O 18 Brumário de Jair Bolsonaro. Uma introdução

Bolsonaro colocou-se como “anti tudo que está aí”. Assim, catalisou para si não só os que buscavam alternativa qualquer, como também os que a buscavam na extrema direita.

Brumário de Jair Bolsonaro
Brumário de Jair Bolsonaro

Muito tem sido dito e escrito a respeito do atual contexto brasileiro, desde uma abordagem que nos conecte à geopolitica internacional, situando-nos como parte de uma onda de populismo de extrema direita, como com Viktor Orbán na Hungria ou Matteo Salvini na Itália (E porque não incluir Trump, nos EUA?), depois da chamada onda progressista pela américa do sul. Outras análises enfatizam o uso das redes sociais e a estratégia de propagação de notícias falsas e mentiras para, de alguma forma, justificar os discursos extremistas. Nesta questão discute-se muito o monitoramento de comportamento nas redes, a construção e direcionamento de conteúdo a fim de condicionar comportamentos eleitorais e o uso de robôs, dentre outras coisas, que não é o tema aqui. O que chama atenção é o papel desempenhado por pessoas reais e mais do que as redes sociais e novas tecnologias, os discursos que funcionam como aglutinador de forças políticas dispersas.

Como contexto a tornar esse cenário possível, tampouco é novidade recuar até as chamadas jornadas de junho de 2013, com mobilizações de massa em protestos difusos, reunindo setores diversos e com variadas motivações, onde é mais fácil indicar como começaram do que porque ganharam corpo. Também a este respeito há uma diversidade de material produzido e que inspira boas reflexões. De qualquer modo, aquelas manifestações tiveram como um resultado ampliar o desgaste do governo petista, a aglutinação da pequena-burguesia radical e o surgimento de canais de construção e difusão de conteúdo de um amplo espectro de direita. E aqui cabe refletir como as classes não são atores coletivos monolíticos, mas agem relacionalmente e contextualmente e são internamente diversas. Neste sentido, não apenas buscam reagir à ação que lhes sejam contrárias e/ou construir a realidade que lhes seja favorável, mas a ação de classe se dá também na adaptação às condições políticas produzidas à sua revelia. E aqui destaca-se a capacidade da burguesia em se adaptar às diferentes formas políticas, de se camaleonizar em diferentes cenários, de aliciar aliados improváveis, de lançar personagens num teatro de títeres.

A respeito das eleições de 2018, um diagnóstico amplamente propagado é que a população estava em busca de uma alternativa, de algo fora do cenário político tradicional. Tampouco isso é novidade, em cenários e dimensões distintos. São conhecidos os casos das votações do bode Ioiô, no Ceará e do macaco Tião, no Rio de Janeiro ou de candidatos eleitos pelo chamado voto de protesto. As eleições presidenciais de 1994 e 1998 já davam sinais nacionais, com Enéas Carneiro, com seu discurso extremista e segundos de propaganda ficando, respectivamente, em terceiro e quarto lugares, à frente de políticos consagrados. Por outro lado, a rigor a primeira eleição de Lula também pode ser vista de modo menos romantizado, como um sinal eleitoral importante, numa busca de alternativa à política tucana e velhas figuras conhecidas, com a versão vitoriosa do então chamado Lulinha paz e amor indicando a preferência conservadora do eleitorado brasileiro. Nos anos recentes, partidos tradicionais de direita também se enfraqueceram, não obstante ter sido o PT em particular e a esquerda em geral o alvo principal de ataques de diversos tipos, alguns não sem razão. Apesar de estar há anos na política parlamentar e com um desempenho pífio, não só por não ter propostas aprovadas, mas pela própria natureza das propostas apresentadas, Bolsonaro colocou-se como “anti tudo que está aí”. Assim, catalisou para si não só os que buscavam alternativa qualquer, como também os que a buscavam na extrema direita.

Algumas abordagens a respeito deste cenário político têm focado nas críticas a parte dos setores progressistas, por não renovarem seus métodos de construção e disseminação de conteúdo e/ou pelo deslocamento das questões de classe e infraestrutura econômica para a dispersão dos discursos identitários e difusos. Evidentemente trata-se, mais uma vez, de um debate importante e necessário, mas o que chama atenção aqui não é apenas o artifício do uso das novas tecnologias de comunicação na disseminação de notícias falsas, mas o tipo de mensagem veiculada e a repercussão e aceitação que tiveram. Enfim, mais que os métodos, que são, claro, importantes neste caso, destaco o conteúdo das mensagens, a ressonância que encontraram entre diferentes setores da população, não só por acreditarem, mas também por disseminarem.

O caso brasileiro recente evidencia a existência de grupos que não são parte de uma ou outra classe social em termos de base produtiva, das relações de produção, mas alinham-se com uma ou outra classe em termos ideológicos, de valores. A chamada camarilha de burgueses entre nós, por exemplo, está não só na representação política, mas também na mídia corporativa. E não só por serem também grande capital, mas sobretudo como representação simbólica da classe. Por outro lado, entre os que chamamos de classe média estão os que não são burgueses pelo vínculo econômico, mas pela visão de mundo, de ver a ordem burguesa como único mundo possível ou ao menos mais desejável. Neste caso, o vínculo não se dá a partir de interesses econômicos específicos, mas pela ideologia professada e entendida aqui não como mero ventriloquismo, onde uns apenas verbalizam ou realizam os interesses de outrem, mas funcionam como seus representantes, seja políticos, literários, enfim.

Estas questões ressaltam a importância da dimensão simbólica não como secundária, mas como constitutiva das dinâmicas de classes, da constituição de atores políticos para além das classes vistas estritamente a partir da base econômica. É assim que veremos representantes dos interesses patronais entre os trabalhadores. Não como capitão do mato necessariamente, porque nem sempre violenta, mas sempre traiçoeira, traidora. Apesar da relevância da compra milionária de disparos de notícias falsas via whatsapp ou pelo uso de robôs em redes sociais, chama a atenção as pessoas reais, nos diversos segmentos sociais, que incorporaram e repercutiram estes conteúdos, funcionando como representação simbólica de classe, demonstrando afinidade entre as visões de mundo. Não como representantes diretos, porque subalternos, mas como porta-vozes. Não necessariamente reproduzindo diretamente os interesses de classe, mas construindo nexos ideológicos com seus mundos subalternos.

E aqui chama a atenção de muitos a perda de ressonância dos setores progressistas e o protagonismo eleitoral da extrema-direita brasileira entre os segmentos sociais que são historicamente as maiores vítimas da violência e do arrocho. Mas que são crescentemente conservadores, neo-pentecostais e para os quais a direta tem tido mais êxito discursivo, valendo-se sobretudo de um conteúdo moralista. Assim, o discurso ético e identitário dos setores progressistas tem tido menos ressonância política do que o discurso moralista dos conservadores de direita. E neste sentido, as questões do mundo do trabalho, da economia e dos direitos têm menos apelo do que as narrativas ideológicas sobre os valores transcendentais da família, da moral, de Deus e da igreja. A ideologia tem agido não só como o que escamoteia a realidade, mas também como o que mobiliza.

Em 1852, Marx publicava “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, texto elaborado a pedido de um periódico estadunidense a respeito da eleição de Luís Bonaparte como presidente da segunda república francesa e a decretação por ele, meses depois, de Estado de Sítio. Trata-se de uma análise de conjuntura primorosa e que, no limite, problematiza e complexifica muitas das proposições do próprio Marx em outras de suas obras. Em linhas gerais, o autor analisa como a luta de classes então “criou circunstâncias e condições que permitiram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar o papel do herói” (Marx, 2011, p. 18). E por uma série de razões pode servir de mote para refletirmos sobre o atual cenário brasileiro.

Referência

Marx, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

mm

Doutorado em andamento pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Bacharel em Ciências Sociais pela mesma Universidade, Mestre em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Coordenador Regional da Rede Brasileira de Saberes Descoloniais.

Poeta, educador, caminhador sentipensante (entre os pontos cardeais e espirituais), com coração aberto e corpo fechado, punho erguido e mão estendida, pé na terra e cabelo ao vento.

¿Qué te ha parecido?

[2 votos - Media: 3]