Migrantes e estudantes: Desafios da intersecção entre a internacionalização da educação superior e os processos migratórios na Argentina em tempos da pandemia do Covid-19

Será a Universidade, em tempos de crise, capaz de resgatar o caráter libertário e continental para os povos da América Latina?

Migrantes e estudantes
Migrantes e estudantes

Fernando Lajus 1Mestrando do Programa de Pós-graduação em Sociologia pela UFPR. Faz parte do grupo Migrações Internacionais e Multiculturalismo do Programa Política Migratória e Universidade Brasileira. flajus07@gmail.com. e Fernanda Leal

Os processos de formação de redes de auxílio e informações migratórias são hoje objetos de grande interesse midiático e acadêmico. Se configuram, dentro de um âmbito global de mobilidades, como um elemento central na construção dos processos migratórios. Tais redes tomam formas diversas, algumas delas passando pelas legislações oficiais dos Estados (a exemplo dos vistos estadunidenses H-1B para trabalhadores qualificados) e outras, por rotas que operam na marginalidade. Também se configuram como viabilizadoras de projetos múltiplos, tais como processos de refúgio, inserções laborais e projetos educacionais.

Estes últimos, os projetos educacionais de nível global, têm sua expressão mais bem-acabada na chamada ‘internacionalização da educação superior’, um processo que se intensifica na condição de imperativo diante da crença de que ele possibilitará aos sistemas educacionais, às instituições universitárias e aos indivíduos responderem aos desafios da ‘economia global do conhecimento’. Muito embora a literatura em internacionalização da educação superior seja, em sua maioria, funcionalista e a-teórica, nos últimos anos surgem trabalhos que questionam este processo desde uma perspectiva do Sul Global (LEAL, 2018, 2020). No geral, tais trabalhos colocam em evidência as desigualdades entre os diferentes atores envolvidos e o sentido geográfico dessas mobilidades. Complementarmente, enfatizam a necessidade de análises da existência e das possibilidades e condições de fluxos educacionais internacionais no contexto específico do Sul Global.

O coletivo Estudiantes Migrantes Universidad de Buenos Aires (EsMiUBA)

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 Mas quais são alguns dos exemplos desse processo na América Latina? Na Argentina – berço do Movimento de Córdoba, articulação estudantil cujos princípios ecoaram de diferentes formas nas universidades públicas da região  –, se formou uma rede de estudantes em busca de educação superior gratuita, concebida como direito público universal. Os estudantes internacionais formam hoje cerca de 5% da totalidade de matriculados na Universidad de Buenos Aires (UBA), sendo a grande maioria da América Latina. Segundo dados de 2017, estudantes de fora da Argentina correspondem a 3,5% da população universitária de graduação do país2In.https://www.argentina.gob.ar/sites/default/files/sintesis_2017_-_2018_0.pdf . Desde 2007, alguns desses estudantes se encontraram no coletivo Estudiantes Migrantes Universidad de Buenos Aires (EsMiUBA), composto por estudante de todo o continente latino americano. Desse grupo de estudantes e imigrantes, como preferem se chamar, conversamos com Diego Lozano Rincón, que nos relatou a experiência pela qual esses sujeitos têm passado diante da pandemia da COVID-193Entrevista realizada por Fernando Lajus, em formato online, em 21 de setembro de 2020. .

Diego nos disse que durante a pandemia do Covid-19 o processo de matrícula tem se tornado uma verdadeira batalha para os estudantes-migrantes na Argentina, pois muitos não conseguem cumprir as exigências burocráticas da Universidade. Com o fechamento parcial de diversos serviços de Estado, esses sujeitos não têm conseguido apresentar os documentos solicitados pela Universidade.

Diego destaca três impedimentos para a matrícula. O primeiro deles diz respeito à obtenção do visto, que, segundo o estudante, tem tomado maior tempo por conta da pandemia.  O segundo fue el examen de idioma, que tampoco hay ninguna institución que está prestando el servicio4Transcrição entrevista de 21/08/2020. . O terceiro, pues, con las convalidaciones, que é a apresentação do diploma de ensino médio e que tem passado por um processo mais longo que o normal.

Frente a essas dificuldades, o grupo tem proposto uma solução alternativa, qual seja, a autorizacao de início do Ciclo Básico Comum por vias de uma declaração jurada de que os documentos faltantes serão apresentados posteriormente. Dessa forma, os estudantes-migrantes que ingressarem poderão iniciar as aulas de introdução ainda em 2020. Do contrário, seus planos de imigração ficariam ainda mais prejudicados pela pandemia.

Desafios para o estudo da internacionalização da educação superior na América

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Duas questões se colocam para o estudo da internacionalização da educação superior. A primeira é a imbricação entre essas trajetórias educacionais com problemas tipicamente migratórios, já que as mobilidades estudantis incluem a integração e a regularização no país de destino. Segundo o EsMiUBA, há hoje uma grande quantidade de estudantes que precisam trabalhar para se manter no país. Essa realidade está longe daquela que moldou a forma típica que representa o estudante internacional como alguém que entra já pelos vistos estudantis e faz uma breve jornada de estudos com todas as garantias que a vinculação universitária lhes assegura.

A segunda questão é sobre o papel da Universidade como instituição educacional verdadeiramente inclusiva. Percebemos que, no contexto latino-americano, a Universidade foi um espaço que, apesar dos conflitos, se um mostrou foco de resistência à precarização e às ditaduras militares em diversos países da região. Na tradição iniciada com o Movimento de Córdoba de 19185Para o manifesto de 21 de junho, ver:http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101109083227/20juve.pdf , ela mesma encabeçada por uma juventude imigrante que reivindicava seu direito a uma educação superior, será a Universidade, em tempos de crise, capaz de resgatar o caráter libertário e continental para os povos da América Latina?

Referências

Leal, F. (2018). Decolonialidade como Epistemologia para o Campo Teórico da Internacionalização da Educação Superior. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas. 26(87).

Leal, F. (2020). As bases epistemológicas dos discursos dominantes de ‘internacionalização da educação superior no Brasil. Tese (Programa de Pós-Graduação em Administração). Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina.

e Fernanda Leal Os processos de forma\u00e7\u00e3o de redes de aux\u00edlio e informa\u00e7\u00f5es migrat\u00f3rias s\u00e3o hoje objetos de grande interesse midi\u00e1tico e acad\u00eamico. Se configuram, dentro de um...","image":{"@type":"ImageObject","url":"https:\/\/iberoamericasocial.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Migrantes-e-estudantes2.jpeg","width":1080,"height":810},"datePublished":"2020-10-05T23:36:14+02:00","headline":"Migrantes e estudantes: Desafios da intersec\u00e7\u00e3o entre a internacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior e os processos migrat\u00f3rios na Argentina em tempos da pandemia do Covid-19","mainEntityOfPage":{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/iberoamericasocial.com\/migrantes-e-estudantes-desafios-da-interseccao-entre-a-internacionalizacao-da-educacao-superior-e-os-processos-migratorios-na-argentina-em-tempos-da-pandemia-do-covid-19\/"},"author":{"@type":"Person","name":"Fernanda Leal"},"publisher":{"@type":"Organization","name":"Iberoam\u00e9rica Social","logo":{"@type":"ImageObject","url":"","width":0,"height":0}},"dateModified":"2020-10-07T06:49:29+02:00"}

Notas

1.Mestrando do Programa de Pós-graduação em Sociologia pela UFPR. Faz parte do grupo Migrações Internacionais e Multiculturalismo do Programa Política Migratória e Universidade Brasileira. flajus07@gmail.com.
2.In.https://www.argentina.gob.ar/sites/default/files/sintesis_2017_-_2018_0.pdf
3.Entrevista realizada por Fernando Lajus, em formato online, em 21 de setembro de 2020.
4.Transcrição entrevista de 21/08/2020.
5.Para o manifesto de 21 de junho, ver:http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101109083227/20juve.pdf
6.Mestrando do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia pela UFPR. Faz parte do grupo Migra\u00e7\u00f5es Internacionais e Multiculturalismo do Programa Pol\u00edtica Migrat\u00f3ria e Universidade Brasileira. flajus07@gmail.com.
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É doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil, foi pesquisadora visitante do Center for International Higher Education (CIHE), Boston College, Estados Unidos, de 2018 a 2020, e é secretária-executiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil.

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

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