Hoje caiu um menino

Agora mesmo caiu um menino. Crivado de balas. Chutado, espancado, torturado. Caiu um menino, negro, pobre, “favelado”. Quando esse menino é filho de alguém famoso, como o da cantora Tati Quebra-Barraco, tem até direito a alguma divulgação. Mas, não se enganem. Ele ainda é culpabilizado por ser quem é. Se perigar, até a mãe é julgada.

E assim segue a vida. Todo dia, a cada hora, cai um menino. Assassinado pelo estado, pelas gangues, por um desafeto. Morrer assim é cotidiano. E nos programas policiais essas mortes viram espetáculos grotescos, que somente servem para criar a pedagogia do medo. Os meninos e meninas são números, estatísticas sobre a violência, deles, é claro. E nesses quadros, são as vítimas que aparecem como culpadas. “Alguma coisa tinha feito”. Não importa se, depois, no jornal do dia seguinte, aparece a história do caído: era trabalhador, vinha da escola, nunca esteve metido com nenhuma droga. Já passou. A mensagem principal já foi dada: era um negro, era uma negra, bandidos, bandidos.

E, se por acaso, alguém resolve questionar essa barbárie, esse massacre descarado que acontece dia pós dia, então aparecem os “cidadãos de bem”: leva pra casa, vadia dos direitos humanos, tomara que matem um parente teu, tomarem que te assaltem.

Ninguém está preocupada em destapar o véu da aparência. Por que existem as favelas? Por que os negros são maioria ali? Por que a miséria é regra nos morros e na periferia? Por que os meninos e meninas entram para o tráfico? Não, essas perguntas não importam. Não carece de saber. O que o sistema capitalista de produção quer que as pessoas saibam é o que diz o seu braço armado comunicacional. O discurso do Marcelo Rezende, do Datena e dos seus imitadores regionais. “São monstros, assassinos, sem alma e sem recuperação”.

Nada de história do Brasil, nada de debate sobre a escravidão e todo o seu legado de exclusão e miséria. Não, da escravidão o que se incensa é a abolição e a Princesa Isabel. Como se o dia seguinte a Lei Áurea tivesse sido de festa e alegria para os negros. Já a famosa Lei do Ventre Livre, assinada em 1871, foi uma aberração. A criança nascida de uma mulher escravizada era considerada livre. Coisa boa? Não! Se o “dono” da mãe não quisesse a criança, podia jogá-la na rua. Era livre. Não servia para o sistema. Vem daí a prática de viver na rua, meninos e meninas de rua, sem pai ou mãe. Livres! A hipocrisia de uma sociedade escravocrata.

Depois, com a abolição, os negros foram jogados na vida. Sem terra, sem casa, sem nenhuma política de acolhimento ou reparação. Virem-se! Era o que diziam os “generosos” senhores da classe dominante. Por mais de três séculos essa gente e seus antepassados traficaram mais de três milhões de seres humanos, trazidos para o trabalho escravo, que deu origem a essa nação. Quando o capitalismo já se fortalecia também nas Américas, o sistema de escravidão não fazia mais sentido. Era muito gasto garantir a vida dos escravizados. Melhor seria acabar com o sistema escravocrata para escravizar de outra forma, travestido de liberdade, sob o signo do salário. E assim veio a abolição. Nenhuma dádiva, nenhuma bondade. Só o faro dinheirista. Um trabalhador livre era mais barato que um escravizado.

Livres, os negros tiveram de encontrar, sozinhos, uma forma de permanecer vivos. Saiam das fazendas sem nada além dos seus corpos nus. Alguns foram incorporados como trabalhadores, mas a maioria ficou ao deus dará.

Essa é a chaga que ainda hoje segue aberta. A escravidão jamais foi reparada. Escondeu-se sob o manto da bondade da princesa. É o que se aprende na escola. E hoje, os “libertos” continuam a sofrer a dor da exclusão e da miséria. Por isso seguem sendo exterminados. Na cabeça da classe dominante há que matar essa gente que “mancha” a história da nação. E mata-se.

Os negros e as negras, filhos desses milhões de seres sequestrados de seus lugares, seguem aí. E exigem seu lugar nessa nação. Não como escória, porque não o são. Foi de suas mãos que brotou a riqueza do Brasil colonial. Sem eles, o projeto português teria fracassado. Há que coloca-los no seu verdadeiro lugar na história do Brasil. Não apenas como os que foram escravizados, mas os que garantiram com seu trabalho – a única força que gera valor – a existência dessa nação mestiça. Por isso eles estão em luta, cada dia e todo dia. Porque precisam combater inclusive a própria história oficial que os subalterniza e os diminui, na medida em que não expressa a verdade.

E é nessa batalha que estão por aí, a cair, todos os dias, os meninos e meninas negras da periferia. Porque precisam enfrentar, além da miséria, os escravocratas desse tempo. Os filhos dos velhos “senhores” e os que são ensinados por eles a odiar os negros. A classe dominante de hoje descende da mesma velha classe que dominou no Brasil colonial, com alguns adendos de novos ricos. São os mesmos que patrocinam os meios de comunicação para que sigam contando mentiras, escondendo as verdades, e construindo preconceitos.

O sistema capitalista de produção é o que determina o racismo estrutural. Morto o primeiro, estaremos dando passos gigantes para que a história seja recontada e para que o preconceito e a discriminação desapareçam.

Mas, enquanto isso não acontece  – batalha dura e difícil – temos de seguir contando e combatendo. Nós, não-negros, mas sabedores da história. E os negros, que sabem e sentem. Por isso que cada menino caído é um punhal cravado no peito. Não importa se era um bandido, um marginal, um traficante. Porque, no fundo, esse, vencido pelas circunstâncias, era um menino que não teve a oportunidade de ser outra coisa. Não por culpa dele, mas de um sistema que oculta a história, nega a vida plena e engole as pessoas em nome do lucro.

Agora mesmo caiu um menino. E isso tem de acabar!

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Autora

Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.