“Global citizens wanted” (II): confrontando o discurso dominante sobre a internacionalização do currículo na educação superior

Para os situados “deste lado” da linha abissal, mais relevante do que a “internacionalização do currículo” é a “decolonização do currículo”.

“Global citizens wanted” (II): confrontando o discurso dominante sobre a internacionalização do currículo na educação superior
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Decoloniza tu mente - Cidadania global

No último texto, tratamos de como a noção de “cidadania global” enfatizada pelo discurso hegemônico sobre internacionalização do currículo na educação superior se refere a um construto naturalizado da modernidade/colonialidade, que só pode existir por vias da degradação ontológica e epistêmica do “outro”; de seu desaparecimento como realidade. Dado o histórico desmantelamento do sistema de referências da sociedade colonizada, que passa a ser descrita como uma sociedade sem valores, o Sul Global emerge no contexto de internacionalização como um espaço que demanda desenvolvimento e serviços e a serem supridos pelo Norte, com uma população cujas aspirações de “ser alguém”, “tornar-se um cidadão global” são valorizadas por aqueles capazes de “proporcionar” tais feitos.

A ênfase nesse discurso tem relação íntima com a “virada economicista” observada na educação superior contemporânea; integra-se a um projeto global decorrente do capitalismo como sistema mundial histórico, que se desenvolve de forma complexa e se exterioriza, entre outras formas, por meio da globalização mercantil da universidade. Trata-se de um contexto em que a universidade perde seu caráter de “instituição social” para transformar-se em “organização”, uma entidade centrada na lógica do capital, compreendida como pressuposto de desenvolvimento econômico, que tanto produz para o mercado quanto se projeta como tal (Sousa Santos, 2011).

Diante da insidiosa relação entre discursos como o da “cidadania global” e o excesso de racionalidade econômica/instrumental evidenciado na universidade, podemos argumentar que o atual alinhamento das grades curriculares e de seus conteúdos aos “padrões internacionais” – tendência visível, sobretudo, no Processo de Bologna – visa a inserir o ensino superior dentro da perspectiva da “economia do conhecimento”; isto é, intensificar a ideia de formação universitária como meio de aquisição das competências necessárias para lançar-se no mercado de trabalho (Rubião, 2013).

America latinaO desistímulo ao pensamento crítico na formação universitária, decorrente da racionalidade econômica/instrumental em evidência, insere-se na “pedagogia universal do trabalho” (segundo a qual “quem viver tem que trabalhar”) abordada por Foucault (1999) quando trata das relações de poder e dominação em que os “corpos” são investidos pelas instituições sociais modernas. Em analogia ao sistema de produção capitalista, que demanda o “adestramento da alma” do indivíduo com vistas à sua constituição como força de trabalho, a submissão do corpo ocorre por meio do controle das ideias; inscreve-se em uma mecânica natural, positiva, amparada no discurso e realimentada por novas narrativas.

Dado que “o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso” (Foucault, 1999, p. 29), interpretamos que o “cidadão global” imaginado pela internacionalização do currículo em muito se aproxima do homem operacional/reativo de Ramos (1972) ou do homo economicus de Foucault (1999). O “cidadão global” e o “sujeito sujeitado” têm mais em comum do que possamos conceber a primeira vista.

Em face dos riscos que o excesso de racionalidade econômica tem trazido à educação superior e à sociedade contemporâneas, a pedagogia universitária necessária ao sujeito do Sul é, fundamentalmente, uma “pedagogia decolonial”: uma perspectiva de formação que, para além das competências técnicas demandadas pelo sistema de capital, contemple em seu escopo a historicidade, a criticidade e a reflexividade como caminhos para a construção de um saber engajado e comprometido; que viabilize a consolidação de um destino próprio naqueles cujos sistemas de referências são diariamente destruídos pelas “divisões coloniais” que continuam a existir e governam relações e modos de existência.

Portanto, para os situados “deste lado” da linha abissal – uma divisão metafórica e invisível que separa as sociedades metropolitanas dos territórios coloniais, fazendo com que estes desapareçam como realidade (Sousa Santos, 2010) –, mais relevante do que a “internacionalização do currículo” é a “decolonização do currículo”; uma formação universitária voltada ao reconhecimento da pluralidade epistêmica do mundo, à revisão dos conceitos hegemonicamente definidos pela ciência e pela racionalidade modernas e ao desenvolvimento de um eu reflexivo, não ingênuo, sensível aos assuntos relevantes de sua sociedade e engajado com o destino de seu povo. Como Ramos (1996, p. 48) nos recorda, a consciência crítica surge quando um ser humano ou grupo social reflete sobre os seus fatores situacionais e se conduz diante deles como sujeito, “distingue-se da consciência ingênua, que é puro objeto de determinações exteriores” .

Referências

Foucault, M. (1999). Vigiar e punir: o nascimento das prisões (20th ed.). Petrópolis: Vozes.

Ramos, A. G. (1972). Models of man and administrative theory. Public Administration Review, May/June, 241-246.

Ramos, A. G. (1996). A redução sociológica (3rd ed.). Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

Rubião, A. (2013). História da universidade: genealogia para um “modelo participativo” (1st ed.). Coimbra: Universidade de Coimbra.

Sousa Santos, B. de. (2010). Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In B. de Sousa Santos & M. P. Meneses (Eds.), Epistemologias do Sul (1st ed.). São Paulo: Cortez Editora.

Sousa Santos, B. de. (2011). A Universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. (3rd ed.). São Paulo: Cortez Editora.

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Autor

É doutoranda em Administração na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), pesquisadora visitante no Center for International Higher Education (CIHE), Lynch School of Education – Boston College e secretária-executiva na Secretaria de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.