Maneiras de conhecimento: As redes universitárias de intercâmbio de estudantes na América Latina

Entrevista a Henrique Walter Ribeiro.

Henrique Walter Ribeiro

Henrique Walter RibeiroHenrique Walter Ribeiro
Brasileiro, nascido em 27/04/1992, mora em Santa Maria, RS, BR.

Henrique é um estudante de artes. Em 2018, ele realizou um estágio de intercâmbio estudantil na Faculdade de Artes da Universidade da República (Udelar) em Montevidéu, Uruguai. No Brasil, Henrique está cursando Artes Visuais (Bacharelado em Desenho e Plástica) na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Rio Grande do Sul, Brasil.

Henrique vem de uma família classe média tradicional brasileira. Além de seus pais, Adelar (52) e Antonia Ribeiro (47), possui uma irmã caçula, Daniele Ribeiro (23). Possui um ambiente familiar, nas palavras dele, “tranquilo e amável”, que, na medida do possível, impulsiona/apoia seus sonhos/projetos.

 

Quais foram os motivos que levaram você a fazer o seu intercâmbio acadêmico internacional, como foi a gestão que você fez para perceber essa experiência e quanto tempo você gastou com esses procedimentos?

Bem, em relação a motivação, sempre tive interesse pelo novo, creio que a curiosidade tem um papel fundamental na minha construção como pessoa e pesquisador. Dessa forma, mesmo antes de iniciar a vida acadêmica, o intercâmbio já era um sonho, um desejo; porém um sonho distante. Quando falamos em intercâmbio, universitário ou não, o fator econômico é muito importante e era esse fator que tornava distante o intercâmbio para mim. Após alguns semestres no curso de Artes Visuais, descobri o programa Escala Estudantil da Associação de Universidades do Grupo Montevidéu (AUGM) o qual concedia bolsas, de hospedagem e alimentação, para alunos de graduação em várias universidades da América do Sul. A partir desse momento, a possibilidade de intercâmbio se tornou mais real e palpável e, assim sendo, comecei a direcionar minhas energias a ele. Sobre os procedimentos, minha universidade (UFSM) possui um processo de seleção (edital aberto a todos os estudantes devidamente matriculados em qualquer curso de graduação da UFSM) que avalia desempenho acadêmico, participação em projetos, evasão, repetências, etc., depois fazem uma classificação de todos os inscritos e os primeiros colocados são selecionados, ao meu ver, essa é a parte mais desgastante de tudo que envolve o intercâmbio. Depois de selecionado pela UFSM, aguardamos a carta de aceitação da universidade de destino (no meu caso, a Udelar). Todo o processo é bastante burocrático e, muitas vezes, desmotivador (imagino que muitos desistam logo na coleta de assinaturas para a seleção), porém, embora consuma bastante tempo – praticamente um semestre inteiro – e energia, é uma oportunidade muito valiosa.

Por que você escolheu o Uruguai e a Universidade da República?

Em 2017, participei de um projeto de extensão, “Referências cruzadas: exposições itinerantes e intercâmbio cultural na América Latina”, que trazia e levava obras de artistas e docentes para vários países deste continente. Nesse contexto, conheci e me tornei amigo de alguns artistas uruguaios (Yohnattan Mignot, Micaela Fernandez, Karina Perdomo e Marcela Blanco, alguns deles hoje professoras y professores de IENBA) que participavam do projeto como expositores e que eram graduados da Udelar. A partir da fala deles, conheci e me interessei por essa universidade e por Montevidéu o que, posteriormente, direcionou minha escolha.

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Quanto tempo você esteve fora do seu país e em quantas disciplinas você se matriculou na faculdade de destino?

Eu fiquei, aproximadamente, quatro meses e meio e me matriculei em todas as disciplinas que consegui – e que conseguiria dar conta (hahaha). Foram seis disciplinas, “Arte e ciência em interatividade”; “Arte mural e arquitetura”; “Arte, sociedade e cultura visual”; “Leituras críticas sobre arte contemporânea”; “Espanhol para estrangeiros” e um ateliê principal do professor Seveso”, que se desdobrou em mais três linhas de pesquisa (gravura, pintura e escultura).

Você pode definir que tipo de conhecimento você conseguiu articular na universidade uruguaia em relação à experiência acadêmica do seu país de origem?

Na UFSM participo de um laboratório de pesquisa (Laboratório de Artes Visuais e Imediações – LAVI/M) que tem como base a pesquisa em Cultura Visual. Uma das propostas da pesquisa em Cultura Visual é o deslocamento da visão, “observar um objeto, um evento de forma distinta a convencional; uma forma diferente a que normalmente olharíamos”, acredito que essa “nova forma de ver” foi o que mais exercitei no intercâmbio e, consequentemente, na Udelar. Foi legal encontrar coisas iguais, mas o fantástico foi viver o diferente. A maioria das disciplinas que fiz na Udelar possuíam aulas mais horizontais, com mais possibilidade de fala, uma construção do conhecimento mais aberta, crítica e coletiva; ao mesmo tempo, tive a impressão que, embora o bacharelado em Artes Visuais na UFSM não estimule muito esse aspecto, eu estava um pouco mais preparado que parte de meus colegas em relação a estrutura técnica acadêmica, a estrutura burocrática que rege a construção de projetos, editais e afins … Ou seja, sinto que aprendi muito sobre diversas áreas do conhecimento, não somente com os professores, mas também com todos meus colegas, ou, nas palavras da pesquisadora Ana Maria Casnati, no ambiente multirreferencial de aprendizagem (AMA) que é um espaço onde todos são potenciais referências de conhecimento, o que, consequentemente, faz com que os papéis de “educador” e “aprendiz” sejam intercalados entre as pessoas que formam a aula. Gostaria de acreditar, que pude compartilhar a experiência que tenho em relação as formalidades acadêmicas e ficaria enormemente feliz se concordássemos que experimentamos novas e diversas “formas de ver”.

Que objetivos pessoais e/ou acadêmicos você seguiu ao fazer essa troca?

Como já havia comentado antes, tenho na curiosidade um meio formador; amo aprender e sinto que tudo começa com a curiosidade. Não sei se consigo dividir tão claramente em objetivos pessoas e acadêmicos, acho que eles se misturam e se intercruzam, mas tentarei. Como objetivo pessoal, coloco o fato de conhecer um país que não conhecia; aprender mais sobre a cultura dele, vivenciá-la (inclusive sofrer com seu idioma) e, principalmente, entrar em contato com o máximo possível de pessoas (e suas vivências) que o formam. Já em relação aos objetivos acadêmicos, sinto que consegui aprender muito e sei que isso será um diferencial no futuro. Da mesma forma, criei conexões com pessoas que, além de compartilhar ideias, vivências e aprendizagens, hoje, são meus companheiros de pesquisa.

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Você pode avançar algumas conclusões sobre as transformações em seu treinamento a partir da experiência como um estudante de intercâmbio?

As transformações são muitas – mesmo que tenha sido um pouco mais de quatro meses, esses meses foram muito intensos. O intercâmbio me possibilitou – e me cobrou – uma independência que eu ainda não tinha experimentado. Embora eu viva longe dos meus pais a bastante tempo (mais de 9 anos), sempre tive a possibilidade de visitá-los sem muita dificuldade (seja em relação a distância física seja em relação ao fator econômico), isso mudou vivendo em Montevidéu. Da mesma forma, no Brasil, a comunicação nunca foi um aspecto que tive que me preocupar. Em relação a estética do meu trabalho artístico, a nova cultura me fez olhar os referenciais, as formas, as cores de uma nova maneira e, consequentemente, trouxe novas necessidades para a produção. Na academia, entrei em contato com um novo modelo de aulas as quais, inevitavelmente, mudaram minha ideia de “aula”. São coisas simples, básicas e, talvez por isso, têm uma influência muito grande na forma de perceber e responder o mundo.

De acordo com seus estudos e progresso, na situação de estudante estrangeiro e vivendo uma cultura diferente da sua, você tem algum dado que possa compartilhar com os leitores da IS que nos permita conhecer e aprender mais sobre essa situação de deslocamento interamericano?

Venho de um país da América do Sul que está isolado, seja pela história, seja pelo idioma. No Brasil, aprendemos pouco sobre as culturas vizinhas e, consequentemente, continuamos promovendo esse afastamento. Para mim, como estudante estrangeiro no Uruguai, muito além da experiência acadêmica (que foi enormemente importante para a minha formação) está a consciência e valorização das culturas vizinhas. Aprendi que meu estado, Rio Grande do Sul, compartilha mais aspectos culturais com o Uruguai e a Argentina que com o resto do Brasil. A construção da identidade nem sempre respeita fronteiras e é importante ter essa consciência. Consciência que o próximo é tão rico, complexo e atrativo quanto o distante, europeu, norte-americano, etc.

Você considera necessário participar desse tipo de atividade acadêmica internacional como uma opção viável para melhorar os programas de ensino superior e os currículos de ensino superior nas universidades latino-americanas?

Sim. A todos que me perguntam o que acho do intercâmbio acadêmico, respondo: “todos que têm a possibilidade de ter essa experiência, deveriam tê-la”. Esse tipo de vivência modifica a forma de ver tudo que nos rodeia; nos faz valorizar algumas coisas e lutar por melhorias em outras, seja junto à sociedade, seja junto à universidade. É uma experiência que engrandece o estudante e possibilita que este compartilhe as vivências e os aprendizados na universidade de origem, permite que as instituições compartilhem conexões intelectuais de forma direta e indireta.

Você tem alguma consideração especial a ser compartilhada em relação à sua aprendizagem quando a atividade de intercâmbio terminar?

Como havia comentado anteriormente, a estrutura das aulas no Uruguai foram muito mais atrativas. Sinto que tive uma formação mais completa, que fugiu do positivismo impessoal. E, embora tenha chegado a Montevidéu com dificuldades no espanhol, o idioma não foi problema nas aulas. Pretendo propor esse modelo aos meus professores e apresentá-lo aos meus colegas.

O que foi deixado para você fazer e o que você faria novamente se tivesse uma nova oportunidade de realizar esse tipo de especialização internacional?

Sinto que, devido ao número de disciplinas que fiz, fiquei com pouco tempo para viajar e conhecer o Uruguai como um todo. Talvez mudaria isso, mas não tenho certeza. Acho que para o tempo de intercâmbio e o tempo que cada cidade necessitava para ser conhecida, aproveitei bem; e, como pretendo voltar outras vezes, posso continuar conhecendo o Uruguai. Sobre o que repetiria, sem dúvida, conheceria novamente todas as pessoas que conheci no Uruguai, aprendi muito com todas elas.

Qual foi o melhor e o pior momento nessa caminhada pelo Uruguai?

Complicado selecionar o melhor momento, tive muitas experiências ótimas no Uruguai. Sinto que vivi, dentro do possível, o máximo que pude a vida uruguaia (inclusive me acostumei com o mate uruguaio) e fui muito feliz nesse contexto. Por exemplo, quando fui trabalhar gravura com as crianças do Jardim de Infantes nº 381 (creche) ou Jardim “Los muchachos” em Piedras Blancas, recebi um número incontável de abraços, foi incrível; quando fui ver o show de uma amiga e a banda dela, chorei; quando, já no Brasil, recebi a informação que um projeto que meus companheiros e eu tínhamos submetido à seleção do EAC tinha sido aceito, comecei inconscientemente a pular. Foram muitas coisas boas. Cada uma com um sentimento específico e todas igualmente grandes. Já o pior momento é bem fácil apontar, meu pior momento foi na despedida de meus amigos. Quando eu pensava em intercâmbio, imaginava que seriam quatro meses aprendendo, vivendo, respirando novos ares, conhecendo lugares, conhecendo pessoas e, realmente, é isso; contudo o que esqueci de prever é que, em quatro meses, é possível criar toda uma vida, com rotinas específicas, amigos-família e toda a complexidade que envolve a existência humana e, depois, inevitavelmente, precisamos abrir mão de tudo que foi construído nesse período.

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Autora

Ph.D Analista Cognitiva.

Dra en Difusión de Conocimiento, UFBA, Brasil.

Máster en Educación Artística OEI- MEC -CAEU.

Artista Visual y Antropóloga por la UDELAR, Uruguay.

Docente y Gestora Académica en I.ENBA – UDELAR.

Desarrolla investigaciones interdisciplinares y actúa en las áreas de Arte y Antropología.