O boom da resistência: a (in)visibilidade dos vídeos online

O que está em jogo são as negociações entre aquele que vê e aquilo que é mostrado.

Bombozila
Bombozila

Frederico Augusto dos Santos Ângelo, Brasil
Produtor multimídia, trabalho na TV pública Rede Minas, estudante de mestrado comunicação UFMG, membro do grupo de pesquisa COMCULT.

 

Na América Latina, as imagens do audiovisual são o lugar social onde a representação da modernidade se faz cotidianamente acessível à maioria da população. Os processos políticos da época destruíram velhas certezas e abriram novas brechas no confronto com a verdade cultural destes países. A importância do audiovisual como a tela de toda a população e suas diversidades, onde os cidadãos se encontram, se expressam e se reconhecem, é comparado a um mercado público onde se mesclam estéticas, relatos e vozes seja do indígena, o negro, o mestiço e o branco; o masculino, o feminino com as outras sexualidades; os jovens, as crianças bem como os idosos. A mestiçagem (e suas complexidades), a trama da modernidade e suas descontinuidades culturais, formações sociais e estruturas de sentimento, de memórias e imaginários tornam-se híbridas com os personagens do cotidiano: o indígena com o rural, rural com o urbano, folclore com o popular e o popular com o massivo (BARBERO, 2004).

Mas sofrem tensões neste lugar os projetos políticos de uma “modernidade”. As imagens do audiovisual são o lugar social onde a representação da modernidade se faz cotidianamente acessível à maioria da população. Igualmente, estas imagens são uma espécie de narrativa simbólica, pois ofertam rastros do presente ou do passado, podendo ser fixas ou em movimento. Memória e imaginário de massa são ancorados pelo presente em projeção do futuro. Ao mesmo tempo criam várias formas de amnesia que a própria mídia e o mercado produzem.

Neste contexto aparecem novas formas de contar a história, transmitir bens culturais (música, folclore, ritualidades e expressões artistas), lutas, denúncias e resistência através das mídias digitais, plataformas e aplicativos.

Os imaginários, diálogos, representações como possíveis categorias da comunicação nos produtos culturais de ideias, valores, opiniões de setores da sociedade bem como a identificação de atores que constituem produtores ou reprodutores dessas vozes e desse conteúdo. Em nossa sociedade latino-americana em sua pós-modernidade periférica de múltiplas temporalidades e multifacetada pensar a partir do Sul a soberania audiovisual é o que propõe pensar plataformas digitais audiovisual como Afroflix, Yeguada, Bombozila entre outros, através de um ecossistema digital, onde a digitalização de conteúdo, a disponibilização uma linguagem audiovisual na era digital na produção e exibição neste boom de vídeos online.

Na fila do SUS

No livro A Guerra das imagens (1994) o autor Serge Gruzinski detalha a importância das imagens para nossa constituição cultural e como elas tornavam um povo visível. Portanto componentes técnicos ou condições de captura da imagem perdem ordem de importância quando a cultura emerge e se torna (in) visível através do olhar.

Assim seja um vídeo sobre autonomia e territórios ou uma tribo indígena, se é um vídeo amador ou profissional não faz diferença. O que está em jogo são as negociações entre aquele que vê e aquilo que é mostrado. É parte de um composto onde a imagem reivindica seu papel de fala e a cultura é constituinte na formação da mesma.

Por exemplo a web serie Na fila do SUS:

https://bombozila.com/na-fila-do-sus/?series=na-fila-do-sus

Ou o vídeo sobre o processo de luta em defesa do rio Piatua

https://bombozila.com/piatua-resiste-ecuador/

Tanto o Bombozila, como outras plataformas deste seguimento, apresenta como uma possibilidade dentro do campo do visível, para os movimentos sócias e minorias do invisível. Suas imagens também possuem algo a dizer, como argumenta Mitchell, partindo das questões do cotidiano até as tradições de uma determinada população. Os registros das imagens carregam consigo a esperança de uma eternidade visível, uma memória sempre viva.

Encontramos no Bombozila um caso no qual as imagens se oferecem para além do entretenimento. Elas propõem contar a história sócio-política do continente latino-americano e funcionam como ferramentas políticas e sociais de um povo. Há uma narrativa, uma história que precisa ser contada, denunciada ou simplesmente transmitida para as futuras gerações para que compartilhem sentidos, visões de mundo e relatos que fizeram de nós quem somos.

Através destas plataformas e o boom do vídeo online, a constituição do povo latino-americano se encontra novamente com aquela matriz que tem sustentado nosso fazer cultural e histórico: a oralidade. Somos um povo de cultura oral. É através da oralidade que encontramos os relatos dos primeiros nativos destas terras. Agora a oralidade se junta à imagem para formarem um composto no qual a primeira passa a ter o que dizer e ganha voz quando se encontra com a segunda.

Referência:

MARTÍN-BARBERO, J. Uma agenda para a mudança de século. In: Ofício de Cartógrafo. SP: Edições Loyola, 2004.

MITCHELL, W.J.T. ¿Qué quieren las imágenes?: una crítica de la cultura visual. Trad. Isabel Mellén. Buenos Aires: Sans Soleil Ediciones, 2017.

MITCHELL, W.J.T. No existen medios audiovisuales. Estudios Visuales: La epistemología de la visualidad en la era de la globalización. Brea, J. L. (Ed.). Madrid: Akal Estudios Visuales, 2005.

MITCHELL, W.J.T. Teoría de la imagen: ensayos sobre representación verbal y visual. 22 Madrid: Ediciones Akal, S.A., 2009.

RINCÓN, O. Mutaciones bastardas de la comunicación. Matrizes, v.12, n.1, pp. 65-78, janeiro-abril, 2018.

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