossas terras, não teve nem a decência de colocar o Quilombo Mesquita pra dentro do Distrito Federal e deixou a gente aqui no entorno sul, sofrendo com várias questões como a falta de saúde e de educação, de transporte de qualidade inclusive para gente se locomover até Brasília”. 

A divisa do Distrito Federal fica a menos de 20 quilômetros da comunidade. E mesmo com tamanho sequestro de seus direitos, o caos ainda atua pelas ameaças do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em querer retirar mais de 80% do território. Soma-se a isso, a luta contra grileiros, os empreendimentos do prefeito da cidade e sua falta de respeito para com a identidade do povo. O estudante pontua que o ato de ter um papel para que seja reconhecido que você é quilombola ou não, já é um enfrentamento que muitas comunidades passam cotidianamente até se chegar a reivindicação fundiária da terra, que é a grande questão. 

“Aqui onde é a esplanada, ali onde é o STF, é onde meu avô pastava o gado dele”, diz Sandra Braga, liderança do Quilombo do Mesquita e coordenadora executiva da Conaq, durante relato ao Instituto Socioambiental. “Hoje quando chego ali no Supremo me dá uma dor muito grande, uma dor realmente na alma. Porque é um espaço que a gente diz de justiça, de defesa desses direitos, e hoje ainda estamos à mercê de um julgamento para provar o que é um direito nosso” finaliza.

O coração do Brasil é terra quilombola
Sandra Braga mostra a fertilidade da terra quilombola. Foto: Walisson Braga.

Walisson ainda lembra de como foi quando seu primo contraiu a Covid-19 e necessitou de hospitais em Brasília, e teve o atendimento negado. Depois ficou em um hospital de campanha, mas logo esse foi desativado e o paciente precisou procurar atendimento em uma cidade depois de Goiânia, a mais de 500 quilômetros. “E quando se consegue chegar até Brasília, lá a gente tem nossos direitos violados. Porque quando se chega em um hospital a gente não pode ser atendido porque não é do Distrito Federal. A gente não consegue acesso à escola porque não é do Distrito Federal” completa o estudante. 

A comunidade teve dois óbitos por causa da Covid-19. A proximidade com a cidade e a necessidade de circulação devido ao trabalho coloca tais pessoas em alerta, e todo mundo se protege como pode. A narrativa desse Quilombo converge, mais uma vez, em direção aos cacos e as destruições ocasionadas por quem pode imperar sua fala e seu fazer.

 E isso traz três questões recorrentes: quem tem direito a ter direitos? Quem pode ter a sua história contada em primeira pessoa? Quando falamos de direitos humanos, de quais humanos estamos falando?

 

Texto completo publicado inicialmente em www.brasis.org, Brasis – Histórias da periferia na pandemia. Projeto realizado pelo Favela em Pauta e pelo Instituto Marielle Franco.

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Jornalista e Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Mestra em Comunicação.
Colaboradora no Favela em Pauta.
Pesquisadora no Coletivo Magnífica Mundi – UFG e no OBIAH – Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais e decoloniais da Linguagem – UFG.

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