Kaingang, Ancestralidade e Felicidade

Entrevista com Niminon Pinheiro.

Kaingang, Ancestralidade e Felicidade
Niminon Pinheiro-2

Há oito anos, enquanto eu ainda cursava a sonhada graduação em Ciências Biológicas, conheci uma pessoa especial que me mostrou outras visões de mundo e foi responsável pela minha reaproximação com o fator humano – tão subestimado nas Ciências Naturais – e com os povos e comunidades tradicionais com quem eu viria a desenvolver a minha vida como um etnobiólogo. Essa pessoa se chama Niminon Suzel Pinheiro, hoje uma grande e valiosa amiga.

Graduada em História e Economia, Mestre em História e Movimentos Sociais (1992); doutora em História e Sociedade (1999), ambos pela UNESP-Assis, Pós-doutora em Antropologia pela UNESP-Marília (2012). É professora no Centro Universitário de Rio Preto – UNIRP onde coordena o Programa “Adote uma Aldeia” e o Projeto Brasil Negro “Aristides dos Santos”, atua como pesquisadora voluntária assessora no Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre e é membro gestora da Fundação Araporã. Como escritora recebeu o Premio Nelson Seixas de literatura pelo livro “Os óculos do Pajé”. Atua como palestrante, professora e pesquisadora em História, Educação, Antropologia e Etnohistória Indígena. É militante pelo direito à diversidade e à memória, pelo empoderamento das minorias políticas e sociais e pela preservação da vida e dos ecossistemas. À essa descrição formal e acadêmica eu acrescentaria: é um ser humano maravilhoso de brilho no olhar e amor transbordante no coração.

Foi através da Niminon que eu comecei a me envolver com a causa indígena. Há mais de 30 anos ela trabalha junto às terras indígenas do noroeste paulista, Icatu e Vanuíre. Terras indígenas multiétnicas, ali co-habitam pessoas pertencentes às etnias Kaingang, Krenak e Terena, cada qual com distinto histórico de contato com a sociedade não-indígena, verdadeiros heróis e sobreviventes de uma relação desigual e cruel.

Acreditando que é necessário refletirmos sobre nosso papel, nossa função, enquanto componentes de um sistema muito maior do que concebemos com nossas visões limitadas de mundo, apresento abaixo um breve, porém profundo, bate-papo com esta pessoa maravilhosa a fim de proporcionar ao leitor um gatilho de ideias que permitam responder de uma forma mais complexa e plausível a pergunta “QUEM SOU EU?”.

Gratidão!

 

Você trabalha junto aos Kaingang do noroeste paulista há mais de 30 anos, como este caminho se concretizou?

Esse caminho se concretizou na determinação extrema. Vivia uma época de muita carência na pesquisa e total falta de apoio de pesquisa brasileira em comunidades indígenas. Fui praticamente expulsa de Vanuire pela FUNAI, apesar do acolhimento dos indígenas. Percebi que não podia ir até as terras indígenas (os indígenas viviam como que em “campos de concentração”, isolados) fui para os museus, arquivos, centros de documentação. Fui buscar tudo que esclarecesse a vida dos indígenas, das florestas e dos animais que viviam ou viveram no oeste do Estado de São Paulo e que foram sendo expulsos ou assassinados para que os latifúndios de propriedade de políticos (como Lélio Pizza, Manoel Bento Cruz, etc) se estabelecessem na área dos indígenas, das florestas e dos animais silvestres. Me alimentando de aveia e água, e dormindo em casa de parentes que me acolheram (alguns que nem conhecia) fui realizando a pesquisa. Essa pesquisa foi importante para os indígenas e para os não indígenas entenderem o que aconteceu e o que acontece na nossa sociedade humana.

Existe alguma lembrança especial dessa relação com as comunidades multiétnicas de Icatú e Vanuíre?

Sim! Tudo que aconteceu e ainda acontece me marcaram e marcam. O que mais me marca é nosso companheirismo, nossa luta junto, lado a lado, sempre. Buscamos a memória e ela nos guia no dia a dia em busca de soluções para nosso cotidiano de enfrentamento do preconceito, da miséria imposta, do confinamento em pequenos espaços, de ver nossas cachoeiras nas fazendas dos latifundiários, etc. Estamos juntos! Sempre! A pesquisa tem que ter esse lastro no social se não tiver torna-se meio de guerras e de abusos.

Niminon Pinheiro-2
Visita à Terra Indígena Icatu, noroeste de São Paulo, Brasil

Quem foram os povos indígenas e quem eles são hoje?

Foram pessoas normais que viviam a vida tinham seus filhos e realizavam suas cerimônias, sua educação. Seu processo cultural foi violado pela guerra da conquista e da colonização e tiveram que conviver com sociedades competitivas, com a propriedade privada e com a exploração do trabalho, exploração da memória, exploração do tempo e do espaço indígena. Hoje o indígena tem dificuldade de viver a vida, pois apesar dele ter sido muito rico, guardião de montanhas, lagos, rios, campos, cachoeiras, florestas, hoje ele, em sua maioria, trabalha em instituições de não indígena: fábricas, usinas, latifúndio, monocultura, etc. Muitos passam fome e frio, vivem em situação de desamparo e desesperança. São perseguidos para entregar o último reduto que lhes restam, como por exemplo o Pico do Jaraguá, na cidade de São Paulo. Essa situação miserável é inaceitável!

Qual a importância da sociobiodiversidade para o futuro de nossas gerações?

Ela é tudo! A sociobiodiversidade é a preservação do ser humano no mundo, em convívio harmônico com a fauna e a flora. A biodiversidade interessa aos grupos multinacionais, farmacêuticos. Para eles o melhor é ver o brasileiro indígena, caboclo, ribeirinho, camponês, morto! Com o extermínio dos brasileiros eles têm acesso total aos bens naturais, à biodiversidade que existe ainda hoje porque foi preservada por essas sociedades locais. A sociobiodiversidade valoriza os brasileiros, e outros povos simples que vivem o telúrico, conhecem há séculos o que nasce e cresce nesse chão!! A sociobiodiversidade interessa a nós brasileiros e a biodiversidade aos colonizadores pós modernos.

Qual o maior desafio para os povos e comunidades tradicionais na atualidade?

Viver, se manter vivos! Eles estão num ambiente hostil como foi a Europa para os judeus na época do nazismo. Os indígenas estão sofrendo muito e os brasileiros em geral são insensíveis a essa dor. Eles sofrem perseguição de jagunços, pulverização de agrotóxicos, contaminação por vírus, imposição de formas de viver e de pensar alienantes, falta comida, falta terra, falta cuidados sociais e de saúde.  Viver é um desafio constante, mas poderia ser diferentes. Se os indígenas fossem valorizados como deveriam ser todos sairiam ganhando pois a vida seria preservada, a abundância. Poderíamos criar espaços de troca de saberes e ninguém passaria fome. A arte e a política prosperariam e a paz reinaria sobre o alicerce do respeito à cultura e à vida de cada um em sua diversidade. Seria muito divertido! Viva os Indígenas! Viva a diversidade! Viva o amor pelo saber e pela informação!

Somos um povo que não valoriza a memória e a ancestralidade. Qual a sua opinião?

Niminon Pinheiro

Somos manipulados pelas diferentes formas de comunicação – TV, rádio, jornais, educação escolar, livros estrangeiros e nacionais “catequizadores”. Nosso povo tem dificuldade de pensar e agir para obter a concretização de seus direitos mais elementares como saúde, educação, moradia, alimentação. Os que nos criticam por tudo que acontece no governo e ao mesmo tempo estarmos aparentemente sem protestar não sabem dos assassinatos, desaparecimentos, massacres e chacinas, episódios de violência extrema que acontecem  na surdina, na calada, que ocorrem por aqui e ninguém fica sabendo porque não sai na mídia. É muito difícil viver em sociedades “colonizadas”, pois a colonização acontece primeiramente nas mentes das pessoas, é uma violência silenciosa, opressora e castradora da criatividade e da vontade.

Se tivéssemos comida, um lar agradável, bem poderíamos pensar em arte e política, mas na miséria só pensamos o que comeremos nas próximas horas. Alguns furam esse cerco de escuridão e erguem-se em protestos contra a opressão e a violação dos direitos humanos básicos, mas a maioria sucumbe na ignorância. Negligenciamos as nossas contribuições às regras que regem as relações sociais. Esse é o custo da ignorância.

O que é ser feliz?

Ser feliz é comer bem, viver com os amigos indígenas e não indígenas, ver a família feliz, ter um trabalho que não explora você, que não explora crianças, que não explora idosos. Acreditar no futuro e no melhor dos seres humanos. Saber que todos somos seres vivos, pensantes, com discernimentos diferenciados porem em conexão. Sentir os mais distintos ventos roçar nossos corpos e conversar com a lua, o sol, as estrelas, os mares e oceanos. Sentir a presença curativa dos ancestrais e a força poderosa do amor.

Ahowww! Ererré! Manrã! Aiapoekoé!

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Autor

Etnobiólogo.

Especialista em Antropologia e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará.