“Global citizens wanted”: cidadania global como construto do imaginário moderno/colonial da internacionalização do currículo

Para que o cidadão global exista, o “outro” – cidadão não-global, sujeito sujeitado, menos racional e humanamente inferior – também precisa existir.

“Global citizens wanted”: cidadania global como construto do imaginário moderno/colonial da internacionalização do currículo
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cidadania global
Fonte: https://www.ucl.ac.uk/global-citizenship-programme/what-is-global-citizenship

 

Em tempos de expansão e consolidação de um mercado mundial para a educação superior, a proliferação de rótulos, classificações e indicadores para fazer referência às tendências transnacionais no ensino e na pesquisa significa mais do que um exercício de tautologia ou tentativa imparcial de organização de um campo de estudo. Na ótica do capitalismo acadêmico, expressa a criação de novos “produtos” e “serviços”, construtos destinados a transformar-se em aspirações e atuar no imaginário daqueles que compram.

No plano da experiência imediata, o colonizado, que viu o mundo moderno penetrar até os cantos mais remotos da mata, toma uma consciência muito aguda daquilo que ele não possui (Frantz Fanon – Os condenados da terra).

Entre as tendências mais recentes no discurso dominante sobre educação superior mundial estão as ideias de “internacionalização abrangente” (comprehensive internationalization), segundo a qual o processo de internacionalização é uma necessidade estrutural destinada a “moldar o ethos e os valores institucionais e envolver todo o empreendimento universitário” (Hudzik, 2011, p. 6, tradução nossa), e de “internacionalização em casa”, estratégia voltada a transformar os campi universitários em “ambientes internacionais”.

A internacionalização do currículo – comumente definida como o processo de integração das dimensões internacional, intercultural e global aos processos de ensino e aprendizagem da educação superior – tem se apresentado como a referência mais recorrente da internacionalização em casa, sendo que a formação de “cidadãos globais”, dotados de “competências multiculturais”, integra o núcleo das justificativas para o seu fomento.

Organismos internacionais como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, ressaltam a necessidade de reformas curriculares mais condizentes com as demandas globais, voltadas à preparação dos estudantes para viver e trabalhar em um mundo globalizado e interconectado. Todavia, ao mesmo tempo em que encorajam a internacionalização do currículo e apontam para a cidadania global como o resultado mais esperado desse processo, não atribuem significados claros a esse termo.

Nesse sentido, de que falamos quando nos referimos a um cidadão global no contexto da educação superior contemporânea?

Em grande medida, a noção de cidadania global se relaciona à de cosmopolitismo: projeto que advoga uma “identidade comum” para toda a humanidade, em renúncia à identificação com matrizes culturais específicas. Ao criar a ilusão de um diálogo intercultural, todavia, essa noção mascara relações históricas de apropriação, exploração e desigualdade, assim como promove a defesa de uma forma particular de cultura.

As assimetrias de poder entre o Norte e o Sul no sistema capitalista mundial impossibilitam conceber a cidadania global aspirada pela internacionalização do currículo como um projeto multicultural ou pluralista. Como narrativa eurocêntrica radicalizada, o cosmopolitismo se ampara em universalização e individualismo; exclui de seu escopo quaisquer manifestações de localidade que não a sua. Assim, ao reivindicar uma identidade comum para a humanidade, clama pela articulação de histórias culturais diversas e heterogêneas em torno de uma única ordem global.

A noção de cidadania global, construto naturalizado da modernidade/colonialidade, depende de hierarquias territoriais, raciais, culturais e epistêmicas; necessita que o Sul só exista localmente e que aceite, de forma acrítica, que o Norte projete seu “local” como global, universal: sua cultura, seus valores e seus interesses como a cultura, os valores e os interesses de todos.

A aspiração para tornar-se um cidadão global, nesse sentido, necessariamente implica em diferenciação e exterioridade: para que o cidadão global exista, o “outro” – cidadão não-global, sujeito sujeitado, menos racional e humanamente inferior – também precisa existir. Transformar-se em cidadão global, nesses termos, demanda ao sujeito do Sul “ser aperfeiçoado”, perder sua autorreferência genuína e originalidade, submeter-se, mais uma vez, às normas do “colonizador”.

Se ele se encontra a tal ponto submerso pelo desejo de ser branco, é que vive em uma sociedade que torna possível seu complexo de inferioridade, em uma sociedade cuja consistência depende da manutenção desse complexo, em uma sociedade que afirma a superioridade de uma raça (Frantz Fanon – Pele nega, máscaras brancas).

No contexto contemporâneo da educação superior, em que os currículos, os idiomas e as experiências culturais são padronizados para fins de “excelência acadêmica”; em que os países, as instituições universitárias e os sujeitos distanciados da lógica reprodutivista demandada pelo sistema de capital são postos em termos deficitários, quem é o “cidadão global” aspirado pela internacionalização do currículo, senão o sujeito branco, europeu, capitalista? O que um “cidadão global” tem a contribuir com a sua própria realidade contextual, se é cúmplice de sua volatização e deseparecimento?

Referências

Fanon, F. (2005). Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora da UFJF.

Fanon, F. (2008). Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA.

Hudzik, J. K. (2011). Comprehensive internationalization: from concept to action. Washington: NAFSA.

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Author Details

Trabalha na Secretaria de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e cursa doutorado em Administração na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Florianópolis, Brasil.

É pesquisadora na área de educação superior e gestão universitária pública, particularmente interessada no fenômeno de internacionalização da educação superior.