Mulheres em luta unem cidade, floresta e águas

A terra deve ser espaço de vida e não de morte.

Indígenas e camponesas na marcha das 100 mil
Indígenas e camponesas na marcha das 100 mil

Os dias 13 e 14 de agosto no Brasil foram marcados por grandes manifestações em todo o país. Terra, território, água, saúde e educação foram os temas que mobilizaram milhões de pessoas, com marchas gigantescas em Brasília, nas capitais dos estados e em cidades de médio e pequeno porte. Foi o campo, a floresta e a cidade, juntos, na luta pelo bem-viver.

Já no dia 9 de agosto a capital federal começou a se agitar sob as atividades da Primeira Marcha das Mulheres Indígenas, reunindo três mil mulheres de 115 etnias diferentes que foram à Brasília reivindicar uma melhor política de saúde. Sob o lema “Território: nossos corpos, nossas vidas” as mulheres originárias repudiaram as políticas genocidas do governo Bolsonaro, reivindicaram seu direito ao território tradicional e ocuparam o Ministério da Saúde exigindo saúde de qualidade.

No dia 13 elas se juntaram aos protestos contra o projeto “Future-se”, uma proposta do governo federal para a educação que entrega as universidades para a empresa privada e busca transformar cada centro de ensino em um captador de recursos, deixando a questão do ensino em segunda mão. Os atos convocados pela União Nacional dos Estudantes, com adesão dos professores e técnico-administrativos foram bastante expressivos na maioria das capitais, com a população saindo às ruas em apoio aos trabalhadores, contra as propostas governamentais.

No dia 14 de agosto mais uma vez a capital federal se encheu de gente em luta com a tradicional Marcha das Margaridas que reúne mulheres camponesas, quilombolas, ribeirinhas, sem terra e indígenas. Mais de 100 mil pessoas estão na cidade, percorrendo a esplanada dos Ministérios na maior marcha camponesa da América Latina. Essa manifestação lembra o assassinato de Maria Margarida Alves, sindicalista rural assassinada em 1983 quando enfrentava os barões do açúcar em Alagoas. As mulheres reivindicam políticas para a agricultura familiar, para a agroecologia e centram sua pauta na manutenção dos direitos dos trabalhadores rurais como a aposentadoria, ameaçada pela reforma já aprovada pela Câmara dos Deputados e pronta para ser aprovada no Senado.

A exemplo das mulheres indígenas, que também se uniram à Marcha das Margaridas, as camponesas lutam pelo direito à terra, entendendo que é na pequena e média propriedade, na qual estão as famílias agricultoras trabalhando e produzindo, onde a comida de todos os trabalhadores é produzida. A terra deve ser espaço de vida e não de morte.

Nesses dias de agosto, em Brasília, as mulheres mostraram que a unidade imprime maior força à luta e transformaram a capital Brasileira num espaço de grande pressão junto ao governo federal. As indígenas, em uma ocupação eletrizante no Ministério da Saúde, reafirmaram seu poder de luta, não apenas avançando nas suas reivindicações pontuais como exigindo do governo outra postura com relação aos povos originários em geral. As propostas de revisão de demarcações de terra e as frequentes declarações presidenciais dando força aos mineradores e latifundiários que invadem terras indígenas foram duramente rechaçadas e as mulheres deram seu recado: a luta não vai parar.

Já as camponesas, que nas últimas marchas iam à Brasília com uma pauta aberta para negociações, esse ano mudam a ordem das coisas. O ato é de protesto e de reivindicação por terra, proteção da água e políticas de vida. Também elas lutam contra os mineradores e os latifundiários. É uma batalha pelo bem-viver que une povos indígenas e trabalhadores.

Diante do marasmo que se viu nos dias de votação da Reforma da Previdência, o período de 9 a 14 de agosto foi um turbilhão de luta, capitaneado pelas mulheres indígenas, com a adesão massiva dos trabalhadores rurais e do povo da educação. Isso mostra que apesar do entreguismo dos políticos, a vida pulsa nas ruas e nos campos, a luta não esmorece. E, se quem luta faz a lei, as coisas podem mudar.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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