Mulher, defensora da natureza!

Eliane Potiguara

Mulher, defensora da natureza!
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Eliane Potiguara

Sempre que alguém me pergunta quem eu sou, existe quase que uma obrigatoriedade de você ter que responder a cerca de seus títulos, seu estado civil, idade, o que você faz, o que fez, o que pretende fazer, onde nasceu, quem são seus parentes? Eu hoje tive vontade de falar de outra coisa. Eu sempre tive que transpor obstáculos para sobreviver. Toda minha família indígena, extremamente empobrecida, imigrou das terras indígenas paraibanas para Pernambuco por ação na neo-colonização do algodão por volta de 1922. Em pouco tempo, imigrou num navio sub-humano para o Rio de Janeiro. Nasci ali em 1950, num gueto formado por indígenas e judeus imigrantes da 2ª guerra Mundial que se tornaram bananeiros, carvoeiros. Minha família morou literalmente nas ruas, no Mangue numa área de prostituição perto da Central do Brasil, mas ninguém participou desse contexto. Eu dormia num baú que um português deu a gente, por causa das ratazanas que vinham morder meus pés. Nenhum parente meu de sangue ficou na área indígena, por medo e vergonha! O falecido Sr. Marujo, um índio muito velhinho e cego foi que se lembrou dessa história quando lhe perguntei em 1979, na Paraíba. As quatro irmãs, um irmão e mãe fugiram porque o pai delas havia desaparecido e elas estavam sendo ameaçadas.Vovó já saiu grávida, vitimada com 12 anos!

Fiquei enclausurada vários anos num quarto na minha infância e quando via o sol desmaiava. O cômodo era sombrio, o banheiro imensamente sujo, cheio de insetos e cheio de limo e fora da casa. Todos os moradores dali utilizavam aquele fétido banheiro público! Tudo era da pior qualidade. Eu tive anemia profunda e tuberculose. Tive tumores no super-cílio e no mamilo, curados com visgo de jaca, teia de aranha e minhoca amassada, mistura essa aplicada por muitas e muitas vezes para a cura e realizada pela sabedoria de minha avó. Tenho esse cheiro até hoje no meu olfato!

A única coisa diferente era a educação, a espiritualidade e o amor que eu recebia de minha avó, mãe e tias indígenas. Elas me cobriam de amor, afeto e me protegiam contra a sociedade, que as discriminavam por serem diferentes. Por isso fiquei presa muitos anos, naquele cômodo  quase escuro. Aprendi a escrever ali mesmo. Foi ali que me tornei escritora com 7 anos, escrevendo as cartas que vovó analfabeta ditava para mim. Eram histórias de muita dor, saudade, abandono, discriminação racial, social, intolerâncias. Ela me chamou de Potiguara, porque ela conhecia a cura pelas ervas, ensinadas pelos seus pais e ancestrais. Hoje meu nome de escritora é Eliane Potiguara, reforçado pelas lideranças indígenas que participaram na luta do movimento indígena nesses últimos 30 anos.

Mais tarde, quando fui à escola, não entendia porque riam de mim e de vovó que todos os dias vendia bananas na porta da escola! Ali comecei a me sentir diferente das crianças e adultos. Minha avó bebia e eu chorava muito porque não conseguia entender nada do que a professora ensinava e porque vovó bebia e se embalava no fumo de rolo e nas bolinhas de feijão com toucinho fumeiro enroladas com a mão. Minha escola era outra! Anos mais tarde, pisei tapetes vermelhos na Europa e pisei na lama encharcada de sangue-sugas literalmente e na vida! Mas sou a mesma pessoa que vovó criou. A pobreza batia à nossa porta e minha família não conseguiu ficar comigo quando fiz 8 anos. Fui para a Funabem (Fundação Nacional de Menores), foi um choque, eu me perdi no tempo e no espaço, mas fiquei muito pouquinho tempo, porque logo minha família banhada em lágrimas me retirou de lá, quando me encontrou imunda, cheia de piolhos, chatos e fedendo como carniça e em pele e osso, roupa rasgada, descalça, quase morrendo de anemia. Eu sou Eliane Potiguara, uma mulher que muitos pajés disseram que ando com a força da ancestralidade e da espiritualidade à minha frente e que de minha boca, palavras ecoam abrindo caminhos, despertando consciências. Isso me foi dito, não são minhas palavras. Nunca havia falado isso até hoje, pois eu achava que se falasse, parecia pretensão de minha parte. Mas nos meus quasen 70 anos de idade, mãe, avó e quase bisavó, está na hora de falar.

O meu livro METADE CARA, METADE MÁSCARA, fala de amor, relações humanas, paz, identidade, histórias de vida, mulher, migração e racismo, ancestralidade e família. É uma mensagem para o mundo, na medida em que descreve valores abafados pelo poder dominante e, quando resgatados, submergem o self selvagem, a força espiritual, a intuição, o grande espírito, o ancestral, o velho, a velha, o mais profundo sentimento de reencontro de cada um consigo mesmo, reacendendo e fortalecendo o eu interior, contra uma auto-estima imposta pelo consumismo, imediatismo e exclusão social e racial ao longo dos séculos.

O texto discorre sobre a luta do movimento indígena nacional/ internacional, da imigração indígena por violência à sua cultura e conseqüências. O papel fundamental da mulher indígena no contexto cultural e sua contribuição na sociedade brasileira é um expoente. Poeticamente, conta as dores das mulheres e seus desejos mais íntimos.

Links sobre direitos indígenas como propriedade intelectual, conhecimentos tradicionais, meio ambiente, terra e território, biodiversidade, espiritualidade, contribuição da ética e cosmovisão indígenas para um novo homem/mulher são destacados neste livro em forma de histórias, cânticos, sussurros e gritos. Essa criação vai mexer com seu imaginário e fazer você viajar nas profundezas da mente em prol de mudanças concretas.

Eu sou uma mulher indígena no contexto urbano que não perdeu as tradições indígenas repassadas pelas mãe, tias e avó. E me tornei uma escritora como forma de resistência.

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Autora

Eliane é escritora indígena, professora, mãe, avó, remanescente Potiguara. É Conselheira do Inbrapi e fundadora do GRUMIN. Formada em Letras, licenciada em Educação pela UFRJ, participou de vários seminários sobre Direitos Indígenas em organizações governamentais nacionais e internacionais.