“Jaci Paraná é um microcosmo que representa a dinâmica das grandes obras no Brasil” – sobre energia e pessoas

Entrevista com Carlos Juliano Barros (Diretor de «Jaci: Sete Pecados de Uma Obra Amazônica»)

Enchente Rondonia
Enchente Rondonia

Capacidade instalada de 3.750 MW, área de reservatório com 361,6 Km², dimensão de área inundada de 31-108 Km², volume total de 2746,7 x 108 m³, altura máxima de 62m, comportas com 8,4m de altura e 21,82m de altura, 50 turbinas.

Os números falam. Mas eles não dizem nada sozinhos…

Os números da hidrelétrica de Jirau só podem ser contestados com depoimentos e  denúncias que vemos em Jaci: Sete Pecados de Uma Obra Amazônica. Durante o documentário números e palavras traçam um embate sobre quem diz, quem credita e porque diz sobre cada noção da realidade. – “Cidade do pecado”, “aberração jurídica”, “produzir energia a qualquer custo”, “o ônus do progresso”, “o ser humano acostuma com tudo”. Nesses fragmentos falam deputados, prostitutas, engenheiros, peões, sociólogos, e entre outros estão espalhados pelo filme, no qual todos refletem sobre irregularidades, disputas políticas e jurídicas, dívidas trabalhistas, repressão militar, criminalizações e violações de direitos.

Os números não dizem nada por si…

Carlos Juliano Barros dividiu a direção do filme com Caio Cavechini, que é uma realização do Repórter Brasil, e nessa entrevista ao Iberoamerica Social fala sobre as resoluções sobre o filme, as consequências de uma megaconstrução, embate ideológico em torno da ideia de “progresso”, e sobre memória.

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Como o tema chegou até vocês, e quais foram os processos de preparação para as filmagens em Jirau?

O filme é uma realização da Repórter Brasil, organização que se dedica à cobertura de temáticas trabalhistas e socioambientais. Logo, esse tipo de assunto – impactos de grandes obras – está sempre no nosso radar. Além disso, percebemos que as revoltas dos trabalhadores nas hidrelétricas do Madeira representavam algo novo na cena política brasileira. Ali se desenhava embrionariamente o rompimento do pacto social proposto pelos governos do PT. E, para além dessas questões, o povoado de Jaci, por todos os seus conflitos e problemas, nos parecia um terreno fértil em termos de registro cinematográfico.

Vocês deixam marcado desde o início a utilização de diferentes câmeras para o registro, como foi essa opção dentro da montagem? Ficou dentro de um marco estético ou mais logístico?

O grande desafio do filme consistia em entrar na obra e filmar o cotidiano dos trabalhadores, não só para mostrar a penosidade do serviço, mas também para captar reações espontâneas das pessoas na obra. Porém, só conseguimos fazer isso em duas oportunidades, como o próprio filme mostra. Então, nos demos conta de que os próprios trabalhadores estavam acostumados a fazer registros com câmeras de celular do seu próprio dia-a-dia, com a espontaneidade que buscávamos para o filme. Talvez o melhor exemplo seja o do trabalhador filmado dançando como Michael Jackson em pleno canteiro. Daí, a necessidade de material acabou virando linguagem. Por isso, usamos e abusamos desse tipo de registro – justamente para tentar dissecar o interior da obra pelo olhar dos trabalhadores.

Quais foram as maneiras de captação e contato nos 4 anos de realização das imagens com a população de Jaci Paraná? E como foi o retorno e exibição para os moradores?

Nós fizemos quatro viagens para a gravação do filme. As viagens dependiam dos acontecimentos que julgávamos imprescindíveis para o filme – como os episódios de greve e de enchente, por exemplo. Também fizemos contatos com personagens que acabaram sendo seguidos ao longo do processo de filmagem, justamente para tentar costurar a narrativa do documentário. Depois da estreia do filme no É Tudo Verdade, ele foi exibido em Jaci para a população local, com a presença do Caio Cavechini, que assina a direção comigo.

Como foi trabalhar a questões memorialística num curto tempo, e com um evento tão abrupto como a construção de uma usina de energia? Como você entende as consequências dessa obra na memória social e subjetividade dos moradores?

O filme retrata personagens muito diferentes – de migrantes sem qualquer relação com Jaci Paraná a moradores com forte raiz no povoado. De mulheres trabalhando como profissionais do sexo a famílias inteiras empregadas na obra. Mas, no discurso de todos eles, é possível perceber que a construção da obra é vista como um momento intenso, porém, transitório. Para a maioria, é uma aventura em busca de dinheiro – alguns até são bem sucedidos. Outros, nem tanto.

Qual a mensagem que essas megaconstruções revelam sobre as energias renováveis? Na sua leitura, como seriam as maneiras para travar, e melhorar a fiscalização dessas obras?

Curiosamente, o Brasil desenvolveu ao longo dos governos do PT um importante programa de energia alternativa à hidroeletricidade. Tanto é assim que os parques de energia eólica, por exemplo, cresceram bastante no país nos últimos dez anos. Mas o fato é que a matriz energética brasileira ainda continua dependente de grandes hidrelétricas – como o caso de Belo Monte, apesar de todas as contraindicações, não nos deixa mentir. Além disso, faltam recursos e vontade política para investir em programas de eficiência energética, minorando o desperdício. O que se percebe, ainda mais com os escândalos revelados pela Lava Jato, é que essas grandes obras são tocadas por empreiteiras que têm relação bastante promíscua com todas as esferas de governo. Em outras palavras, essas obras geram muitos dividendos para grupos empresariais e partidos políticos – apesar de muitas vezes serem bastante questionáveis do ponto de vista socioambiental.

Como você enxerga a atualidade de Jaci Paraná, depois desses anos, e qual o cenário que se mostra com outros projetos semelhantes na região amazônica?

Jaci Paraná é um microcosmo que representa a dinâmica das grandes obras no Brasil. Trata-se de um povoado com infraestrutura precária, que da noite para o dia recebe milhares de pessoas à procura de trabalho, sem qualquer planejamento, o que gera uma série de problemas – de violência urbana, de saúde pública, etc. Com o término da obra, as pessoas acabam indo embora, e os problemas gerados no curto espaço de tempo pela migração massiva continuam sem solução.

O documentário sofreu algum tipo de pressão político-empresarial? E quais foram os principais dilemas para a realização das filmagens?

Durante as gravações, o filme não enfrentou grandes problemas, além da dificuldade esperada de acessar o interior do canteiro de obras. Mas, quando o filme fez sua estreia na Globo News, por exemplo, o consórcio construtor da barragem – que não havia topado gravar entrevista, apesar de insistentemente procurado pela nossa equipe – enviou à emissora um vídeo institucional elencando os benefícios gerados pela obra.

Como você visualiza o embate entre a normatização da ideia de “progresso”, e um estilo de vida sustentável? 

Esse é o grande dilema da contemporaneidade: como conciliar a vontade – muitas vezes genuína – de promover a sustentabilidade com a necessidade de fazer a economia crescer, gerando empregos e ampliando o acesso dos cidadãos a bens e serviços? Esse é um problema de soluções bastante controversas. Hoje em dia, prevalece o discurso de que só o desenvolvimento tecnológico, combinado a uma gestão eficiente de recursos, é capaz de promover a sustentabilidade. Mas essa é, afinal de contas, uma briga ideológica. E a noção de progresso está completamente entranhada no debate político, da esquerda à direita.

Vocês tiveram importantes reconhecimentos internacionais sobre o documentário, como você entende essa divulgação e a dinâmica de conscientização e mobilização que as informações que vocês repassaram possam atingir as pessoas?

O filme foi exibido na França e venceu o prêmio do Festival Gabriel García Marquez de Jornalismo, na Colômbia. Percorrer esses circuitos de festivais é importante para conferir legitimidade ao filme, não só como matéria de denúncia jornalística, mas também como obra de arte. Além disso, o documentário é um registro histórico e serve como um alerta para que os erros não se repitam.

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Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

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