Indígenas: ninguém entra, ninguém sai

Segundo Cris Tupan, a fala do presidente da nação, chamando a população para o trabalho pode ter um efeito muito grave nessas populações pois as chances de se infectarem aumenta ainda mais.

Indígenas e coronavirus
Indígenas e coronavirus

Na aldeia Pirarupá, Palhoça, região metropolitana de Florianópolis, os Guarani enfrentam mais um – dos tantos e intermináveis – desafios com os quais se deparam cotidianamente, dessa vez com o novo coronavírus que, como para toda sociedade, está à sua porta. Desde que o processo de isolamento social começou, os indígenas se organizaram e têm mantido as aldeias fechadas para qualquer contato. Até porque, ainda reverbera na memória o fato de que uma boa parte dos parentes pereceu, no período da invasão em 1500, justamente por não terem os anticorpos necessários para enfrentar as doenças dos não-índios. E entre as famílias que seguem vivendo nas terras indígenas, demarcada ou não, isso ainda é uma realidade. “Para nós, esse fechamento das aldeias é muito ruim porque temos o costume de nos visitar, jogar bola, tomar chimarrão e fumar o ptyngua (cachimbo tradicional com tabaco). Mas, considerando o risco, assumimos aqui que ninguém entra e ninguém sai”, diz Cris Tupan, morador da aldeia.

Essa estratégia é boa para proteger a comunidade, mas tem seus inconvenientes também. Os indígenas, por conta da interação com a alimentação dos não-índios acabam tendo muitos problemas de saúde, sendo que a hipertensão e o diabetes são bastante comuns em praticamente todas as etnias. E entre os Guarani há muitos problemas respiratórios por conta do uso do ptyngua. O isolamento acaba inviabilizando a chegada de agentes e saúde e isso pode ter efeitos complicadores no andar dessas doenças, além do próprio coronavírus.

Ainda assim, Cris informa que as entidades nacionais de luta indígena estão procurando incentivar o isolamento em todo o país, procurando resolver caso a caso as situações mais críticas. Hoje, no Brasil, os povos indígenas estão espalhados por 400 municípios e conformam quase um milhão de pessoas. Um terço dessas almas estão em terras indígenas, aldeados e o restante vive nas cidades, muitos, inclusive, trabalhando em atividades comuns aos não-índios.

Segundo Cris Tupan, a fala do presidente da nação, chamando a população para o trabalho pode ter um efeito muito grave nessas populações pois as chances de se infectarem aumenta ainda mais. “Os que estão nas aldeias estão mais protegidos, porque as medidas estão sendo tomadas, mas os que estão na cidade ficam a mercê dos patrões”. Cris conta que as entidades indígenas, a partir dos seus grupos de saúde, tem feito um belo trabalho, junto com alguns parceiros, de traduzir as informações de cuidado e também sobre os sintomas da nova doença.

Indígenas e coronavirus
Cris Tupan, aldeia Pirarupá – Foto: Rubens Lopes

As aldeias de Palhoça estão recebendo cestas básicas da prefeitura, mas esse não é o cenário nacional. “Muitos de nossos parentes estão vivendo situações terríveis nesse momento como é o caso dos Avá-Guarani de Guaíra que tiveram suas terras tomadas depois que um juiz de primeira instância deu reintegração de posse para pretensos donos. Isso fragiliza ainda mais as famílias”. Outro caso grave é o dos Guarani-Kaiowá, da região do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que vivem acampados nas beiras de estradas, não podendo se isolar, sem receber ajuda do governo e hostilizados pelas gentes das cidades.

Até agora apenas uma morte de indígena por coronavírus foi contabilizada em Brasília, região onde vivem mais de sete mil indígenas. Outro indígena do Amazonas que trabalha como guia turístico teve contato com turistas estadunidenses e desenvolveu sintomas parecidos com o do Covid-19, mas o teste acabou dando negativo. Ele está isolado. “Para as comunidades esse isolamento geral  vai cobrar seus impactos no cotidiano, pois muitas aldeias conseguem garantir renda com o etno/turismo e também com a venda de artesanato e essas duas atividades estão suspensas. Daqui a pouco vai faltar comida e ir para cidade buscar é risco alto. Se um único indígena for contaminado pode colocar perigo em toda a aldeia”.

A decisão de garantir uma renda básica para os que estão cadastrados em programas sociais é boa, ele avalia, mas não atinge todo mundo. “Existem muitos parentes não cadastrados. Eles terão de enfrentar uma burocracia para garantir isso, o que significa ter de sair da aldeia”. Outro problema que está sendo tratado em paralelo com o do coronavírus pelas entidades indígenas é a decisão do governo federal de permitir que missões religiosas e agentes do estado façam contato com as comunidades ainda isoladas dos não-índios. “Esse contato pode significar a morte de todas as pessoas”.

Cris Tupan não descarta também a possibilidade de alguns grupos interessados nas terras indígenas usarem o vírus como arma numa guerra bacteriológica. “Sabemos do interesse dos latifundiários, dos mineradores e grileiros em geral de se apossar das terras indígenas. Muitos deles, inclusive, incentivados pelo presidente do país. E aí, infectar uma comunidade pode ser uma boa estratégia. Nós estamos alertas e preparados, inclusive podendo tomar medidas mais drásticas”. Ele se refere ao fato de o presidente Bolsonaro insistir no fim do isolamento. “Pode haver gente que queira confrontar os caciques e os caciques terão de deixar sair. Mas, a decisão é de que se sair, não pode entrar mais. Ou a gente se protege, ou está perdido”.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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