Minha experiência com o Covid – 19: Números não são corpos, são pessoas queridas

As vítimas são muitas vezes tratadas como números e estigmas de fragilidade

Números no son cuerpos
Números no son cuerpos

EspañolTalvez já estejamos todos cansados de escutar sobre o Corona Vírus, sua origem, seus possíveis impactos na economia, nos nossos seres queridos e na nossa psique. Entretanto é um fato que com a longa duração da pandemia, cada vez mais esse fenômeno atinge  as nossas cotidianidades, e em alguns casos, como o meu, a nossa vida inteira.

Minha mãe, irmã, madrinha e avó contraíram Covid. As três primeiras conseguiram se curar, entretanto, no dia 6 de abril perdi minha avó.  É fato que ela, que se chamava Celda Maria, tinha 87 anos e portanto era parte do grupo de risco. Porém, também é parte da minha aceitação entender que foi esse vírus e essa pandemia mundial que levaram embora a uma das pessoas que eu mais amava. A partir de tal compreensão, toda minha percepção do vírus mudou. Rio muito pouco das piadas, e cada teoria conspiratória me dói, porque pude entender na pele a seguinte reflexão:

NÚMEROS NÃO SÃO CORPOS, SÃO PESSOAS QUERIDAS.

No começo da quarentena, quase diariamente eu procurava ler sobre a pandemia, desde as políticas governamentais que estavam sendo implementadas para frear o vírus, até informações sobre os números de infectados. Eu checava os dados tanto de Mendoza e da Argentina, que são os lugares em que estou vivendo, como os números de Curitiba e do Brasil, a terra da qual me origino e tenho toda minha família. Lembro que ao princípio, quando via os números de mortos em Mendoza, e que percebia que eram na maioria dos casos, gente idosa e com histórico de outras doenças, sentia certo alívio, porque sentia que a doença não era um perigo para mim, pessoalmente.

Entretanto, minha percepção mudou muito, quando em Curitiba, uma das primeiras pessoas falecidas veio a ser a minha avó. Dia 06 de Abril de 2020, o jornal O Globo, três horas depois que Celda Maria falecera, publicou a seguinte notícia: “Curitiba registra as três primeiras mortes por Corona vírus”. O subtítulo: Vítimas são mulheres de 56 e 87 anos, que estavam internadas desde o fim de março, e um homem de 94 anos, que recebeu o diagnóstico da doença, no Sábado (4). Nessa notícia, a única informação que deram sobre a minha avó, além da sua idade, é que ela havia sido diagnosticada no fim de semana. Com apenas estes detalhes, e por muito, mencionando que tinha antecedentes crônicos, houve outras notícias publicadas em meios de comunicação, como: Bem Paraná, Paraná Portal, Gazeta do Povo e CBN Curitiba.

De todas as notícias, a que mais me chamou a atenção foi a da prefeitura. Minha avó foi mencionada da seguinte maneira: “A mulher tinha histórico de doenças neurológicas e pulmonares e contraiu o vírus em uma viagem para o estado de Santa Catarina, onde teve contato com um caso confirmado. Ela iniciou os sintomas no dia 30 de março e buscou atendimento em um hospital de rede privada, onde permaneceu internada”.  Analisando este parágrafo, em minha opinião, três aspectos sobre a minha avó são ressaltados: 1- a idade longeva; 2- ter antecedentes (pulmonares e neurológicos); 3- a constatação que ela contraiu o vírus em uma viagem a Santa Catarina.

Posso interpretar vários caminhos de como o leitor pode entender esses aspectos. A primeira observação que quero fazer e que é um ponto muito grave, é que o segundo aspecto é uma mentira! Minha avó não tinha antecedentes pulmonares. Ela tinha sim demência senil, mas estes não são antecedentes relevantes ao adoecer-se de Covid 19. Para mim, ao dar essa informação falsa sobre seus supostos antecedentes, se está revelando a fragilidade de tal vítima, uma fragilidade extra que ela não tinha! Minha família pediu retratação da falsa informação, mas ela só foi dada em uma live da Secretária de Saúde, não saindo outra noticia, dizendo que a secretaria tinha se equivocado.

Já o terceiro aspecto mencionado, o qual explica que ela contraiu o vírus em Santa Catarina, para mim adverte aos demais sobre o perigo em transitar e trazer o vírus desde outro Estado. Ao mesmo tempo, coloca ênfase que o problema surgiu em outro lugar que não era Curitiba, por mais que depois explicam que era muito provável que os casos locais fossem aumentar. Enfim, concluo que tal notícia, só ressalta a parte frágil da minha avó. Não contam que ela se recuperava de uma cirurgia no fêmur quando adquiriu o vírus. Também não contam que sem ser esse incidente, ela tinha uma saúde muito boa. Também não mencionam que por mais que ela tinha 87 anos e demência, fazia exercício com uma personal trainer, dançava com outras velhinhas em um grupo da terceira idade, e estava muito forte para sua grande quantidade de anos.

Entendo que é tarefa dos jornais e dos entes municipais, estatais e nacionais de informar a população sobre a pandemia, e inclusive, lhes obrigar a que respeitem as medidas de proteção – como usar tapa-bocas, respeitar as distâncias e o isolamento social. Entretanto, o exemplo de como retrataram minha avó, me fez perceber que as vítimas são, muitas vezes, tratadas como número e estigmas de fragilidade, em uma guerra que todos estamos enfrentando.

Uma vez que fui entendendo o começo do luto, comecei a refletir sobre como antes lia as cifras dos mortos e infectados pelo Corona Vírus. Percebi que a partir da minha leitura, de ter expostas as fragilidades das vítimas, terminava me sentindo um pouco mais segura, por ser jovem e sã. Ao entender essa percepção, senti muita vergonha. Vergonha porque com essa atitude, por mais que estivesse cumprindo com a quarentena, e me sensibilizando pelas pessoas, percebi que também estava tratando aos mortos e infectados como números.

Esse mal-estar vergonhoso também aumenta quando penso no Brasil. Na Argentina fazemos quarenta obrigatória, com controle da polícia já faz 50 dias. Devido às políticas governamentais, se no começo da pandemia o contagio duplicava de três em três dias, hoje é dobrado de 25 em 25. Enquanto isso no Brasil, já não se obriga direito as pessoas ao isolamento, totalizando já mais de 12 mil mortos. Na pátria brasileira  existe uma grande disputa entre governadores e o presidente, sobre como proceder durante a pandemia. Além disso, já houve vários conflitos por pessoas que se negaram a usar máscaras em lugares públicos, e em alguns casos, houve ações violentas e até assassinato (caso de Araucária).

Para terminar de ilustrar o caso brasileiro, a atriz e Secretária da Cultura do governo Bolsonaro, Sra. Regina Duarte, quando questionada sobre a pandemia e as mais de 400 mortes na época da ditadura, afirmou: “O Covid tá trazendo uma morbidez insuportável. Isso é perigoso para a cabeça da gente. (…) Temos que olhar adiante, em direção ao futuro. Não serve pra nada olhar para trás. (…) A humanidade não para de morrer. Se você fala da vida, ao lado há morte (…) Se vamos falar dessas mortes, (…) eu não vou arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas. Deixe de desenterrar mortos!”. Desde essas declarações, Regina se expressou como também Bolsonaro o fez, reiteradas vezes, demonstrando um menosprezo e falta de respeito, pelo restante da população, mentalidade que diminui a gravidade do que está acontecendo.

Essas declarações mais se parecem a uma filosofia da Necro-política de Achile Mbembe, onde os mortos são vistos como números e peças do capitalismo, e não como pessoas amadas e partes integrantes da sociedade. Também não estão corretos os que romantizam a quarentena, dizendo que agora há mais animais nas ruas, ou que este é um castigo de Deus por como estivemos vivendo.  O certo é que, no mundo real, temos que mudar a maneira em que vivemos, porque agora muitas mais pessoas estão desempregadas ou não tem o que comer, e outras nem sequer se podem dar o luxo de fazer quarentena, mas as suas vidas também importam.

Por tanto, devo dizer que se existe gente que me dá vergonha, também há gente que me dá esperança. São os médicos, enfermeiros, voluntários, que estão trabalhando. Também são os que estão criando redes solidárias e dando significado e memória aos nossos seres queridos perdidos. Um exemplo é o projeto @inumeraveismemorial no Instagram, que afirma que as pessoas não são números, e conta algo pessoal de algumas das vidas que essa pandemia está levando.

Da morte da minha vó, dos relatos esquizofrênicos de alguns políticos, das pessoas que estão doando seu tempo para lutar contra esse vírus, sinto novos sentimentos. Sinto que o que fica no meu ser, é um enorme sentido da realidade. É a partir de este sentir que meu ofício como acadêmica, latino-americanista e analista de relações internacionais, me impede aceitar a normalidade e pensar esse momento com uma fase transitória. Me incentivo ao pensar que temos que derrubar a “banalidade do mal” que expunha Hannah Arendt e reconstruir, tecer uma nova humanidade, mais humana, onde cada corpo não seja um número, mas sim uma pessoa querida, uma parte fundamental nossa e da sociedade. Pela memória da Celdinha, pela do escritor Luis Sepúlveda e por cada uma dessas pessoas queridas que essa pandemia está levando, temos que abraçar nossas fragilidades como sinal de força, e lutar por esse mundo melhor que necessitamos.

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Estudiante de la Maestría en Estudios Latinoamericanos en la Universidad Nacional de Cuyo, Argentina.
Licenciada en Relaciones Internacionales por la UNICURITIBA, Brasil.
Creadora del proyecto itinerante Latinoamérica Desde Adentro.
Cantautora.

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