Ministério do DEVERIA

No último dia 21 de janeiro, foi divulgada uma entrevista da atual “Ministra das mulheres, da igualdade racial e dos direitos humanos” na TVNBR, que é uma espécie de canal público de divulgação do governo federal. Seguem aqui, breves percepções sobre a respectiva publicidade:

A pessoa tenta utilizar o conceito “transversal” para justificar uma exclusão sistematizada e cumulativa de qualquer pessoa que não se encaixe no essencialismo estratégico, que é cada vez mais seletivo e afunilado, e que a própria ministra ajuda a construir e a projetar em um valor tido como “positivo”:

Tem que ser mulher (e cis). Tem que ser negra (na concepção por ela idealizada, e diria que é questão de tempo até sugerir medir tonalidades e propor alguma hierarquia além de estratificação entre “iguais”). E agora tem que ser jovem e politizada. Em breve também terá que ser do partido e vai ter que pagar as taxas. Provavelmente NÃO poderá ser mãe também. É capaz de se tornar necessário a constância de alguma identidade e comportamento enquanto MAV.

Assim como a extinta Secretária de Políticas para as Mulheres (SPM) praticamente não mantinha olhos para questões envolvendo travestis e transexuais, ou como ignorou sistematicamente a prostituição e o tráfico de mulheres durante TODA a sua longa existência, a pasta de origem de Nilma, a SEPPIR (Secretária de Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) JAMAIS teve olhos para nada além de um movimento negro, e sendo restrito ainda assim aquele movimento que JÁ era politizado, e principalmente incluídos no próprio partido. Aquele que ela jura não pertencer. O mesmo que chega e estaciona caminhonetes importadas entre quilombolas, para os convidar a ser massas de manobra política e econômica, enquanto promete escolas, saúde e comida para crianças. Crianças que morrem de fome. Com dores e doenças.

De quebra, ao fundir as três secretarias em uma (SDH, SEPPIR e SPM), ainda filtrou e matou todo o espectro de alcance social da extinta Secretaria de Direitos Humanos (SDH), que dentre as três era a menor [1], e única com alguma função além de privilegiar indivíduos hegemônicos nos grupos subalternos. Essa pasta é a que inclusive DEVERIA nomear o novo ministério. Este novo que é como o partido homônimo, que se pode resumir à lembrança e advertência de Brecht: Parada do velho novo.

O alienígena nome “mulheres, igualdade racial, e direitos humanos” afronta o que se propõe enquanto ministério das minorias sociais. Poderia ser mais interessante seguir o exemplo da Suécia ou da Islândia, se queriam representar ali alguma diversidade. Ou até o feito do novo primeiro-ministro do Canadá. Até ministério da assistência social seria melhor. Ou inverter a ordem das palavras e tirar vírgulas: Ministério dos direitos humanos da igualdade racial das mulheres (negras).

Um ministério da igualdade racial que não sabe o que são indígenas, que não sabe o que são comunidades ciganas, que desconhece completamente dezenas de grupos minoritários que vão desde caiçaras à quebradeiras de coco e rezadeiras, que se diz representativo das mulheres, mas que a sua percepção quanto a prostituição feminina se resume a tentar criminalizar específicos carnavais e alega ser dos direitos humanos e NUNCA se pronunciou contra a Polícia Militar, seja ela de qualquer um dos 26 estados ou mesmo do distrito federal. Não fala sobre pobreza extrema e ignora completamente o que está ocorrendo no nordeste sobre as microcefalias. São MULHERES as mães. E estamos no carnaval. Espere até os filhos do carnaval de 2016 nascerem em setembro ou outubro ao invés de novembro, e dotados de microcefalias. O diálogo tanto com o Ministério da Saúde, como aquele das cidades, deveria ser óbvio. É inexistente.

Ainda no recorte das mulheres e das violências, e de seus números, era interessante esta senhora tentar sair da caverna ou tentar ENTENDER os números, e não os maquiar e fazer um maquiavélico e precipitado uso deles. Há aqui alguma ajuda. Mínima.

Não contente, toda vez que ela tenta falar de grupos que DEVERIAM ser prioridade no ministério que preside, e que ainda hoje são completamente ignorados pela pasta, ela cita o governo federal. No canal do governo federal. São estatutos prévios, feitos no governo lula, e projetos municipais de secretarias controladas pelo PT, que são e estão completamente longe e fora do alcance e da atividade dela, como se fossem projetos da pasta. Mas ela (diz que) não é “filiada” a partido nenhum. Pois não. Imagine se fosse. Também não deve ser amiga pessoal do mais famoso colonizador português ainda em atividade, dono do Fórum Social Mundial, que veio, e vem anualmente, ao Brasil ensinar essa gente, os selvagens brasileiros, como se faz política, onde sugere criar o partido Raiz. Da Erundina. Senhora esta que é prata-da-casa do mesmo partido que Nilma nega participar. Também casa da Marina. Aquela da Rede. Mulheres incríveis. Só falta elas dizerem que são feministas. Se for, chamem a Katia Abreu e a filha do Sarney. É quase um Dream Team das mulheres na política. Faltou, talvez, só a Dilma.

Ao menos não anunciaram ela, a Nilma, como antropóloga novamente. Agora ela é ministra. Dizem. O FHC, mesmo presidente, sempre foi sociólogo. A Ruth era antropóloga, mesmo enquanto primeira-dama. E o Darcy Ribeiro, já li algures, também nunca esquecera o que era. A filha do Sarney também esquece que possui alguma formação em alguma sociologia.

Mereceria um prêmio quem for capaz de adivinhar a “palavra” que a ministra repete dúzias de vezes em menos de 30 minutos. E aquela que ela não conseguiu repetir nem uma dezena. As duas DEVERIAM ser reflexo da pasta. Apenas uma esta no nome. Mas a outra é que DEVERIA estar. Muito pelo fator de prioridade, diria exclusividade, que lhe é outorgado pela ministra. Mas aí, vai eliminando a outra, e uma centena de outras tantas palavras. Que DEVERIAM ser escopo da pasta. Nunca serão enquanto ela for ministra. Nilma só conhece uma cor. Só conhece um gênero, que ela deve inclusive chamar de sexo. E não tarda vai disponibilizar novos filtros.

 

[1] Confrontar com os valores fixos reservados para SEPPIR e SPM, respectivamente em http://www.abong.org.br/fundospublicos/seppir e http://www.abong.org.br/fundospublicos/sdh, os três disponíveis nas opções “principais objetivos”, no menu superior.

Fonte: Reflexão originalmente publicada no facebook.

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Autor

Graduado e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

Pesquisador e doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal.